Monday, 22 October 2018

Gamanços entre gente boa

Onde se questiona o verbo gamar
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Munch - The Scream

Fulano Untal é pseudónimo, não me atreveria, por motivos de discrição, a tratá-lo por nome próprio e de família (das boas). Era do género bem-educado e estudante aplicado, bonitão, divertido, dançarino e desportista, enfim, cidadão respeitado e respeitável, defensor dos bons costumes nacionais e tradicionais. Trazia ao pescoço uma cruz de oiro de lei, afirmação inequívoca da sua fé e nada de errado nisto, aliás aquele símbolo religioso nunca lhe trouxe problemas nem perseguições pelas bandas onde viveu. E até cantava no coro da igreja, elevando a alma dos presentes quando a sua voz de barítono entoava o Ave-Maria de Schubert ou mesmo de Gounod.

E que não se pense que era um bota-de-elástico obtuso, não senhor, criticava as falhas da democracia, indignava-se com a corrupção e até pontificava sobre o meio ambiente com uma ruga de preocupação na testa. Bom contador, carregava nos bolsos uma quantidade inesgotável de piadas que nos faziam rir, eram de loiras, eram de homossexuais, eram de prostitutas, eram de políticos... Sendo descendente de brasileiros e lusitanos contava anedotas de portugueses aos primeiros e de alentejanos aos segundos. Eram as mesmas, todavia recicladas pela sua inenarrável criatividade para melhor servir o humor de quem o escutava. Até sussurrava pilhérias raciais («À boca pequena, não vá o politicamente correcto julgar-me em tribunal popular»), assegurando-se previamente que não havia gente encarapinhada e de pele escura entre a entusiasmada assistência. A sua esmerada educação impedia-o de ferir susceptibilidades. 

Para não pensarmos que era racista, tomava a precaução de exibir, nas redes sociais, fotografias abraçado a um negro, a um mulato e a um cabrito. Para quem desconhece a rica terminologia colonial, aqui vai explicação necessária: cabrito é o descendente de branco com mestiça ou vice-versa ou entre dois cabritos (de sexo contrário). E a propósito destes últimos, sacava logo chalaça apropriada, entre duas casquinadas, acariciando o crucifixo de oiro de lei: «Cabritos só em caldeirada». Claro que aquilo não era de pessoa racista, o dito cujo sendo, segundo ele próprio, de mente aberta: «Podemos rir de tudo, mas não com todos. Desde que não haja intuito de ofender». Ademais, revoltava-se com o lixo nas cidades e praias, condenava grafitos selvagens e escrevia nas redes sociais a sua irritação contra a falta de educação desta juventude preguiçosa. 

Uma integridade de aço inoxidável!  

Ora aconteceu um dia que algumas nuvens obscuras, empurradas por ventos migrando de Sul para Norte, turvaram esta bela alma, tão divertida, tão aberta, tão cheia de luz e probidade. E não só a ofuscaram, dir-se-ia mesmo que a envenenaram, porque aquele ser adorável, responsável, cristão e ecológico pôs-se, pouco a pouco, a escrever ódio em vez de amor, a trocar palavras de humanidade por adjectivos rancorosos, a substituir tolerâncias raciais por discriminações. Surpreendentemente, alguns dos que apreciavam aquele bom humor e aquela postura cidadã, foram também inquietados pelas mesmas nuvens que continuavam a soprar, cada vez mais fortes, de Sul para Norte. Era o vento que as trazia! Como sabes, o vento é uma movimentação do ar, que se desloca das altas para as baixas pressões, não é fenómeno complicado senão eu nunca o compreenderia. Mas Fulano Untal, estarrecido pelas nuvens escuras, e apesar da sua esmerada educação, tinha perdido o salutar espírito científico que o animara durante toda a sua vida. As nuvens negras insinuaram-se nos seus pesadelos, perdeu o sono e deu-lhe para tentar travar o vento com barreiras de palavras. Mudou muito... E um dia aconteceu coisa de assombrar! Apareceu-nos, de cenho fechado, sobrolho carregado e olho vermelho, exibindo aquela cruz de oiro, mas, ó espanto, dobrada nas pontas. 

Pecado? Blasfémia? Heresia? 

É que, dizem os entendidos nestas questões espirituais, uma cruz que se preza tem as hastes direitas, a horizontal cruzando a vertical. Que o instrumento de tortura apresente uma viga mais longa, menos simetria na composição... São detalhes sem importância. Mas curvada nas pontas? Houve mesmo alguém que, não se dando conta que era a mesma cruz de oiro que ele trazia desde a infância, agora retorcida, perguntou:

 Meu... Essa cruz... Onde é que a gamaste? (Do verbo gamar, claro, significando roubar. Nota do Autor)

 Foi gamada e forjada nos ventos invasores do Sul! - Grunhiu Fulano Untal numa voz rouca, tão diferente daquela que encantava os fiéis quando, no coro da igreja, se elevava num Ave-Maria de Schubert ou mesmo de Gounod. 

Fiquei pasmado! Sofreria o dito cujo de possessão demoníaca? Belzebu, viajando pelos ventos do Sul, teria encontrado caminhos foscos para corromper aquela alma tão pura? Abalado com a transformação, fui pedir conselho ao Rebenta-Balões que é, no caso de não o conheceres, um amigo meu, cáustico, amargo e ateu, descrente no futuro da humanidade da qual entrevê o fim, destruída pelos tornados e furacões da ignorância. Suspeito até que o bicho é de esquerda, mas não comentes isto com ninguém, não quero ver-me associado a esses anticristos... Vade retro Satanás !

Ele ouviu-me com a impaciência costumeira, riu-se, escarninho, cuspiu três palavras feias e fez-me esta pergunta, antes de desligar, que te reencaminho, para ver se compreendes alguma coisa, porque eu, ignorante e ingénuo como sempre, não pesquei patavina:

 E tu? Já gamaste a tua cruz?

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© Carlos Taveira

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
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Thursday, 20 September 2018

Isto havia de ser no meu tempo...

Onde se questionam os bons velhos tempos...
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«No meu tempo é que era...»; «Vocês hoje são uns mimados...»; «Isto havia de ser no meu tempo...» 

Era muito jovem quando ouvi estas pérolas de sabedoria dos mais velhos. Venceram as brumas da minha fatigada memória ao deparar-me com uma dessas preciosidades postadas no tapete rolante das redes sociais. O artigo enumerava um punhado de actividades que fizeram a felicidade da nossa juventude («Se és deste tempo, partilha...»): Brincávamos com fisgas; ficávamos lá fora sem medo de raptos; apanhávamos umas chineladas no rabiosque que levantávamos para ceder lugares às meninas, senhoras e mais velhos; esfregavam-nos jindungo (piri-piri) na língua quando dizíamos asneiras; havia respeitinho aos professores armados com palmatórias de cinco olhos e ponteiros como matracas... 

Fui logo invadido por uma lufada de saudades das chineladas, reguadas, cacetadas e picantes na língua... E por uma compaixão sem limites em relação às gerações seguintes que não tiveram a oportunidade de gozar de tanta generosidade. Todo contente, peguei no telefone para partilhar este achado com o meu amigo Rebenta-Balões (que recusa as redes sociais), um tipo azedo mas muito informado que tem a mania de botar abaixo as certezas alheias. Ouviu-me com um silêncio inabitual, atípico e, contrariamente a um hábito arreigado, não me interrompeu a leitura. Devia ter logo desconfiado. Ademais respondeu-me com a voz melodiosa da raposa de Lafontaine, aquela que bajulava o corvo: 

— Que observações tão profundas. E no Facebook hã? Olha a coincidência, ainda ontem me deliciei com um artigo que até parece a continuação desse post. Espera aí, vou-te ler alguns excertos a propósito, escritos por homens famosos... Para enriqueceres as redes sociais. Ouve com atenção. Um: É a decadência, as crianças são desobedientes, a língua deteriora-se, os costumes degradam-se. Dois. Não têm consideração nem respeito pelos pais [...] Não tenho a mínima esperança nos jovens de hoje [...] Esta juventude está impregnada de presunção [...] Quando era jovem, ensinavam-nos as boas maneiras e o devido respeito aos pais. Três: Hoje em dia, os jovens só gostam de luxo, desprezam a autoridade [...] Não se levantam quando um adulto entra no lugar onde estão [...] Fazem troça da autoridade. Quatro: A juventude de hoje está corrupta até às entranhas, é má, descrente e preguiçosa. Nunca serão como a juventude do passado.

Exultei durante alguns segundos, manifestando o meu contentamento, era a primeira vez que o Rebenta-Balões estava de acordo comigo em alguma coisa. Alegria de curta duração, a voz de raposa bajuladora cambiou-se em riso de hiena trocista... Tinha caído numa esparrela! 

— Vamos lá então desvendar os autores destes textos. O primeiro é de Políbio, um historiador grego que viveu lá pelos anos 200-120 a.C. O segundo vem de Hesíodo, é um excerto de Os trabalhos e os dias, escrito no século 18 a.D. O terceiro devemo-lo a Sócrates que se queixava da juventude dos anos 470-399 a.C. O quarto é apócrifo, mas foi gravado numa tábua há cerca de 3000 anos, na Babilónia.

Empalideci e engoli algumas palavras feias que me saltaram à mente. E não se ficou por ali... Para me rebaixar ainda mais, o animal desempoeirou uma recordação muito pessoal que lhe tinha contado há alguns anos, pedindo-lhe segredo absoluto. Não lhe bastava ter-me lapidado com aqueles calhaus arrancados ao chão da história! Dado que és curioso, confio-ta, rogando-te que não a passes aos amigos nem a postes nas redes sociais: tenho uma reputação de pessoa bem-educada a defender.

Aconteceu num belo dia de Inverno, na cosmopolita cidade Montreal por volta de 1990. Ia de metro a caminho do trabalho e, como me tinha esquecido do livro, pus-me a contemplar o mundo à minha volta. Observação que degenerou em crítica silenciosa, ao constatar a falta de civismo de indivíduos que não cediam passagem. E de outros que, sentados, não davam o lugar a pessoas idosas nem a senhoras grávidas... Via-se logo que nunca tinham levado umas chineladas naqueles rabiosques preguiçosos quando eram meninos. A minha indignação foi aumentando à medida que o metro avançava pelos subterrâneos da cidade até chegar ao destino. 

Era este exacto momento que o Rebenta-Balões, de risota armadilhada na garganta, me recordava, para se deliciar com o meu embaraço:
— E que fizeste quando chegaste à tua estação... Conta... Anda lá!
— Levantei-me do meu assento e saí!

Desliguei sem dizer água vai!


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© Carlos Taveira

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
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Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

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Wednesday, 20 June 2018

O assédio do fantasma Africano

Onde se remata a história vivida de uma alma penada
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Shallow of people inside room with fireplace & armchair. Royalty free image. Source: pixabay.com
(Continuação do Assédio Do Fantasma Algarvio)

A temporada na casa do avô acabou-se e voltei para a cidadezinha bonitinha que me viu nascer. Havia calor sob as palmeiras, casuarinas plantadas nas areias das praias, uma baía de águas profundas, um farol que rodopiava, varrendo as trevas da noite, e gente às castas e às cores como acontecia nas colónias do império. Havia esplanadas onde se bebiam cafés e cervejas com tremoços gratuitos. Diziam os mais velhos que, no tempo deles, também não pagavam os camarões. Nessas esplanadas contavam-se frequentemente anedotas de macho, discorria-se sobre mulheres todos os dias e discutia-se futebol às segundas-feiras. Falava-se igualmente de livros, praia, caça e pesca, guerra e paz. Tudo isto a voz alta. De política era a voz baixa. E, é claro, havia histórias de almas penadas, bruxas, cazumbis e feiticeiros africanos cujos profissionais mais abalizados davam audiências numa aldeia chamada Dombe Grande. Não penses que só africanos de raiz visitavam bruxos, muito branco e mestiço de vários gradientes lá ia às consultas, encomendando serviços malignos ou benignos segundo as necessidades do momento.

Por associação lembrei-me de uma história que aconteceu na Catumbela, terra da minha mãe. Trata-se de uma antiga povoação que se encontrava no centro de extensões incríveis de cana sacarina onde, durante decénios, contratados miseravelmente pagos dobravam o espinhaço para a cortar. Nessa povoação foi cavado um cemitério que recebia (e recebe ainda, creio) os defuntos locais e os da cidadezinha bonitinha onde nasci. Estavam, portanto, reunidas todas as condições para a gestação de uma alma penada. E não é que apareceu? Uma dama vestida de branco que se materializava, à noite, na berma da estrada do cemitério, pedindo boleia aos machos incautos que por ali passavam ao volante de bólides. Os mesmos que, nas esplanadas, pontificavam sobre mulheres, futebol e fantasmas. Deparando-se com uma eventual presa perdida numa artéria de pouco tráfego, esmagavam os travões com os dois pés, faziam chiar os pneus, lambiam as beiçolas sensuais e embarcavam a senhora. Estás mesmo a ver que, para estrumar a sua reputação de conquistador ibérico, o nosso matador desatava logo a cantar-lhe a canção do bandido. A meio caminho, no entanto, a dama de branco, que não abrira a boca durante o trajecto, sumia abruptamente, provocando calafrios de terror na espinha dorsal do marialva.

Sumiço que, para mal dos meus pecados, não aconteceu com meu fantasma pessoal. Aquele que, de madrugada, na casa algarvia dos meus avós, me aterrorizava com o arrastar de pantufas: Shhh... Shhh... Shhh... Ora, como dizia, ao desembarcar de fresco naquela colónia de praias, baía e casuarinas, estava convencido que tinha deixado a minha alma penada na Europa, a assombrar algarvios. Na minha cidadezinha do Sul havia suficiente calor, humidade, mosquitos e paludismo para espantar fantasmas do Norte. Enganava-me redondamente! Para minha grande surpresa e pavor, a coisa manifestou-se numa bela madrugada da estação das chuvas. Não me lembro por que razão acordei, na altura gozava de um sono de pedra, e ainda não tinha a idade em que chegava às madrugadas por ter curtido a noite inteira. E sabes que aquilo não me largou mais? O assédio continuou, inexorável, impiedoso... Voltei a ouvir-lhe o arrastar, lerdo e terrível, das malditas pantufas. Não havendo corredor comprido, como no Algarve, a maldição passeava-se pela sala de visitas e varanda.

Cresci...

Cheguei àquela fase ingrata da pré-adolescência onde as borbulhas e o buço despontam, acordando-nos fantasmas na acepção francesa do termo (se não conheces a diferença entre fantôme e fantasme vai ler o artigo anterior). O assalto impiedoso das hormonas trouxe-me outras alterações caracteriais: tornei-me menos assustadiço e mais fanfarrão. Gabava-me, entre outras coisas, da minha lógica implacável que negava a existência de almas penadas. O que, evidentemente, entrava em conflito com a minha experiência pessoal na matéria. Ora aconteceu que numa bela madrugada em que a assombração se manifestou, e galvanizado pelas tais hormonas púberes, em vez de me enterrar nos lençóis, gritei um surdo: Basta! Num elã de bravura de que me gabaria toda a minha vida, penteei o buço, enchi o peito esquálido e preparei-me, de punhos feitos, escanzelados, para caçar a avantesma. Assim que o ruído dos passos atingiu o volume máximo, levantei-me num supetão e corri para a sala de visitas... Vazia! O som chegava-me agora da varanda, para onde me dirigi... Nicles! O covarde, intimidado pela minha intrepidez, tinha-se esgueirado para a rua. Precipitei-me para a varanda, debrucei-me no parapeito... E que vejo eu? Uma varredora!

Afastava-se, arrastando pela rua a longa cabeleira da imensa vassoura: Shhhh... Shhhh... Shhhh... Sentei-me num banco e ri-me sozinho, descontroladamente, mas contente: a lógica vencera a superstição! Pus-me a observar a mulher que continuava, ao longe, a ganhar a sua vida empurrando uma vassoura e fiz comparações. No Algarve, os seus homólogos eram homens brancos, ataviados com roupas remendadas e calçavam botas gastas. Naquela cidadezinha bonitinha eram mulheres negras, descalças, vestidas de panos, com lenços na cabeça e filhos às costas. Explica-me lá tu, pessoa instruída, por que diabos de razão o som da pobreza era o mesmo... E assustador!



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Wednesday, 16 May 2018

O assédio do fantasma Algarvio

Onde se conta a história vivida de uma alma penada
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Hoje é de fantasmas, almas penadas e coisas afins que falamos. Talvez nem existam, mas os espanhóis garantem que «Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay» enquanto os ingleses, na sua lógica fria, pretendem que cada castelo britânico que se preze abriga o seu fantasma. Em África abundam («Tem cazumbi», ouvi bastas vezes dizer) e até emigraram nos porões dos veleiros, para consolar milhões de escravos agrilhoados e fazer carreira do lado de lá do Atlântico. Mesmo o Facebook, propriedade daquele milionário com cara de reguila simpático, não escapa à infestação das almas penadas, fantasmas pavorosos e exorcistas de todo o género. Exemplo: posta-se a fotografia de uma criança em crise, diagnostica-se-lhe possessão e receitam-se-lhe chapadas. 

Até onde a memória do nosso passado alcança, chegam-nos ecos de seres do outro mundo, alguns protectores, outros vingativos. Se um dia virar alma penada, hei-de transformar-me em vírus de computador, assombrando discos rígidos de políticos e juízes, destruindo-lhes os cadeados e derramando por esse mundo fora coisas que muitos de nós gostaria de saber e aquelas que evitamos, para não mancharmos a reputação dos nossos heróis preferidos. Porque isto de verdades tornou-se coisa complicada, a mentira é cristalina, acessível, de fácil manipulação e sem necessidade de provas: basta repeti-la assiduamente para convencer quem quer ouvi-la. Não te vás embora que não estou aqui para analisar lógicas binárias, é de fantasmas que te venho falar...

Faço outro parêntesis para precisar significados, no caso de utilizares o francês como língua alternativa. Já alguns francófonos (e francófonas) muito se riram de mim quando, todo contente, lhes falei no meu fantasme pessoal, objecto deste artigo. É que na língua de Molière a coisa não tem o mesmo significado que na de Camões. Na primeira significa literalmente fantasma sexual (o outro diz-se fantôme), enquanto na segunda, quando de sexo se fala, deve precisar-se-lhe o intento. A mais antiga alma penada que a minha parca memória registou podia levar à confusão entre os dois fantasmas, porque se trata de uma costureirinha que se revelou em várias cidades daquele rectângulo à beira mar espigado. As lendas divergem, a mais corrente diz-nos que a dita moçoila, aquando em vida, não cumpriu uma promessa feita ao possante São Francisco (nome escolhido pelo actual papa). Consequência: dado que com santos não se faz farinha, a infeliz, ao morrer, foi condenada a dar ao pé no pedal da Singer para a eternidade... Em vez de se divertir a dar com os pés aos pretendentes como me fizeram (quase) todas as minhas namoradas. Que, aliás, não perdem pela demora, esperem que passe para o outro lado da linha do horizonte, me transforme em vírus Cazumbi e me infiltre nos vossos computadores. Hei-de saborear as calúnias que, sobre mim, escreveram umas às outras... Regalo-me antecipadamente com a vingança! 

Lá estou eu a divergir, tenho dificuldade em perseguir objectivos, prefiro perder-me por estradas nacionais (a não confundir com nacionalistas) à esquerda e à direita, embora tenha as minhas tendências. Acho tedioso guiar por auto-estradas com destinos preestabelecidos e altos cartazes de propaganda pelo caminho. É monótono, aquilo é seguir adiante obedecendo aos sinais, sem olhar para os lados, evitando o contacto com povoados pobres, lagos poluídos e florestas carbonizadas, não vá a miséria deste mundo distrair-nos do que é essencial: a eficiência (ou a eficácia?) na manipulação do veículo! Olha que chatice... Persisto em derivar! Se continuo assim vou ter de dividir isto em duas partes, coisa que detesto quando leio e me deparo com aquele infame: a continuar no próximo artigo... 

A coisa aconteceu-me era eu de idade curta, na casa dos meus avós. Em Faro, por uma razão simples, é que eles eram algarvios e um algarvio volta sempre ao seu Algarve. Estava eu por lá a passar uma feliz temporada, eram passeios sob os galhos das amendoeiras em flor, diversões nas feiras e visitas à ilha, ainda poupada pela avalanche de turistas, o único incidente infeliz do qual fui vítima (antes da assombração) tendo sido uma dolorosa ferradela de abelha no pescoço. Era muito menino para pensar (e sobretudo falar) contra ou a favor de um indivíduo sobre o qual as opiniões divergiam, homem bem penteadinho, calçado com botas-de-elástico e a quem o Vilhena da Gaiola Aberta chamará um dia fantasma (na acepção portuguesa do termo) de Santa Comba Dão! Embora já fosse fantasmagórico para muita gente, ainda não se transformara em alma penada. Não foi ele, portanto, quem me amargou as madrugadas. 

Apesar de já ser inocente, a minha ignorância não ia ao ponto de não saber o que era um fantasma. Não porque tivesse visto algum em carne e osso, passe a expressão porque se é espírito de morto não tem substância terrena. O meu conhecimento sobre o mundo dos espíritos vinha de conversas catrapiscadas entre adultos e de um livro sobre espectros, surripiado numa estante lá de casa. Repousava ao lado de um outro que me acompanhou toda a vida, uma recolha de poemas de António Aleixo, poeta cauteleiro algarvio que morreu encharcado de pobreza e tuberculose, vendendo ao desbarato riquezas deste género: «Sei que pareço um ladrão / Mas há muitos que eu conheço, / Que, não parecendo o que são, / São aquilo que eu pareço

Voltemos às almas penadas. Como dizia, travei conhecimento, teórico, com fantasmas vários, inclusivamente com mouras de uma época esquecida em que o Algarve se chamava Al-Gharb (Oeste em árabe). Tratava-se de morenas de rara beleza e olhos enormes, negros, inquietantes, que deixaram doces recordações aos cristãos que as expulsaram, gerando bastos fantasmes (na acepção francesa do termo) nos homens e lendas de mouras encantadas na população em geral. Tem-se assistido ultimamente ao regressar das descendentes de muitas dessas muçulmanas a países do mercado comum europeu. Todavia, e mau grado a semelhança com as outras das lendas, os sentimentos que hoje lhes votam os garbosos cavaleiros cristãos são opostos aos que por elas sentiam os seus correligionários de antanho. Bom... Regressemos ao fio da narrativa, não vá ferir-me no fio do sabre de algum Dom Quixote prenhe de tradições cavalheirescas. 

Em Faro, no antigo casarão dos avós, com quintal poço e tudo, havia um corredor comprido e o quarto onde eu dormia situava-se ao lado da porta de entrada. Ora, numa bela madrugada de Verão, fui acordado por passos corredor acima: Shhhh... Shhhh... Shhhh... Um som alongado, cadenciado, como quem arrasta preguiçosamente pantufas gigantescas, lerdo como o andar daqueles mortos-vivos do cinema de hoje, com olhos sanguinolentos a cair, vestidos de farrapos de carnes verdes, putrefactas. Começavam ao longe e aumentavam de volume à medida que avançavam: Shhhh... Shhhh... Shhhh... Quando alcançaram à porta do quarto, enterrei a cabeça, apavorado, nos cobertores e tapei os ouvidos. Quando me descobri, as pantufas iam longe. Uf!

Doravante, sempre que tinha o azar de acordar de madrugada, ouvia-lhe, com o coração às marteladas, o arrastar dos passos aterradores. Seria eu vítima de uma moura encantada em pantufas que decidira amargar-me a existência cristã, deambulando corredor acima pelas madrugadas farenses? É o que vamos descobrir dentro de duas semanas, na segunda parte deste conto fantástico... Mas verídico!

(A continuar no próximo artigo...)
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Wednesday, 21 March 2018

Navegações flibusteiras e Imperiais

Dos piratas, dos impérios e dos imperadores

«...e porque hoje é terça» Fotografia da minha prima Margarida Araújo 
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«[...] que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? [...] Foi o que com finura e verdade respondeu a Alexandre Magno certo pirata que tinha sido aprisionado. De facto, quando o rei perguntou ao homem que lhe parecia isso de infestar os mares, respondeu ele com franca audácia: 'O mesmo que a ti parece isso de infestar todo o mundo; mas a mim, porque o faço com um pequeno navio, chamam-me ladrão; e a ti porque o fazes com uma grande armada, chamam-te imperador'» (1).
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Afoito, o pirata, hã? Santo Agostinho, que nos conta esta história, não diz o que aconteceu ao salteador, mas, conhecendo os imperadores, é lícito deduzir que não morreu de velhice. E é bem possível que tenha ido desta para melhor a meio de sofrimentos cruéis dado que a tortura era nesses tempos, como o é hoje, permitida, e os carrascos dessas épocas, assim como os modernos, não enfrentavam a justiça... Contudo, sejam piratas ao timão de ferros velhos ou almirantes ao comando de frotas imperiais, todos eles apontam as proas para mares sem horizontes, os primeiros pilhando incautos, os segundos submetendo povos e nações, sugando-lhes as vastas riquezas.

Já que falamos de mar e barcos... Se nasceste diante da vastidão dos oceanos, houve dias em que te sentaste na areia da praia e te quedaste meditabundo diante daquela linha que se instalou entre águas e firmamentos desde que o mar é mar e o céu é céu. Sonhei, numa bela noite de Inverno, que essa linha representava a fronteira entre este mundo e o outro e que só se trespassava uma vez. Contudo, quando, acordados e em busca de respostas, a perseguimos a bordo de qualquer coisa que flutue e navegue, chegamos à conclusão que é fronteira virtual, limitando quem não teve a curiosidade de tentar atravessá-la. Porque assim são muitas das fronteiras que os imperadores levantam, dividindo o planeta entre eles, em reuniões de cúpula e cimeiras civilizadas. E quando não chegam a acordo, empregam uma táctica comprovada, põem-se a fazer guerras em terras alheias para não escangalharem as deles.

Céus... Estou tão sério, hoje!

É porque ando inquieto. Disseram-me que há por aí gente poderosa à cabeça de superpotências que, para intimidar eventuais inimigos, atafulham de bombas atómicas os arsenais dos respectivos exércitos. Cruzei logo os dedos, esperando que fosse um desses boatos que congestionam as redes sociais. Como ando sempre a leste daquilo que se passa a oeste, desnorteio-me e, dado que sou desconfiado como todos os ignorantes, fui vasculhar notícias e artigos, análises e arquivos, para fazer uma ideia sobre os impérios que dominam os nossos oceanos. Como sabes sou de compreensão lenta e levei muito tempo nestas pesquisas, mas não desisti, a persistência compensa-me a inocência. E, imagina, depois de muito contar pelos dedos para me certificar, encontrei três! Mas não te desvendo os nomes, é segredo, tenho medo que os espiões imperiais leiam este blogue, e o coloquem, sobretudo o meu nome, numa lista negra. 

É porque, modéstia à parte, acho que tenho algumas semelhanças com o salteador marinho da história do Santo Agostinho, mas sem bravura nem crueldade. Tal como o dito flibusteiro, navego num barco solitário, não-alinhado, que pesca em vez de abordar presas, tentando aproximar-se daquele horizonte sumiço onde se escondem terras prometidas e respostas a tudo. Um dia hei-de atravessá-lo, acontece-nos a todos e, como todos os outros antes de mim, não regressarei para contar o que descobri. Mas olha, às vezes até se aprende com marinheiros veteranos que andaram lá perto. Sei-o porque, durante esta vida de inapto navegador que ventos e correntes mareiam facilmente, fui convidado a bordo de navios governados por navegadores de mar alto, homens ou mulheres conhecedores das profundidades marinhas por muito as terem sondado. Mau aluno, retive pouco do muito que me ensinaram, o suficiente porém para reconhecer quais as naves governadas pelos sábios que enfrentam, com a mesma galhardia, ventos contrários ou de feição. Alguns desses capitães de longo curso já atravessaram a linha do horizonte, deixando, à ré dos navios, sulcos profundos doirados pelos poentes e esteiras largas onde marulham fragmentos de sabedoria que continuam a inspirar-me.

Mas que coisa... Continuo tão sério... Estava a falar de quê?

Ah, já sei... Antes de cair na melancolia, perorava sobre os três impérios que as minhas explorações descobriram... E sabes o que é que me deixa intrigado? Que há 2,300 anos um simples pirata e há 1,600 um santo, tenham compreendido a natureza dos impérios enquanto hoje há quem defenda um deles contra os outros dois. Tu, que és pessoa instruída, és capaz de me explicar a diferença entre eles? Porque, vistos da minha praia, todos eles possuem frotas imensas, exércitos de espanto, espiões aos milhares e fábricas de bombas atómicas. Tudo isto governado por homens implacáveis que, mesmo quando ridículos, não deixam de ser perigosos com aquela mania de fazerem guerras interpostas que já esburacaram nações onde muitos de nós nasceu. Três impérios revolvendo o mundo à cata de terras, ouro e petróleo, dizia eu? Esquisito... Não faço ideia por que razão, mas veio-me ao espírito aquele western spaghetti, hoje um clássico do cinema: «O Bom, o Mau e o Vilão». Viste? Conta as aventuras de três aventureiros que, assanhados pela cobiça, percorrem o mundo deles, matando e torturando à esquerda e à direita, na perseguição desenfreada de um tesouro escondido. E o duelo final... Lembras-te? Uma obra-prima! Três pistoleiros, olhos de águia, atentos, que se vigiam, mãos roçando as coronhas dos seis-tiros, prontos a sacar e matar outra vez. Tudo aquilo por causa de um magote enterrado num cemitério, a meio de um mar de cadáveres.

Optimista esse Sérgio Leone, não achas? Havia um Bom naquele trio.

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(1) Santo Agostinho, A cidade de Deus. Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições de J. Dias Pereira.
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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507


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Wednesday, 17 January 2018

Abelhas e abelhudos

Do mel das abelhas e do zunzum dos abelhudos
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Matt McKee. - «Honey Doo», 2016 / Mckeephotography.com. Citado por Le Monde Diplomati, Dezembro, 2017


Sabes o que é me apavora nas abelhas? O ferrão desde que, em garoto e de férias no Algarve, fui picado numa feira de Faro. Felizmente andava pela mão do meu avô que comprou logo uma bagaceira e inverteu o bocal do cálice na picadela, para a desinfectar. Há uns anos voltei a ser ferrado, no quintal cá de casa, desta vez por um pelotão de vespas agressivas de sentinela ao ninho subterrâneo. Lembrando-me da cura do avô, fui à procura de uma boa aguardente na garrafeira. Infelizmente não havia, tive de me contentar com dois conhaques em balão não aquecido, enquanto tratava as ferradelas com produto apropriado.

Falando de abelhas...

Já leste seguramente aquele prognóstico assustador: «Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência». Está por todo o lado nas redes sociais e o augúrio é validado pela foto de quem o teria afiançado: um senhor já idoso, rosto lavrado pelas rugas, cãs, cabelos despenteados e bigode farfalhudo, com ares de sábio. Adivinhaste, é esse mesmo, Albert Einstein, cientista de grande nomeada. E não é porque o homem é defunto que a sua reputação morreu. Mister Google encontrou «cerca de 37,500,000 resultados (0.56 segundos)» em resposta à minha pesquisa «"einstein" "facebook" "twitter"». O augúrio sobre o fim da humanidade deve ser, portanto, sério, dado que, cientista responsável e reconhecido mundialmente, o tal génio ponderava as suas opiniões e nada aventava sem provas matemáticas. Como, por exemplo, a teoria da relatividade de que tanto se fala, assunto no qual não meto o nariz, é demasiado complexo para as minhas meninges atrofiadas. Mas no que respeita às abelhas achei a afirmação duvidosa, o homem nunca se arriscou a percorrer trilhos desconhecidos. E, imagina, nunca foi entomólogo! 

Como para lá de ser ignorante e ingrato sou também desconfiado, armei-me em esperto e fui perguntar a quem sabe destas coisas, senhora dona Internet é claro, onde estão escondidas as provas que permitiram ao distinto génio chegar à terrível conclusão. De clique em clique, lá fui navegando píxeis por esse mundo fora, lendo artigos escritos por pessoas com títulos universitários e pesquisas de outras que, como eu, duvidam de (quase) tudo. Depois de algumas horas deste labor, refastelado no meu cadeirão novo, confortável, com braços e tudo (que me deu uma grande trabalheira a montar), fui obrigado a deitar a toalha ao chão...

É boato! É patranha! É peta! 

Não há nenhum traço que Alberto Einstein, homem que calculava metodicamente antes de aviar conclusões, tenha agoirado tal calamidade. Quem o desmente, entre outros, não é um abelhudo qualquer, é o senhor Roni Grosz, conservador dos Arquivos Albert Einstein da Universidade Hebraica de Jerusalém, numa entrevista concedida ao Gelf Magazine e intitulada «Albert Einstein, Ecologist?» (1). É uma daquelas intrujices que, à força de tanto ser repetida, virou «verdade alternativa». 

E há mais...

A humanidade, segundo especialistas compenetrados, não sumiria com o desaparecimento das abelhas. Que algumas espécies melíferas estão em perigo, é verdade sim senhor, sobretudo nas regiões temperadas do globo: Europa, Japão, América do Norte e América do Sul. Assim reza o artigo (2) que li num mensal extremamente rigoroso com as fontes que cita. E os peritos onde o tal periódico foi beber informação dizem-nos o seguinte, a propósito de uma das causas do declínio das abelhas (a tradução é da minha inteira responsabilidade): «A apanha das flores começava mais cedo e as plantas não eram todas colhidas num curto lapso de tempo. Eram cortadas à mão, com foices, e as abelhas tinham tempo de recolher o pólen e de fugir dos camponeses. Hoje em dia as máquinas aspiram, ao mesmo tempo, flores e abelhas». Olha outro excerto interessante a propósito do Canadá: «Já não há flores nas pradarias canadianas, ceifamos antes da floração para produzirmos duas colheitas de feno a fim de alimentarmos as vacas com feno verde para que produzam mais leite». E os culpados não ficam por aqui, olha três outros. Efeito maligno de pesticidas, parasitas assassinos e este, que provavelmente é novidade para ti como o foi para mim: a água açucarada com que os apicultores alimentam as abelhas, retirando-as dos campos, e da polinização, dado que para a indústria o mel (=lucros) é mais importante do que as flores! Tomando como ponto de comparação o ano de 1960, os especialistas dizem-nos que, grosso modo, os enxames foram reduzidos a 50% nos EUA e a um terço na Europa. Problema adicional: diante destes desafios, há cada vez menos jovens interessados na apicultura. 

Menos má notícia, porém: há seis anos que não se registam quedas, o número de colmeias estabilizou-se: 17 milhões na Europa e 2,6 milhões nos EUA. Quanto à outra treta, que a humanidade desapareceria, os sábios dizem-nos que insectos polinizadores não faltam, como o raio das vespas que me picaram e me obrigaram a procurar conhaque para aliviar a dor. Embora todos estejam de acordo que seria uma tragédia económica e que a mortalidade entre os humanos aumentaria significativamente. E só para chatear Mister Facebook, aqui vão mais duas boas notícias:
1. Na Austrália, graças a um controlo estrito do estado, tudo vai bem.
2. No planeta, a quantidade global de colmeias aumentou desde 1961: passaram de 49 milhões a 83 milhões.
Este aumento constatou-se, segundo o tal artigo, principalmente na África Subsaariana, em países que recentemente foram insultados de shitholes por um certo senhor multibilionário, de penteado esquisito e de linguagem desbragada que chegou a presidente dum desses impérios que (des)governam o mundo. 

Desculpa lá este mau jeito, ter-te rebentado em plena face este balão de Facebook, mas tal é a verdade como dizem, e escrevem, os cientistas deste mundo. Coisa que até me deixou de mau humor porque - confesso-te baixinho, não digas a ninguém - eu também ecoei a tal patranha: «Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência». Para substanciar o que acima foi dito, coloquei, em rodapé, as referências que me instruíram. Infelizmente estão em francês e inglês, não encontrei desmentidos (não quer dizer que não hajam) nesta bonita língua em que escrevo. Sabes outra coisa que me chateia nos abelhudos produtores de patacoadas? Aquela mania de enxamearem as nossas caixas de correio com pseudo-notícias, acompanhadas de instruções precisas de como as partilhar com os amigos. Zunzuns sem ferrão, é verdade, mas sem verdades nos zunzuns.

Não sei quantas falsas notícias correm por essa Internet fora. Mas sei que, encabeçadas por títulos pavorosos («Se as abelhas desaparecerem...») ou de causar indignação («Corte suprema do Canadá legaliza sexo com animais»), há um enxame de abelhudos a desenvolver zunzuns que os incautos, aterrados ou indignados com os títulos (raras vezes lêem os artigos), reencaminham, com cliques nervosos de rato, para todos os seus contactos. Atraindo, é claro, um chorrilho de comentários bastas vezes assaz deselegantes. A propósito, confio-te um truque que alguém partilhou comigo: quando o expedidor te explica como enviar uma mensagem abrangendo a lista completa dos teus amigos... Desconfia! É um sinal forte que a dita mensagem é zunzum de abelhudo, não é mel de abelhas.

Porque abelhas e abelhudos são grandes polinizadores, um de flores, o outro de pataratas.

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(1) Vincent Valk, Albert Einstein, Ecologist? Guelf Magazine, 25 Dezembro de 2017
(2) Raúl Guillén, Ce que les abeilles murmurent à l’oreille des humains, Le Monde Diplomatique, Paris, décembre 2017. p 22-23
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A propósito das abelhas. Referências online: 

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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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