Tuesday, 7 November 2017

Dobrando bocas em dobro

Onde se fala da utilidade de bocas a dobrar
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Futakuchi-onna
Se ignorares este artigo não perdes nada e isto não é boca para te ferrar. Foi inspirado (o artigo, não a boca) numa pergunta que corre pelo Facebook: «Porque temos duas orelhas, dois olhos e somente uma boca?». Li-a no mural do Carlos de Jesus, editorialista da LusoPresse. E não é que a pergunta se desdobrou numa série de outras que me ficaram a roer cá por dentro? Foram tantas que decidi publicar um sumário desse auto diálogo, adicionando outro artigo inútil à inutilidade dos anteriores. Mas olha, diverti-me comigo próprio, como se tivesse uma boca que falava e uma outra que da primeira se ria. Senti-me, como se dizia na minha juventude, um «bocas», quer dizer alguém que, como diz a deselegante expressão popular, «arrota postas de pescada». Afinal isto de bocas até tem muito que dela se diga. Que se diga aos ouvidos, claro, porquanto uma boca (ou um «bocas») não ouve, apenas se ouve. Mas houve (e há) muita gente que dela (boca) se serviu para bastos, e por vezes inconfessáveis, propósitos que, quando multiplicados por duas (bocas), dão resultados surpreendentes, preocupantes ou simplesmente divertidos. Partilho o meu brainstorming com quem teve a pachorra de me ler até aqui e até lá abaixo continuar a fazê-lo. 

A primeira pergunta que me coloquei foi óbvia: onde seria posta a segunda boca? É decisão delicada, basta olhar para a cabeça dos humanos, atravancada de órgãos e apêndices capilares. Hás-de concordar comigo: a cabeça é o território natural para se implantar uma segunda boca! Não faria sentido nenhum impingi-la ao peito ou às costas. Haveria que adaptar o vestuário, prever um orifício bucal libertando a boca peitoral ou dorsal. Com tanta boca sufocada neste mundo, por que razão impedir uma outra de se exprimir livremente, sem abafos? Está fora de questão colocá-las nos membros, posteriores ou anteriores. Ao bloquear um golpe com o antebraço, ou ao desferir um pontapé, lá se nos partiam os dentes e se nos fendiam os lábios. Além disso, no caso extremo de virarmos manetas ou pernetas, viraríamos zarolhos. E que dizer de quem fala pelos cotovelos? Seria igualmente irreflectido implantá-la numa das bundinhas, estaríamos condenados a sentarmo-nos sobre uma só (bundinha) para não esmagar a boca implantada na outra. No pescoço? Ideia a considerar! Uma boca na nuca, de muita serventia para quem diz uma coisa pela frente e outra pelas costas.

Depois de avaliar várias opções caiu-me o olho num design criativo: duas bocas frontais. Imagina: comissuras dos lábios roçando-se abaixo do filtro (aquela concavidade no centro geodésico da face), lábios alongando-se bochechas acima até aos lóbulos das orelhas. Bocas de orelha a orelha. Ideal para quem produz um discurso à esquerda e outro à direita. É a minha preferida! Já viste as possibilidades durante um banquete? Beber com uma e alambazar-me com a outra... Até me lambo os quatro beiços! Quem gosta de cavaquear à mesa ficaria servido, falando e comendo ao mesmo tempo, tornando obsoleto o adágio «boca cheia não conversa».

Para os desafortunados dos países pobres, assim como para os pobres dos países afortunados, constituiria má novidade. Já reclamam que têm varias bocas para alimentar, o dobro delas implicaria miséria a dobrar, lá reza o ditério: «a cada boca uma sopa». Opor-se-iam a uma boca suplementar os governos que mantêm a firmeza dos seus princípios através de ditaduras ou de «democracias musculadas», a braços com as sempiternas malvadas manifestações populares, excitadas por palavras de ordem esquerdistas.

Mas que grandes benefícios para o universo artístico! As gargantas educadas dos cem cantores do Coro Gulbenkian produziriam o efeito de duzentas vozes, enquanto coros modestos, como as tunas académicas, seriam enriquecidos. E que dizer da voz mágica de uma Celine Dion cantando em dueto singular; da musicalidade falada dos jograis; do alcance, em estereofonia, da voz da Mariza; da potência vocal dos Pavarottis, Domigos e Carreras? Um regozijo, nesses momentos quatro ouvidos seriam bemvindos. 

E os assediadores? Esses homens (porque são quase todos do sexo dito masculino) importantes, heterossexuais ou homossexuais, à cabeça de impérios económicos, que seguem e perseguem quem deles depende? Tomo como exemplo um caso fortemente mediatizado no Quebeque, onde um magnata do humor (entre outros) se divertia a forçar (sabes a quê) jovens aspirantes a uma carreira artística. Vítimas que se riam para o público com uma boca e choravam, sozinhas, com a segunda. Com uma só boca, o homem conseguiu calar dezenas de outras que, finalmente, acordaram de um longo silêncio e o denunciaram na praça pública. Imaginas que estragos fariam eles (assediadores) e que confusões levantariam elas (as assediadas), com duas bocas? É caso para dizer que com bocas a dobrar, se dobra um predador.

Devido à imperfeição dos humanos, casos haveria onde bocas da mesma face apresentariam dimensões diferentes. Como, por exemplo, em países bilingues, como este Canadá, onde a vantagem da dupla boca é manifesta: uma comunicando em francês, enquanto a outra, maior, se exprimiria em inglês. Para quem possui personalidades duplas, opostas, aquele desentendimento interior que os aflige subiria aos lábios, permitindo viva discussão entre um que larga balões de esperança e o outro que os rebenta... Para os professores, com uma boca ensinariam, com a outra disciplinariam... Preguiçosos assumidos, como eu, ficariam encantados com duas bocas para bocejar​... Irmãos gémeos teriam a atenção simultânea da mesma mãe... Os viciados em nicotina e canábis exultariam... Grande triunfo para políticos desonestos, vigaristas de vocação, pregadores oportunistas, vendedores da banha da cobra e outros que da palavra fazem carreira.

Acautelemo-nos, no entanto, com as ambições dos humanos: quando se lhes dá a mão, já querem o braço inteiro. Ou os dois. Porque, estimulados pela boca suplementar, haveria quem exigisse uma terceira. Todos nós já tropeçámos em indivíduos com cabeças a abarrotar de bocas, mas de ouvido minúsculo. Aqueles que parecem ter uma dificuldade congénita em pronunciar a seguinte frase: «Oh pá... Tens razão». 

Enfim, um mundo de possibilidades. 

E tu? Que pensas disto tudo? Que farias se tivesses duas bocas?

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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Friday, 6 October 2017

Do percurso das palavras

Onde se segue, lerdamente, a viagem das palavras
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Pawel Kuczynki - Viagem com tubarões
Regra geral não digo coisa que preste, mas houve dias, no passado, em que me senti erudito. Foram raros momentos, sou demasiado preguiçoso para me cultivar, prefiro instalar-me num sofá, metralhando o telecomando contra o ecrã de televisão. Desfolhar livros, pesquisar coisas pela Internet, assistir a aulas, a conferências, etc., não é para mim. Quando me levanto do sofá é para desentorpecer as pernas das várias opções que me proporciona a posição sentada ou, melhor, a horizontal... E sou tão apegado a estas posturas que, na minha juventude, pratiquei desportos que fazia deitado ou sentado: natação e remo. Só a caça submarina os suplantou, aquilo era boiar durante horas à superfície de um mar de silêncio. Para desentorpecer o corpo lá fazia um esforço e mergulhava de arpão apontado ao peixe que, invariavelmente, se me escapava. Estás mesmo a ver que dar provas de erudição estava fora do meu alcance, mas aconteceu. Duas vezes, com palavras cruzadas.

Não era eu quem as cruzava, era um outro, na mesa de um bar, depois de engolir a bica, língua entre os dentes e olhinhos concentrados. Eu refastelava-me na cadeira contígua, de pernas estendidas, diante de uma loiríssima caneca de cerveja com espuma e tudo. «Assassínio da esposa cometido pelo marido», leu alto o outro, coçando a cabeça com a borracha meditabunda do lápis. Veio-me à cabeça o étimo latino de esposa: uxor. Fora obrigado a aprendê-lo durante um curso de latim no liceu, do qual me desembaracei num exame onde passei resvés campo de Ourique. Arrisquei: «Uxoricídio». O outro encolheu os ombros, ignorando-me, e continuou, infatigavelmente, a encaixar vocábulos nos quadradinhos até que, incrédulo, viu a palavra «uxoricídio» emergir do cruzamento das letras. Mirei-o com altivez, limpando a espuma da cerveja que se agarrara à minha barba desleixada. Muitos anos mais tarde, em Montreal, uma colega de trabalho encarniçava-se contra o quadrilátero de palavras, no intervalo do almoço. «Animal que se alimenta de peixes», leu ela em voz alta, buscando ajuda. «Piscívoro», respondi-lhe, recordando-me do piscis latino: peixe. Ela mal levantou os olhos, os ombros sim, com desprezo como o outro na mesa do bar. E, tal como ele, arregalou os olhos incrédulos ao constatar que a palavra «piscívoro» se destacava, lindíssima, da matriz sobrecarregada. 

Estimulado por estes dois sucessos, inseri, entre as minhas parcas actividades culturais, a pesquisa do étimo de algumas palavras. Porque elas viajam e transformam-se, por vezes de maneira erudita entre os lábios educados de um douto, outras vezes degenerando-se entre grosserias de gente inculta como eu. As palavras mudam de significado e de nacionalidade, multiplicam-se, agrupam-se em famílias descendentes do mesmo antepassado mítico. Até emigram, imagina, muitas delas desembarcaram de veleiros, outras expatriaram-se em travessias perigosas, chegaram mesmo a ser expulsas. É possível seguir-lhes o percurso, estudar-lhes a evolução semântica, os traumas ou alegrias que transportam. 

E, para grande gáudio deste vosso amigo, o passatempo faz-se, como os desportos que ele praticou, sentado ou deitado. Com pouco trabalho. Trabalho! Eis outra palavra que me obcecou. Se foste criado nesta linda língua, que dizem de Camões, já ouviste a seguinte frase: «Quem não trabuca não manduca!» Quem não trabalha não come. É mentira, sabes disso, há muita gente que não trabalha, come bem e bebe do melhor, outras há que muito trabalham e pouco comem. Mas isso é outra história. Adiante. A palavra «trabalhar» já tinha sido alvo da minha obscura curiosidade, ela deriva de um horrível instrumento de tortura romano: tripaliare. Quanto ao «trabucar» descobri que vem de «trabuco», uma arma de fogo antiga, espécie de bacamarte que cuspia pedras em vez de chumbo. Engenho de guerra, portanto, coisa de manipulação laboriosa, dura, porque o trabuco tinha um recuo malandro, enegrecia os rostos com o fumo da pólvora, era pesado e perigoso: chegou a rebentar nas mãos de quem o disparava. Ao prolongar-se num verbo, trabuco associou-se a trabalho, incrustando-se naquela rude frase: «quem não trabuca, não manduca». Nestes dois cruéis exemplos, trabuco, associado a guerra e trabalho, tripaliare (étimo de «trabalhar») acasalado a tortura, escondem-se (ou revelam-se) os sentimentos que os humanos reservam ao trabalho. 

Já a coisa se passa de maneira diferente, oposta mesmo, com o sinónimo de comer, «manducar», que terá, como antepassado longínquo, um sensual romano: manducare. A palavra traz-nos um sorriso aos lábios, tu e eu sabemos como o verbo comer é primo ideológico do prazer, manducar impõe-se, então, como justa recompensa depois do trabalho árduo. Quando traduzida numa caipirinha em aperitivo, seguida de um bacalhau com natas à maneira, regado com um verde Alvarinho enterrado num balde de gelo, sericaia em sobremesa, bica e aguardente Adega Velha para rematar a pitança, o vocábulo desperta, num humano de traça normal, sentimentos de bem-estar e regozijo...

Mas agora pergunto eu: e se não houver trabucos para toda a gente, como é que se manduca? A pergunta é de actualidade. Li há dias que já não se produz comida em quantidade suficiente para alimentar o planeta! Fiquei preocupado, claro, porque, sendo fã de ficção científica, apercebi-me que somos todos tripulantes de uma nave espacial chamada Terra. E se aqueles que foram impedidos de trabucar (para manducarem) se amotinarem e invadirem esta nave, atacando à pedrada quem manduca pacificamente? Ou pior: e se, num acto de desespero, se puserem a atravessar mediterrâneos a bordo de xavecos escangalhados, ameaçando-nos a pureza ancestral dos impolutos costumes, avacalhando-nos os vocábulos nacionais? Oxalá que não! Infelizmente dizem as notícias que tais migrantes já existem e que, no percurso, a soldo de quem não os quer, há quadrilhas de rafeiros que os maltratam e escravizam. Como faziam os romanos aos servus

Falando de romanos. Sabes que a palavra escravo chegou ao latim numa fase já muito adiantada? E que ela emigrou para o português no século XV? Antes dizia-se servo ou cativo. O vocábulo «escravo» deriva dos eslavos, que teriam produzido muito servo (e serva) ao gosto dos meridionais, encantados com aqueles cabelos de palha e olhos claros. Podes crer, instruí-me sobre o assunto em obras de gente mui douta. Vai daí, leitura puxa leitura, fiquei a par de uma coisa horrorosa: esta nave espacial chamada Terra, viaja pelo universo com mais de quarenta milhões de escravos no bojo. Agorinha mesmo! No fundo, confesso-te, escrevi tudo isto, lerdamente sentado diante do computador, com o propósito de denunciar essa escravatura moderna. É para sossegar a minha consciência (que, com tanto amargo petisco para manducar, trabuca incessantemente), desassossegada depois de reler um poema do Bertold Brecht:

Primeiro levaram os negros /Mas não me importei com isso /Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários /Mas não me importei com isso /Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis /Mas não me importei com isso /Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados /Mas como tenho meu emprego /Também não me importei
Agora estão me levando /Mas já é tarde /Como eu não me importei com ninguém /Ninguém se importa comigo.


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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507



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Tuesday, 22 August 2017

A Arte e a cultura das podas

Da Arte de podar eficazmente a Cultura
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O Português (detalhe), Georges Braque (1882-1963)

Olha, deu-me para isto, ruminar sobre a cultura e as manifestações artísticas. É que fui convidado para uma conferência e quero passar por um tipo culto, coisa que, nos tempos em que era menino e moço, impressionava muita gente. Hoje menos, estamos mais virados para a eficácia e a eficiência que, imagina, pensava que fossem sinónimos. Engano! Diz-me o dicionário da Porto Editora que eficácia é a «capacidade de cumprir os objectivos pretendidos»; e que eficiência é o «poder de realizar (algo) convenientemente, despendendo um mínimo de esforço, tempo e outros recursos». Dado que sou de compreensão lenta, fiquei confuso. E quando é assim, arrisco-me a pedir ajuda ao meu amigo Rebenta-Balões, um tipo sarcástico, azedo e pessimista, que lê muito para justificar a sua descrença no futuro da humanidade.

Para começar, largou-me uns risinhos sardónicos antes de apresentar exemplo prático: «Calcula que o nosso governo quer cortar despesas. A cultura está entre os primeiros animais a sangrar, até tu sabes disso.» Vai daí, explicou-me, o primeiro-ministro coloca nos ministérios apropriados pessoas capazes de manejar tesouras de podar e sorrisos cordiais com o mesmo talento. «Tipos eficientes! Porque governo eficaz é o que engaja gente eficiente», concluiu, triunfante. Compreendi à primeira, caso raro, desliguei sem dizer água vai, e pus-me a repetir o seguinte, como um mantra: «Eficácia é fazer com que as coisas correctas sejam feitas; Eficiência é fazer as coisas de maneira correcta»... Patrão e operário... Capitão e soldado... Primeiro-ministro e ministro!

Olha... Que chatice! À força de querer compreender a diferença entre aqueles dois vocábulos, perdi o fio à meada. Que falta de eficácia... Ou de eficiência? Já comecei a baralhar tudo outra vez... Destarte não vou a lado nenhum. Arte! É isso... Estava a dizer-te que, para brilhar em sociedade, mergulhei numa modesta reflexão sobre a Arte. Palavra puxa palavra, veio-me à memória a altivez da minha adolescência inferior, fase que não me traz nenhum motivo de orgulho. Hoje distingo três períodos na minha adolescência (é típico dos rapazes, as meninas são mais bem comportadas): muito inferior, assaz inferior e inferior. Deixemos as duas primeiras lá onde elas ficaram, mas na última, para me dar ares de chico esperto e, sobretudo, evidenciar-me em frente das garotas (coitadas), pontificava verdades e cobria de escárnio e chacota personalidades que são, geralmente, aceites como génios. Consequentemente, pronunciava o nome de Picasso como um insulto cuspido a todo o gatafunho incompreensível à minha sensibilidade… que não era muita, dou-me hoje conta disso. E ria grosso, ridicularizando uma tela cubista onde se exibiam alguns frutos com má cara, acompanhados de mexilhões obscuros, pomposamente intitulada: Natureza morta com mexilhões. Riso que se amarelou quando lhe descobri o preço absurdo só porque tinha saído dos pincéis de Georges Braque. Não sei quanto custam os frutos de cor suspeita e os mariscos em decomposição, mas desconfio que aquela banana não fica nada em conta.

Abreviando… Para brilhar em sociedade e provar, cientificamente, que aquilo não tinha pés nem cabeça, fui à biblioteca ler sobre o dito cujo cubismo e outros movimentos afins. Erro! Acredita ou não, mas o facto é que, depois de muita leitura, dei comigo a fundir-me nas cores e formas pintadas sobre telas lendárias: ressenti a quietude pousada nas harmonias brandas do ocaso na Impressão Nascer do Sol (Monet); o desespero cativo na boca escancarada do Grito (Munch); o terror provocado pela violência nazi na aldeia basca, martirizada, de Guernica (Picasso); a vibração das harmónicas de um bairro que dança no Moinho da Galette (Renoir). E não fiquei por ali: perdi-me nos meandros de O Português (Braque) onde há quem veja uma caravela escondida, antes de abandonar cubistas e impressionistas e passar adiante. Mergulhei então no surrealismo da Linha de Águas (Mário Cesariny); mareei-me numa tela abstracta intitulada Mar e Barco (Fernando Lanhas); impressionei-me com os bêbados Festejando o São Martinho (José Malhôa); excitei-me com a sensualidade exprimida no Lissabon (Mário Eloy).

As manifestações artísticas tornam-se complexas e às vezes incompreensíveis mesmo quando no-las tentam explicar. Como por exemplo aquele quadro que custou mais de um milhão de dólares a uma galeria canadiana, composto por três faixas verticais de cores diferentes. A galeria fez mau negócio, creio, ficou-lhe cara a faixa, pelo dinheiro desembolsado poderia ter negociado uma meia dúzia delas. Faixas esotéricas, claro, só alguns, poucos, iniciados lhe compreenderam o sentido. E acreditas que eu acho que estou entre eles? Se não fosse tão tímido até rebentava de orgulho! Pois fica a saber que, segundo este vosso modesto servidor, essas três faixas representam as três vertentes da arte paleolítica. É verdade que só uma delas, a Visual, deixou vestígios: pinturas rupestres, estatuetas femininas, colares, pingentes em marfim de mamute... Testemunhos que, acredito, fazem parte das três (artes) primárias sendo as outras, segundo ainda a minha inocente opinião: a Musical e a Narrativa (na sua forma oral, claro, eles eram todos analfabetos por uma simples razão: a escrita não tinha sido inventada). 

Três são, portanto, as artes primárias, é minha profunda convicção. E mesmo se estou enganado insisto, pertenço ao grande clube dos ignorantes teimosos. E olha, se não acreditas em mim, faz uma experiência. Vai acampar com uma súcia de amigos, sem a vossa quinquilharia electrónica, sem papel nem lápis, sem livros, sem instrumentos de música e tentem divertir-se (virtuosamente) à volta de uma fogueira. Que podem fazer? Chocar dois paus ou pedras para bater um ritmo; cantar, dançar, contar histórias; desenhar formas na rocha com as pontas das achas carbonizadas... Vês? Apenas três actividades artísticas vos foram permitidas: Música, Artes cénicas, Pintura. 

E repara que essas manifestações artísticas, espontâneas, ninguém pode roubá-las, nem enfraquecê-las com cortes orçamentais, nem metê-las em prisões como fazem alguns ditadores (há-os eleitos), que sofrem de uma desconfiança crónica em relação às artes e aos artistas. Porque a Arte, sabes bem disso, não é inocente. Ela protesta, Ela reclama, Ela denuncia, e tal é o Seu poder que ditadores de todos os matizes nomeiam tipos eficientes que, de navalha em punho, sorrisos de crocodilo e olhos impiedosos, talham na carne viva da Arte para a esculpir à maneira deles. Mas ela escapa-se-lhes por entre os dedos peludos e os tiranos, furiosos, encontram-na pintada nas paredes das prisões, cantada por condenados a caminho do cadafalso, escrita em poemas de exílio. A Arte é um código, por vezes complexo, que os amantes da liberdade cifram e decifram, Ela é uma espécie de filtro de amor, um elixir da verdade, uma poção mágica no caldeirão de uma feiticeira. A Arte é perigosa para quem escraviza, dos escravos nasceu o jazz e o jazz plantou sementes de liberdade.

Cada um de nós possui pelo menos um talento artístico, desenvolvido ou embrionário, e é ele uma das fronteiras traçadas entre humanos e animais. Neste esforço planetário, actualmente em curso, de reduzir os humanos a robôs-operários eficientes, dirigidos por robôs-gestores eficazes cujo único fito é o de muito produzir para enriquecer uns poucos, esses talentos constituem refúgios, células clandestinas sob o brilhar do sol, barricadas virtuais que os déspotas (mesmo eleitos) não conseguem enxergar. Quem canta, toca e dança, quem conta, escreve e poetiza, quem pinta, esculpe e desenha, mantém viva a chama das fogueiras pré-históricas, passada de mão em mão, através dos milénios, até aos dias de hoje. 

Não se apaga o sol com as mãos, nem se abafa o vento em calabouços.


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© Carlos Taveira

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507


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Wednesday, 22 March 2017

O osso do Bonobo

Onde se fala de sexo, mitos e augúrios evolucionistas
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Source -> Phys.Org https://phys.org/news/2016-03-sex-evolve-prof-laurence-hurst.html

Mau grado a minha assumida ignorância, sempre me considerei (até há uns dias) particularmente avisado sobre as coisas do sexo. Aquando da minha adolescência era muito bem visto alardear conhecimentos a propósito, sendo também de bom tom exibirmos um livro de sexologia assinado Fritz Kahn, divulgador científico alemão. Acontecia que alguns pais (desnorteados com a ausência de Internet) ofereciam a obra em questão aos filhos púberes, evitando covardemente «aquela conversinha» embaraçosa. Fiquei assim informado sobre o essencial do processo reprodutivo: 1, órgãos genitais masculinos e femininos; 2, cópula; 3, fecundação; 4, gestação; 5, nascimento; 6, fraldas.

Fritz Kahn era omisso sobre este último ponto, completemos a sua obra: as fraldas podem ser descartáveis ou de pano. E como sei que não vais contar isto aos teus amigos ecologistas, faço-te uma confidência: passei pelas duas experiências (como operador de fraldas) e quanto a mim a primeira escolha revelou-se espiritualmente mais pura, saneando a peça onde a recém-nascida esperneava, sorridente, de rabinho ao léu. A segunda opção foi-me imposta pelas carências do país onde vivia, é sabido que a guerra tudo leva (embora não lave), mesmo as fraldas descartáveis. Viva a paz! Provavelmente inspirado pelo Fritz, e para me armar em letrado nas reuniões sociais, acontece-me comprar revistas de divulgação científica. Foi o que fiz no mês passado, atraído por um dos títulos de um magazine francês que desfolhei ao acaso: Sciences et Avenir, número 188, de Janeiro 2017. Meu, nunca o deveria ter comprado: o artigo, desenvolvido por um tal Pierre-Henri Gouyon, provocou-me pesadelos que perduram até hoje e que me levam a desabafar contigo. 

Explico-me...

Segundo os sábios evolucionistas, mãe Natureza imaginou bastas maneiras de perpetuar as espécies, todavia a que nos interessa aqui é a reprodução sexuada acima resumida. Neste caso, e independentemente do animal, o inconsciente associa prazer e reprodução o que constitui, fundamentalmente, uma esparrela: Natureza lança um sopro de feromonas, macho e fêmea entreolham-se, sorriem, não resistem ao apelo dos sentidos, caem na tentação... E pronto, a espécie perpetua-se! Ademais, explicam os tais científicos que o Homo Sapiens Sapiens, com aquela mania de exagerar no consumo do que é bom, conseguiu separar esses dois elementos associados: o anseio de produzir filharada e o acoplamento, deteriorando o elo entre prazer e reprodução. Por outras palavras, hoje em dia o prazer sexual não conduz necessariamente à reprodução, sendo o inverso verdadeiro – para nos reproduzirmos, não necessitamos de cair em tentações carnais. O prazer sexual torna-se autónomo, invade os terrenos da menopausa e mesmo da velhice, aí estão, para o provar, muitos idosos assaz capazes que, mesmo se não podem procriar, não se privam do regalo que a reprodução procura nove meses antes das fraldas. E no caso de experimentarem algumas dificuldades técnicas, acode a indústria farmacêutica que, alerta, lhes dá uma mãozinha em troca de uns cobres. Esse regozijo contribui igualmente para um florescente comércio do prazer, legal e (ou) ilegal dependendo das sensibilidades éticas e (ou) religiosas das comunidades. 

Mas...

Pierre-Henri, evolucionista dado a projecções científicas alarmistas, diz-nos ainda que a emancipação do prazer pode trazer consequências calamitosas a longo prazo (quer dizer dentro de dezenas de milhares de anos). Libertando o deleite da procriação, há a possibilidade de ver o Homo Sapiens Sapiens tornar-se, como se verifica noutras espécies... hermafrodita! Conclusão implícita: um dos sexos será eliminado. E quem pensas tu que Natureza vai suprimir: a mulher, delicada, linda, misteriosa, provida de órgãos reprodutores complexos a quem foi confiada a missão da gestação; ou o homem, bruto, feio, apetrechado dum grosseiro aparelho genital que contribui com uma ridícula semente, tão débil que se vê obrigado a produzir milhões, rezando para que uma delas sobreviva? Estás mesmo a ver, não estás? 

Cruzes, credo, canhoto!

Nessa mesma revista de mau augúrio fala-se de uma estranha criatura que vive em terras do Congo: o Bonobo. É uma espécie de chimpanzé considerado como o primata mais feliz de todos os tempos (apesar de se encontrar na triste lista dos animais em vias de extinção). Aquilo é sorrisos, bocejos, sonecas, brincadeiras e carícias, as crianças são alvo dos mimos ternurentos da parte dos adultos e adultas que mantêm, entre eles, uma espantosa actividade copulativa. Nas comunidades Bonobo é a esbórnia. Pretendendo alguns entendidos que o alívio da tensão sexual permitiu-lhe tornar-se no símio mais cool do planeta, uma pergunta saltou-me imediatamente ao espírito: como é que o raio do bicho consegue aguentar erectas as condições objectivas necessárias à perpetuação dessas orgias? A resposta encontrei-a num curto excerto da página 56 da supracitada revista: «[…] Bonobo possui um osso peniano». Sortudo, o raio do macaco, hã? Vai daí, a ciumeira despoletou uma segunda pergunta no meu frágil cérebro: porque é que Natureza se mostrou injusta connosco, machos da espécie Homo Sapiens Sapiens, privando-nos dum precioso apêndice de manifesta utilidade? E como não há duas perguntas sem três: será que o perdemos em caminho? Desfolhemos a revista antes de voltarmos ao osso perdido. 

Na página 81 do mesmo Sciences et Avenir, um denominado Heinz Wismann fala de mitos. Diz o sábio que o mito «procura estabelecer um elo entre os fenómenos que afligem o humano e o jogo de forças que o provocam». Em claro: inventamos lendas para coisas que não conseguimos explicar. Lembrei-me logo da costela de Adão, aquele que – reza o livro – foi despejado do paraíso. Peço-te perdão se acreditas textualmente na Bíblia, para mim há por lá alguns mitos ocultando realidades a descodificar, é culpa do Heinz Wismann se fiquei desconfiado. Por conseguinte construí algumas hipóteses de trabalho. E se tivesse sido outro – e não a costela – o osso que Adão perdeu? E se tivesse sido o báculo, nome científico do tal apêndice ósseo que tanto regozija o raio do Bonobo? E se o paraíso de Adão e Eva fosse meramente a evocação mítica, enraizada na memória genética colectiva, de uma era de plenitude: aquela em que os varões Homo Sapiens Sapiens nada tinham a invejar ao raio do Bonobo?

Porque estás de acordo comigo, não estás? O impacto dessa perda seria trágico, independentemente do motivo que, seguindo a mesma lógica, se encontraria num eventual abuso (leia-se vício) no consumo do «fruto proibido». Desse jeito se explicariam as taras sexuais perversas e comportamentos criminosos que infestam principalmente o homem, cuja auto-estima tanto depende da sua virilidade  obsessão geradora de tanto desequilíbrio, insegurança e violência. Há quem diga que a horrorosa repressão sofrida pela mulher, as humilhações e agressões várias que tem suportado, a subserviência em que o homem a mantém um pouco por todo o lado, têm origem na fragilidade masculina. Encaremos a realidade: salvo raras excepções, o homem é o agressor, mesmo quando é o homem o agredido. 

E se tanto infortúnio vem de um ossinho perdido… Companheiros, há que recuperá-lo!

Tarefa difícil, concordo. Eis-nos, desossados, enfrentando uma possível exterminação: um sexocídio, passe o neologismo. Todavia, e mau grado a tendência que nos desfavorece, sejamos positivos. Será que o vapor da evolução pode ser invertido, restabelecendo-se o elo entre reprodução e prazer sexual? Levaria milhares de anos, seria um osso duro de roer, mas, como diz um provérbio tuaregue : no fim da paciência, espera-nos o céu. Quer dizer, a reconquista do paraíso perdido. Vamos tentar? Na verdade temos uma enorme vantagem em relação ao raio do Bonobo: não estamos em vias de extinção 

Ao abordar este assunto delicado, mergulhei numa profunda reflexão que me levou a considerar outras eventuais transformações na morfologia do Homo Sapiens Sapiens. E se Natureza, mãe das correntes evolucionistas, desiludida com os homens corruptos que nos dirigem e com eleitores que os levam ao poder, frustrada com a nossa impotência perante os gigantes financeiros que, quais buracos negros, nos aspiram coragem e vontades, inteligência e energias… E se mãe Natureza, como dizia, perante a falta de verticalidade da nossa raça, dita humana, para lá do báculo que nos subtraiu, tivesse iniciado o processo de nos privar da espinha dorsal, metamorfoseando-nos numa espécie rastejante, idêntica à serpente mitológica?

Que o Diabo seja surdo, cego e mudo!



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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507


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Sunday, 29 January 2017

Acerca das cercas que nos cercam

Onde se fala de cercas, muros e muralhas de hoje e de antanho
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Olha, hoje acordei com vontade de te chatear com muros e muralhas. Talvez porque os meus olhos caíram naquela frase do Fernando Pessoa: «Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…» Um castelo! Mesmo o Fernando, espírito livre disseminado por tantos heterónimos, sentiu necessidade de se fortificar. Como sou inocente e tenho a mania de colocar perguntas, perguntei-me por que razão o nosso poeta não se serviria dessas mesmas pedras para construir uma casa de campo ou pavimentar os caminhos.

A propósito de pedras… Sabes uma coisa que me espantou quando cheguei a este país de gelos e neves? A ausência de muros nos quintais! Em vez de erguerem vedações com os pedregulhos dos caminhos, substituíram-nos por sebes de cedro, é mais bonito, não perdem os tons de verde quando as neves acampam, e com as agulhas há coisas que se podem fazer. Aprimoram o saborzinho das infusões, contêm vitamina C e até dizem que ajudam a desencadear o período das senhoras. Cá em casa colocamos agulhas de cedro nas gavetas, para aromatizar as roupas.

Na cidadezinha bonitinha onde nasci, as sebes de cedro não existiam, eram muros de calhaus ou betão dividindo quintais e protegendo fachadas. Calhaus que não serviam para grande coisa, nem sequer para cozinhar uma sopa de pedra, mas que, hélas, foram muito procurados numa outra situação… Assaz difícil, digamos. Lamentavelmente, mesmo as cidadezinhas bonitinhas podem ser atingidas por conflitos. E assim foi com aquela. Senhor Guerra grunhiu ao longe, aproximou-se, estrondeou pelos arredores e instalou-se com armas e bagagens, acompanhado por um casal de filhos muito frágeis: Medo e Insegurança. E à medida que Guerra avançava pelo país fora, os murinhos de pedra ou betão foram crescendo até chegarem ao tamanho de muralhas. A observação deste fenómeno levou-me a duas conclusões: 1) a muralha é um muro que atingiu a idade adulta; 2) a guerra é o estrume dos muros. 

Mas terá sido sempre assim? 

Infelizmente, e como é do teu conhecimento, sou muito ignorante, o que me leva a tomar pílulas de conhecimento do doutor Internet. Vai daí, e para partilhar contigo alguns dados, fui à caça das muralhas deixadas pela história dos humanos e seus impérios. Iiiiih! Como dizem os cumpadis brasileiros: Minha nossa! Chineses na Ásia; Shonas em África; Incas na América Latina; Romanos na Europa; Sumérios no Iraque… Aquilo é um nunca acabar de muros e muralhas que serpenteiam pela crosta deste planeta a que chamamos Terra. Até se diz que a muralha da China é visível a partir do espaço, se calhar é por isso que os extraterrestres, com medo de serem murados, nunca se manifestaram. Com o tempo essas muralhas encontraram outra serventia, são muito prezadas por turistas e historiadores: uns embasbacando-se diante delas a metralhar câmaras fotográficas; os outros, meditabundos, tentando estudar-lhes a génese. Seja como for, uma constatação saltou-me aos ignaros olhos: foram todas levantadas por impérios ou reinos poderosos que, a um momento ou outro da sua vida, se sentiram ameaçados por movimentos de populações hostis. 

Mas isso foi no passado… E hoje? 

Não é para deixar sem trabalho os historiadores e as agências turísticas do futuro, que alguns dos nossos impérios, reinos e repúblicas contemporâneos, quase todos democráticos, se dedicam, neste preciso instante, a semelhante corveia de conceber, construir, manter e prolongar muros e muralhas pela crosta desta Terra, já a eles tão habituada. Todos eles, imagina, concebidos sob a inspiração de Guerra e de seus dois filhos legítimos: Medo e Insegurança. Digo legítimos porque existe um bastardo oculto, vicioso, macho, manhoso e bandido, que aparece quando dele se necessita: Ódio! Há, no entanto, uma diferença entre estes três manos tão chegados: Insegurança e Medo tiveram infância, Ódio não. 

Infância… Tivemo-la todos, não? Quando era criança, brinquei, como todos os pirralhos, a construir coisas. E como nasci numa cidadezinha bonitinha plantada diante de um oceano, onde havia imensas praias, construía com areia em vez de pedra. Sulcava um rego a partir do local onde a vaga se espraiava, até um buraco cavado mais longe, e ficava ali a admirar a água correndo canal acima. Na minha imaginação, o buraco tornava-se num grande lago com um dragão antropófago lá dentro. Também construí casinhas, poucas, sem muros, muito mal feitinhas, porque sou nulo para tudo o que exige habilidade plástica. Apesar desta insuficiência, armei-me de paciência e lá escavei alguns carros imobilizados na areia da praia. As minhas ocupações preferidas, contudo, foram três: explorador de terras virgens; armador de barcos corsários; piloto de tudo o que voava. Um mastro espetado num esqueleto de choco, uns fragmentos de palitos nas amuradas… Eis um feroz flibusteiro cruzando os mares das Antilhas! E enquanto os meus corsários pirateavam o mundo, lançava ao Amazonas jangadas de cortiça que boiavam entre margens de selvas virgens a abarrotar de índios com franjas, desconfiados, pintados de preto e vermelho, piercings nos narizes e zarabatanas nos lábios finos. Quando mares e rios não me bastavam, descolava de porta-aviões, pilotando caças, helicópteros salva-vidas ou singrando ventos ao comando de planadores. 

O que não somos quando somos crianças...

Muitos anos depois, o adulto em que me tornei tentou encontrar um denominador comum a estes sonhos e a explicação óbvia, fácil, foi: sonhos de liberdade. Hoje, no entanto, ao acordar com este impulso inexplicável de te chatear com muros e muralhas, encontrei outro factor que os meus sonhos infantis partilhavam: barcos e aviões movem-se por espaços onde é impossível erguerem-se muros. Atirados ao mar os calhaus afundam-se, lançados ao ar os calhaus caem. Sobre as águas, só pontes se podem construir.

Quem concebe, constrói, mantém e prolonga muros e muralhas, há muito que perdeu os sonhos de criança. Mesmo quando algumas dessas muralhas foram construídas para combaterem ameaças reais, e não aquelas inventadas por políticos manhosos, sequiosos de poder porque as riquezas já não lhes bastam. Por falar nisso… Disseram-me que há uma muralha que tem feito correr muita tinta e ilumina muito pixel, não sei se ouviste falar nela. Parece que começou a ser levantada há muitos anos, num país muito poderoso, há mesmo quem diga que se trata da democracia mais possante do mundo. Se assim o é, é um império! Ora parece que o tal muro foi iniciado por um dos imperadores eleitos, loiro e inteligentíssimo, com muita visão, que tinha um fraquinho por uma estagiária jovenzinha que por lá andava. Contaram-me também que lhe sucedeu um outro César que, tolhido por um quociente de inteligência muito baixo, coitadinho, fez duas coisas com os calhaus dos caminhos: atirou-os ao mundo como mísseis e utilizou-os para prolongar o tal muro que a inteligência do predecessor concebera. Fiquei também ao corrente que o seguinte na linha dos imperadores eleitos, um homem simpático, mestiço, tão inteligente como o monarca loiro, achou boa a ideia e conservou-a, ajuntando muitos calhaus ao muro já comprido. Rezam ainda as más-línguas que o último na sucessão ao trono, do qual se desconhece o QI mas que não aparenta ser muito elevado, vai continuar a impressionante obra que herdou, sem aumentar o fardo fiscal dos contribuintes. Muralha gratuita, coisa nunca vista. 

Espantaram-me essas sebes de cedro, quando aqui cheguei, dizendo para comigo que, se um dia vivesse numa casa com cerca, haveria de ser de pedra. Entretanto cresci mais um pouquinho e desisti da ideia, graças às pílulas de conhecimento do doutor Internet que me abriram o espírito e me inverteram os medos. É que, ao considerar as cercas, muros e muralhas deste mundo, subiu-me um pavor pelas tripas acima: e se hordas de vândalos mal-intencionados utilizassem esses mesmos calhaus para me demolirem a casa? «Good fences make good neighbors» é um provérbio popular da tal democracia mais poderosa do mundo, isto é: «As boas cercas fazem os bons vizinhos». Uma ironia, vindo de onde vem, mas enfim... No meu caso, há alguma verdade nesse adágio porque tenho os dois: bons vizinhos e boa cerca. Trata-se duma sebe de cedro, como sabes, de cujas agulhas – que dão bom gosto às infusões e aromatizam as roupas nas gavetas – se extrai um óleo essencial que, quando aquecido num difusor, produz emanações favoráveis à prática da meditação e do ioga. 

Em verdade, em verdade te digo, com a pedra se constrói e com a pedra se destrói. Mau grado esta frase de inspiração bíblica que me veio à cabeça, sabes que sou descrente, não sabes? E no entanto, como tenho um espírito curioso, embora ignorante, acontece-me desfolhar obras religiosas onde recolho algumas máximas dignas de reflexão. Foi assim que encontrei esta magnífica frase no livro mais vendido no planeta:

Provérbios 25:28, «Como a cidade derrubada, sem muro, assim é o homem que não pode conter o seu espírito.»


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© Carlos Taveira

LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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