Wednesday, 22 March 2017

O osso do Bonobo

Onde se fala de sexo, mitos e augúrios evolucionistas
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Source -> Phys.Org https://phys.org/news/2016-03-sex-evolve-prof-laurence-hurst.html

Mau grado a minha assumida ignorância, sempre me considerei (até há uns dias) particularmente avisado sobre as coisas do sexo. Aquando da minha adolescência era muito bem visto alardear conhecimentos a propósito, sendo também de bom tom exibirmos um livro de sexologia assinado Fritz Kahn, divulgador científico alemão. Acontecia que alguns pais (desnorteados com a ausência de Internet) ofereciam a obra em questão aos filhos púberes, evitando covardemente «aquela conversinha» embaraçosa. Fiquei assim informado sobre o essencial do processo reprodutivo: 1, órgãos genitais masculinos e femininos; 2, cópula; 3, fecundação; 4, gestação; 5, nascimento; 6, fraldas.

Fritz Kahn era omisso sobre este último ponto, completemos a sua obra: as fraldas podem ser descartáveis ou de pano. E como sei que não vais contar isto aos teus amigos ecologistas, faço-te uma confidência: passei pelas duas experiências (como operador de fraldas) e quanto a mim a primeira escolha revelou-se espiritualmente mais pura, saneando a peça onde a recém-nascida esperneava, sorridente, de rabinho ao léu. A segunda opção foi-me imposta pelas carências do país onde vivia, é sabido que a guerra tudo leva (embora não lave), mesmo as fraldas descartáveis. Viva a paz! Provavelmente inspirado pelo Fritz, e para me armar em letrado nas reuniões sociais, acontece-me comprar revistas de divulgação científica. Foi o que fiz no mês passado, atraído por um dos títulos de um magazine francês que desfolhei ao acaso: Sciences et Avenir, número 188, de Janeiro 2017. Meu, nunca o deveria ter comprado: o artigo, desenvolvido por um tal Pierre-Henri Gouyon, provocou-me pesadelos que perduram até hoje e que me levam a desabafar contigo. 

Explico-me...

Segundo os sábios evolucionistas, mãe Natureza imaginou bastas maneiras de perpetuar as espécies, todavia a que nos interessa aqui é a reprodução sexuada acima resumida. Neste caso, e independentemente do animal, o inconsciente associa prazer e reprodução o que constitui, fundamentalmente, uma esparrela: Natureza lança um sopro de feromonas, macho e fêmea entreolham-se, sorriem, não resistem ao apelo dos sentidos, caem na tentação... E pronto, a espécie perpetua-se! Ademais, explicam os tais científicos que o Homo Sapiens Sapiens, com aquela mania de exagerar no consumo do que é bom, conseguiu separar esses dois elementos associados: o anseio de produzir filharada e o acoplamento, deteriorando o elo entre prazer e reprodução. Por outras palavras, hoje em dia o prazer sexual não conduz necessariamente à reprodução, sendo o inverso verdadeiro – para nos reproduzirmos, não necessitamos de cair em tentações carnais. O prazer sexual torna-se autónomo, invade os terrenos da menopausa e mesmo da velhice, aí estão, para o provar, muitos idosos assaz capazes que, mesmo se não podem procriar, não se privam do regalo que a reprodução procura nove meses antes das fraldas. E no caso de experimentarem algumas dificuldades técnicas, acode a indústria farmacêutica que, alerta, lhes dá uma mãozinha em troca de uns cobres. Esse regozijo contribui igualmente para um florescente comércio do prazer, legal e (ou) ilegal dependendo das sensibilidades éticas e (ou) religiosas das comunidades. 

Mas...

Pierre-Henri, evolucionista dado a projecções científicas alarmistas, diz-nos ainda que a emancipação do prazer pode trazer consequências calamitosas a longo prazo (quer dizer dentro de dezenas de milhares de anos). Libertando o deleite da procriação, há a possibilidade de ver o Homo Sapiens Sapiens tornar-se, como se verifica noutras espécies... hermafrodita! Conclusão implícita: um dos sexos será eliminado. E quem pensas tu que Natureza vai suprimir: a mulher, delicada, linda, misteriosa, provida de órgãos reprodutores complexos a quem foi confiada a missão da gestação; ou o homem, bruto, feio, apetrechado dum grosseiro aparelho genital que contribui com uma ridícula semente, tão débil que se vê obrigado a produzir milhões, rezando para que uma delas sobreviva? Estás mesmo a ver, não estás? 

Cruzes, credo, canhoto!

Nessa mesma revista de mau augúrio fala-se de uma estranha criatura que vive em terras do Congo: o Bonobo. É uma espécie de chimpanzé considerado como o primata mais feliz de todos os tempos (apesar de se encontrar na triste lista dos animais em vias de extinção). Aquilo é sorrisos, bocejos, sonecas, brincadeiras e carícias, as crianças são alvo dos mimos ternurentos da parte dos adultos e adultas que mantêm, entre eles, uma espantosa actividade copulativa. Nas comunidades Bonobo é a esbórnia. Pretendendo alguns entendidos que o alívio da tensão sexual permitiu-lhe tornar-se no símio mais cool do planeta, uma pergunta saltou-me imediatamente ao espírito: como é que o raio do bicho consegue aguentar erectas as condições objectivas necessárias à perpetuação dessas orgias? A resposta encontrei-a num curto excerto da página 56 da supracitada revista: «[…] Bonobo possui um osso peniano». Sortudo, o raio do macaco, hã? Vai daí, a ciumeira despoletou uma segunda pergunta no meu frágil cérebro: porque é que Natureza se mostrou injusta connosco, machos da espécie Homo Sapiens Sapiens, privando-nos dum precioso apêndice de manifesta utilidade? E como não há duas perguntas sem três: será que o perdemos em caminho? Desfolhemos a revista antes de voltarmos ao osso perdido. 

Na página 81 do mesmo Sciences et Avenir, um denominado Heinz Wismann fala de mitos. Diz o sábio que o mito «procura estabelecer um elo entre os fenómenos que afligem o humano e o jogo de forças que o provocam». Em claro: inventamos lendas para coisas que não conseguimos explicar. Lembrei-me logo da costela de Adão, aquele que – reza o livro – foi despejado do paraíso. Peço-te perdão se acreditas textualmente na Bíblia, para mim há por lá alguns mitos ocultando realidades a descodificar, é culpa do Heinz Wismann se fiquei desconfiado. Por conseguinte construí algumas hipóteses de trabalho. E se tivesse sido outro – e não a costela – o osso que Adão perdeu? E se tivesse sido o báculo, nome científico do tal apêndice ósseo que tanto regozija o raio do Bonobo? E se o paraíso de Adão e Eva fosse meramente a evocação mítica, enraizada na memória genética colectiva, de uma era de plenitude: aquela em que os varões Homo Sapiens Sapiens nada tinham a invejar ao raio do Bonobo?

Porque estás de acordo comigo, não estás? O impacto dessa perda seria trágico, independentemente do motivo que, seguindo a mesma lógica, se encontraria num eventual abuso (leia-se vício) no consumo do «fruto proibido». Desse jeito se explicariam as taras sexuais perversas e comportamentos criminosos que infestam principalmente o homem, cuja auto-estima tanto depende da sua virilidade  obsessão geradora de tanto desequilíbrio, insegurança e violência. Há quem diga que a horrorosa repressão sofrida pela mulher, as humilhações e agressões várias que tem suportado, a subserviência em que o homem a mantém um pouco por todo o lado, têm origem na fragilidade masculina. Encaremos a realidade: salvo raras excepções, o homem é o agressor, mesmo quando é o homem o agredido. 

E se tanto infortúnio vem de um ossinho perdido… Companheiros, há que recuperá-lo!

Tarefa difícil, concordo. Eis-nos, desossados, enfrentando uma possível exterminação: um sexocídio, passe o neologismo. Todavia, e mau grado a tendência que nos desfavorece, sejamos positivos. Será que o vapor da evolução pode ser invertido, restabelecendo-se o elo entre reprodução e prazer sexual? Levaria milhares de anos, seria um osso duro de roer, mas, como diz um provérbio tuaregue : no fim da paciência, espera-nos o céu. Quer dizer, a reconquista do paraíso perdido. Vamos tentar? Na verdade temos uma enorme vantagem em relação ao raio do Bonobo: não estamos em vias de extinção 

Ao abordar este assunto delicado, mergulhei numa profunda reflexão que me levou a considerar outras eventuais transformações na morfologia do Homo Sapiens Sapiens. E se Natureza, mãe das correntes evolucionistas, desiludida com os homens corruptos que nos dirigem e com eleitores que os levam ao poder, frustrada com a nossa impotência perante os gigantes financeiros que, quais buracos negros, nos aspiram coragem e vontades, inteligência e energias… E se mãe Natureza, como dizia, perante a falta de verticalidade da nossa raça, dita humana, para lá do báculo que nos subtraiu, tivesse iniciado o processo de nos privar da espinha dorsal, metamorfoseando-nos numa espécie rastejante, idêntica à serpente mitológica?

Que o Diabo seja surdo, cego e mudo!



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© Carlos Taveira

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507


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Sunday, 29 January 2017

Acerca das cercas que nos cercam

Onde se fala de cercas, muros e muralhas de hoje e de antanho
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Olha, hoje acordei com vontade de te chatear com muros e muralhas. Talvez porque os meus olhos caíram naquela frase do Fernando Pessoa: «Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…» Um castelo! Mesmo o Fernando, espírito livre disseminado por tantos heterónimos, sentiu necessidade de se fortificar. Como sou inocente e tenho a mania de colocar perguntas, perguntei-me por que razão o nosso poeta não se serviria dessas mesmas pedras para construir uma casa de campo ou pavimentar os caminhos.

A propósito de pedras… Sabes uma coisa que me espantou quando cheguei a este país de gelos e neves? A ausência de muros nos quintais! Em vez de erguerem vedações com os pedregulhos dos caminhos, substituíram-nos por sebes de cedro, é mais bonito, não perdem os tons de verde quando as neves acampam, e com as agulhas há coisas que se podem fazer. Aprimoram o saborzinho das infusões, contêm vitamina C e até dizem que ajudam a desencadear o período das senhoras. Cá em casa colocamos agulhas de cedro nas gavetas, para aromatizar as roupas.

Na cidadezinha bonitinha onde nasci, as sebes de cedro não existiam, eram muros de calhaus ou betão dividindo quintais e protegendo fachadas. Calhaus que não serviam para grande coisa, nem sequer para cozinhar uma sopa de pedra, mas que, hélas, foram muito procurados numa outra situação… Assaz difícil, digamos. Lamentavelmente, mesmo as cidadezinhas bonitinhas podem ser atingidas por conflitos. E assim foi com aquela. Senhor Guerra grunhiu ao longe, aproximou-se, estrondeou pelos arredores e instalou-se com armas e bagagens, acompanhado por um casal de filhos muito frágeis: Medo e Insegurança. E à medida que Guerra avançava pelo país fora, os murinhos de pedra ou betão foram crescendo até chegarem ao tamanho de muralhas. A observação deste fenómeno levou-me a duas conclusões: 1) a muralha é um muro que atingiu a idade adulta; 2) a guerra é o estrume dos muros. 

Mas terá sido sempre assim? 

Infelizmente, e como é do teu conhecimento, sou muito ignorante, o que me leva a tomar pílulas de conhecimento do doutor Internet. Vai daí, e para partilhar contigo alguns dados, fui à caça das muralhas deixadas pela história dos humanos e seus impérios. Iiiiih! Como dizem os cumpadis brasileiros: Minha nossa! Chineses na Ásia; Shonas em África; Incas na América Latina; Romanos na Europa; Sumérios no Iraque… Aquilo é um nunca acabar de muros e muralhas que serpenteiam pela crosta deste planeta a que chamamos Terra. Até se diz que a muralha da China é visível a partir do espaço, se calhar é por isso que os extraterrestres, com medo de serem murados, nunca se manifestaram. Com o tempo essas muralhas encontraram outra serventia, são muito prezadas por turistas e historiadores: uns embasbacando-se diante delas a metralhar câmaras fotográficas; os outros, meditabundos, tentando estudar-lhes a génese. Seja como for, uma constatação saltou-me aos ignaros olhos: foram todas levantadas por impérios ou reinos poderosos que, a um momento ou outro da sua vida, se sentiram ameaçados por movimentos de populações hostis. 

Mas isso foi no passado… E hoje? 

Não é para deixar sem trabalho os historiadores e as agências turísticas do futuro, que alguns dos nossos impérios, reinos e repúblicas contemporâneos, quase todos democráticos, se dedicam, neste preciso instante, a semelhante corveia de conceber, construir, manter e prolongar muros e muralhas pela crosta desta Terra, já a eles tão habituada. Todos eles, imagina, concebidos sob a inspiração de Guerra e de seus dois filhos legítimos: Medo e Insegurança. Digo legítimos porque existe um bastardo oculto, vicioso, macho, manhoso e bandido, que aparece quando dele se necessita: Ódio! Há, no entanto, uma diferença entre estes três manos tão chegados: Insegurança e Medo tiveram infância, Ódio não. 

Infância… Tivemo-la todos, não? Quando era criança, brinquei, como todos os pirralhos, a construir coisas. E como nasci numa cidadezinha bonitinha plantada diante de um oceano, onde havia imensas praias, construía com areia em vez de pedra. Sulcava um rego a partir do local onde a vaga se espraiava, até um buraco cavado mais longe, e ficava ali a admirar a água correndo canal acima. Na minha imaginação, o buraco tornava-se num grande lago com um dragão antropófago lá dentro. Também construí casinhas, poucas, sem muros, muito mal feitinhas, porque sou nulo para tudo o que exige habilidade plástica. Apesar desta insuficiência, armei-me de paciência e lá escavei alguns carros imobilizados na areia da praia. As minhas ocupações preferidas, contudo, foram três: explorador de terras virgens; armador de barcos corsários; piloto de tudo o que voava. Um mastro espetado num esqueleto de choco, uns fragmentos de palitos nas amuradas… Eis um feroz flibusteiro cruzando os mares das Antilhas! E enquanto os meus corsários pirateavam o mundo, lançava ao Amazonas jangadas de cortiça que boiavam entre margens de selvas virgens a abarrotar de índios com franjas, desconfiados, pintados de preto e vermelho, piercings nos narizes e zarabatanas nos lábios finos. Quando mares e rios não me bastavam, descolava de porta-aviões, pilotando caças, helicópteros salva-vidas ou singrando ventos ao comando de planadores. 

O que não somos quando somos crianças...

Muitos anos depois, o adulto em que me tornei tentou encontrar um denominador comum a estes sonhos e a explicação óbvia, fácil, foi: sonhos de liberdade. Hoje, no entanto, ao acordar com este impulso inexplicável de te chatear com muros e muralhas, encontrei outro factor que os meus sonhos infantis partilhavam: barcos e aviões movem-se por espaços onde é impossível erguerem-se muros. Atirados ao mar os calhaus afundam-se, lançados ao ar os calhaus caem. Sobre as águas, só pontes se podem construir.

Quem concebe, constrói, mantém e prolonga muros e muralhas, há muito que perdeu os sonhos de criança. Mesmo quando algumas dessas muralhas foram construídas para combaterem ameaças reais, e não aquelas inventadas por políticos manhosos, sequiosos de poder porque as riquezas já não lhes bastam. Por falar nisso… Disseram-me que há uma muralha que tem feito correr muita tinta e ilumina muito pixel, não sei se ouviste falar nela. Parece que começou a ser levantada há muitos anos, num país muito poderoso, há mesmo quem diga que se trata da democracia mais possante do mundo. Se assim o é, é um império! Ora parece que o tal muro foi iniciado por um dos imperadores eleitos, loiro e inteligentíssimo, com muita visão, que tinha um fraquinho por uma estagiária jovenzinha que por lá andava. Contaram-me também que lhe sucedeu um outro César que, tolhido por um quociente de inteligência muito baixo, coitadinho, fez duas coisas com os calhaus dos caminhos: atirou-os ao mundo como mísseis e utilizou-os para prolongar o tal muro que a inteligência do predecessor concebera. Fiquei também ao corrente que o seguinte na linha dos imperadores eleitos, um homem simpático, mestiço, tão inteligente como o monarca loiro, achou boa a ideia e conservou-a, ajuntando muitos calhaus ao muro já comprido. Rezam ainda as más-línguas que o último na sucessão ao trono, do qual se desconhece o QI mas que não aparenta ser muito elevado, vai continuar a impressionante obra que herdou, sem aumentar o fardo fiscal dos contribuintes. Muralha gratuita, coisa nunca vista. 

Espantaram-me essas sebes de cedro, quando aqui cheguei, dizendo para comigo que, se um dia vivesse numa casa com cerca, haveria de ser de pedra. Entretanto cresci mais um pouquinho e desisti da ideia, graças às pílulas de conhecimento do doutor Internet que me abriram o espírito e me inverteram os medos. É que, ao considerar as cercas, muros e muralhas deste mundo, subiu-me um pavor pelas tripas acima: e se hordas de vândalos mal-intencionados utilizassem esses mesmos calhaus para me demolirem a casa? «Good fences make good neighbors» é um provérbio popular da tal democracia mais poderosa do mundo, isto é: «As boas cercas fazem os bons vizinhos». Uma ironia, vindo de onde vem, mas enfim... No meu caso, há alguma verdade nesse adágio porque tenho os dois: bons vizinhos e boa cerca. Trata-se duma sebe de cedro, como sabes, de cujas agulhas – que dão bom gosto às infusões e aromatizam as roupas nas gavetas – se extrai um óleo essencial que, quando aquecido num difusor, produz emanações favoráveis à prática da meditação e do ioga. 

Em verdade, em verdade te digo, com a pedra se constrói e com a pedra se destrói. Mau grado esta frase de inspiração bíblica que me veio à cabeça, sabes que sou descrente, não sabes? E no entanto, como tenho um espírito curioso, embora ignorante, acontece-me desfolhar obras religiosas onde recolho algumas máximas dignas de reflexão. Foi assim que encontrei esta magnífica frase no livro mais vendido no planeta:

Provérbios 25:28, «Como a cidade derrubada, sem muro, assim é o homem que não pode conter o seu espírito.»


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La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
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Mots et marées tome 2, Roman, Français
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Saturday, 5 November 2016

Eu minto, tu mentes, ele não

Onde se desmistifica a mentira, a nossa e a deles
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Como sabes, aqui não se procura a facilidade, já conversámos sobre corrupção, impostos, eleições, preconceitos, adolescência, assuntos de trato delicado. E como o que nos une é a profundeza e a complexidade dos assuntos, hoje acorro em defesa dos políticos e do jeito com que manipulam meias verdades e quase mentiras. Assunto espinhoso, arriscado, mas o que é a vida sem riscos, não é? Antes, porém, há uma experiência pessoal a partilhar e factos antropológicos a estabelecer...

Esqueci-me das minhas primeiras mentiras, certo, todavia recordo-me que foi durante a confissão antecedendo a primeira comunhão, católica, que as assumi. Contrito, ajoelhado perante um padre severo, oculto na sacristia, admiti: «Menti à minha mãe». O confessor, habituado aos pecados insossos da canalhada, ignorou-a, passando a outra, com mais raça: «E tiveste maus pensamentos?» Tentei fintá-lo, disse «alguns», desgraçadamente o homem, astuto caçador de vícios, pediu-me para precisar a natureza desses maus pensamentos. Abro parêntesis para uma explicação necessária: mau pensamento não é equivalente de pensamento mau, o segundo tem a ver com violências, roubos, fugas ao fisco e coisas afins, o primeiro com pecados da carne. Fecho parêntesis. «Pensei roubar», retorqui, tentando passar gato por lebre, isto é, um pensamento mau por um mau pensamento. «E concretizaste o intento?», perguntou. Convencido de o ter driblado, confessei, todo contente, que roubara um anzol na caixa de pesca do meu pai. Era não fazer jus à tenacidade do homem, que não largou o osso: «Diz-me: e o aguilhão da carne atormentou-te?» Apavorado com o Inferno que as mentiras trazem, dei a língua ao gato, embora estivesse confuso: o tal aguilhão desencadeara sonhos que até nem tinham sido assim tão maus. Tais são as esparrelas do Chifrudo! E o padre, sereno: «E concretizaste o mau pensamento?» E eu, insultado: «Não!» E ele, seráfico: «Nem contigo próprio?»

Raio do homem, hã?

Quando o padre me colocou aquelas perguntas embaraçantes, já os humanos haviam abandonado, há milénios, as peles grosseiras e fedorentas dos (pouco românticos) hominídeos originais. É minha convicção que, no estado primitivo em que se atolavam, esses primatas inteligentes eram seres caracterizados pela ausência de mentira, calcanhar de Aquiles, passe o anacronismo, responsável pelos seus fiascos na corrida ao cobiçado estatuto de Homo Sapiens Sapiens. Mesmo o austero Neandertal, sério candidato, fracassou. Basta ver-lhe a cara para constatar a sua honestidade. Pachorrento, talvez monogâmico, foi-se reproduzindo, com comedimento e virtude, mas sem génio, pelas deslumbrantes paisagens europeias, durante mais de 200,000 anos, período que proponho rebaptizar com nomenclatura apropriada: era da Pré-Peta. 

Esta santa paz estoirou num risonho dia de Primavera, quando o probo Neandertal deu de caras com um ser exótico, verboso, simpático, ágil, alindado com colares, pulseiras e missangas, a beber cerveja de cevada. Neandertal aceitou partilhar a bebida que o desinibiu e lhe permitiu ultrapassar a sua lendária timidez. Perguntou: «Viste mamutes por perto?» Ao que a criatura replicou: «Bué, meu. A meio dia de marcha na direcção do poente há um vale a abarrotar deles, e a dormir». Neandertal desfez-se em agradecimentos, ofereceu ao estrangeiro uma brasa sagrada para acender fogueiras, mobilizou o clã que correu na direcção indicada, salivando com as presas em perspectiva. Surpresa: em vez de proboscídeos, o vale estava infestado de tigres de dentes de sabre que fizeram um figo dos Neandertais! O Homo Sapiens Sapiens acabava de fazer a sua entrada triunfal no planeta, esgrimindo um utensílio que fez dele o vencedor incontestável da corrida à inteligência: a mentira. 

O astuto recém-chegado foi-se impondo ao íntegro Neandertal, desprovido de anticorpos contra a mentira, e se o presente é garante do passado, o Homo SS, com o fito de se apoderar das reservas estratégicas de mamutes, terá inventado tretas a propósito de mocas de destruição massiva. Dizem também as más-línguas que o mesmo Homo SS, armado de sex-appeal, mentiras, lábia de fadista e jeitinhos de Marialva, seduziu e engravidou muita neandertalóide ingénua. Não acreditas? Olha, se tens ancestrais europeus vai fazer um teste de ADN e arriscas-te a lá encontrar traços do bom Neandertal, que coabitou com o Homo SS durante uns 10,000 anos até desaparecer completamente.

Por uma razão misteriosa, o Homo SS era portador de genes guerreiros e entre eles estalaram conflitos sucessivos, onde a utilização da mentira em larga escala constituiu factor decisivo para vitórias e derrotas. Tal como hoje se verifica, após cada conflito a tecnologia progrediu, a qualidade das mentiras para a guerra seguinte também. Inventou-se então a diplomacia, que é uma troca elegante e codificada de tramóias entre os poderes constituídos. Tudo isto vem para te dizer que, segundo as minhas pesquisas, pela primeira vez reveladas ao mundo, não foi a posição erecta, nem as drogas como pretende Terence McKenna autor do «O pão dos deuses», que causaram a eclosão do Homo SS: Foi a mentira! Ela permitiu o grande salto qualitativo da inteligência e as hordas do homem moderno, levantando a mentira como um facho a arder na noite escura, como dizia José Régio a propósito da loucura, colonizaram o planeta Terra, levando com eles a boa nova: a génese da era da Peta. 

Nos tempos modernos utilizamo-la quotidianamente. Mesmo as crianças não escapam às patranhas dos adultos, aquilo é o Pai Natal chaminé abaixo; princesa acordada com beijoca de príncipe rico; cegonha que traz bebé. Mentiras inocentes, dirás, mas mentiras. Com a eclosão de filosofias moralistas e moralizantes, despontar de religiões e sociedades repressivas, houve tentativas para condenar, controlar e punir a mentira. Verificou-se, aliás, um dos muitos paradoxos que fazem a riqueza do Homo SS: a utilização de contra mentiras. Em vão: a mentira multiplicou-se, avançou como um maremoto pelo mundo fora. Tal como acontece com as drogas duras, houve abusos, dependências e overdoses, consequentemente a patologia debruçou-se sobre o fenómeno e etiquetou a mentira compulsiva: Mitomania! A mentira tornou-se num caso de saúde mental e é hoje objecto de estudos, mestrados e doutoramentos: Nobilitou-se! A sabedoria do povo, como era de esperar, meteu a colher, criando bastos adágios a propósito, entre os quais o mais célebre: mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. Outra corrente popular diz o inverso: a mentira corre mais que a verdade. Assim se vê que o povo, nesta matéria como em tantas outras, está dividido. Proponho provérbio conciliatório, inédito: a verdade e a inocência qualquer mentira alcança.

A mentira, como os vírus, sofre metamorfoses: ela é manipuladora, assassina, religiosa, recreativa, inofensiva, santa, diabólica, utilitária, ignorante, trapaceira... Enfim, classifica-a como quiseres, mas a verdade é que não podemos escapar-lhe: neste mundo fervilham inúmeras sopas culturais onde a mentira é condimento essencial. Nelas nascemos, tu, eu e ele, o político, exímio no assentamento desse tijolo de base que é a mentira. Exímio, dizia, todavia incompreendido, ouso afirmar. Senão vejamos. Imagina que ele bate à tua porta e, armado duma surpreendente honestidade, desbobina diante dos teus olhos estupefactos o que de facto pretende fazer, se for eleito: privatizar a saúde; despedir milhares de funcionários públicos; aumentar as tarifas da electricidade; diminuir os impostos dos ricos e dos grandes monopólios enquanto aumenta os da classe média; defender os paraísos fiscais; reduzir os investimentos na educação; bonificar os salários dos deputados; entregar a assistência da miséria à caridade religiosa; entrar nas guerras americanas; criar desemprego para baixar os salários; ignorar a pobreza infantil; aumentar o fosso entre ricos e pobres. Não lhe perguntes pela cultura que o tipo até estoira de tanto rir! Votavas nele? Pensa num nome feio de utilização corrente, era esse mesmo que eu berrava antes de lhe fechar a porta com estrondo sobre as verdades com que me afligira.

Eu quero ouvir um discurso que me reconforte, mesmo sabendo que é falso, digno duma classe política que elevou a mentira a um nível nunca antes visto! O político, qual pedra filosofal, ao tocar na mentira transmuta-a: de metal vil, ele converte-a em metal nobre. Ela é tratada por profissionais competentes nos corredores ocultos do poder, é esculpida, torneada, ela beneficia de operações plásticas, é embelezada com fios de ouro e prata. Torna-se tão tentadora que nos deixamos seduzir como uma ingénua Neandertal face a um Homo SS. Nos lábios educados, instruídos, da classe política, a mentira é ocultada sob uma colcha tecida num léxico vistoso mas oco. Eis alguns exemplos: abordagem diferente duma mesma problemática; leitura nova dum problema antigo; perspectiva criativa à volta das dificuldades modernas; visão futurista garantindo prosperidade e progresso... Lê os discursos eleitorais e aperceber-te-ás que, por trás de cada um deles, há especialistas do verbo que cultivam a verdade e a mentira com uma tal subtileza que nunca sabemos onde começa uma e a outra acaba. O pobre candidato, submetido à impiedosa disciplina partidária, corrói assim um espírito são, imolando-se no altar do dever público para grande gáudio de Belzebu, que se baba de gozo com a farta vindima de alminhas que se danam durante as campanhas eleitorais.

Sacrifício digno da minha mais profunda admiração e respeito!

Os políticos católicos ajoelham-se diante dum pároco severo, para assumir pensamentos maus e maus pensamentos? Não sei! Tampouco faço ideia se o padre lhes pergunta se concretizaram os tais pensamentos com outros ou com eles próprios. Contudo, ao contrário do gaiato ingénuo que tenta driblar o questionamento com mentiras de terceira mão, tenho cá uma suspeita que o político possui a deslumbrante capacidade de baralhar o mais sagaz dos confessores. Seja como for, se eu fosse padre absolvia os políticos porque, conhecendo as minhas preferências gastronómicas, servem repastos a meu gosto. 

«Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam», dizia Platão há mais de dois mil anos. Referia-se, quiçá, aos eleitores descrentes que ignoram as urnas, desiludidos com os malabarismos eleitorais mais ou menos hábeis desses dois conceitos foscos, verdade e mentira. Foram esses que, fartos das mentiras dos eleitos, levaram o Tiririca à Câmara dos deputados do Brasil, político muito ao gosto do actual governo por ter votado sim pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tiririca, hoje político, era palhaço profissional, e até me disseram que fez escola num país muito rico, muito poderoso, que votou num outro (palhaço). 

Deve ser mentira, não acredito!

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Tuesday, 4 October 2016

Anastásia: a bela e os brutos

Onde se fala dum Sol loiro de Verão que se apagou...
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Foi a 13 de Setembro de 2006...

Se vives no Canadá, já ouviste falar dela, Anastásia Rebecca de Sousa de seu nome completo. Anastásia é nome de princesa, nome bonito como ela era. Como ela era ou é porque a mãe, quando parte em viagem, ainda hoje lhe diz: «Faz as malas, vamos de férias». Se vives no Canadá muito provavelmente também já ouviste falar dele, Kimveer Singh Gill de seu nome completo, Kimveer para a família e amigos, que parece não ter tido muitos. Anastásia e Kimveer tinham duas coisas em comum: Os pais de ambos emigraram de países distantes (Portugal e Índia) e nasceram ambos no Quebeque, respectivamente dezoito e vinte e cinco anos antes de se encontrarem diante dum colégio chamado Dawson, em Montreal.  

Não conheci nem uma nem o outro, vi-lhes as fotografias na televisão e na Internet: Anastásia sorridente como um Sol loiro de Verão, com cara de alguém que adora trazer boas notícias; Kimveer sombrio e ameaçador como um dia de trovoada. Algures, apresentava-se como um anjo da morte: «Odeio o mundo, odeio as pessoas que o habitam, odeio Deus [...], odeio tudo... Odeio tanto...» (I hate this world, I hate the people in it, I hate God [...], I hate everything… I hate so much…)

Kimveer acalentava uma paixão por armas de fogo que comprava legalmente: não é proibido aos cidadãos, mesmo aos que odeiam tudo e muito, de as adquirirem desde que não caiam na classificação de armas restritas ou proibidas. As de Kimveer eram não restritas. Entre as características que levaram o legislador a classificar uma carabina ou uma pistola numa ou noutra das categorias, há uma (característica) que delas não faz parte: que não mate humanos. E não pode ser de outra maneira, dir-me-ás tu, porque se é arma e tem balas, é para matar que foi concebida. Que faria uma carabina de caça grossa, nas mãos dum caçador, se não matasse? 

Acontece que Kimveer não era caçador.

Se o fosse não teria adquirido a Beretta CX4 Storm, cujas qualidades são gabadas pelo fabricante na página Internet onde a promove. Seja qual for o uso que se lhe dê, «defesa domiciliar, caça aos pequenos animais, competição e treino» (home-defense, varminting, competition or training), não desiludirá (will deliver what it promises). Varminting é uma expressão norte-americana que significa caça aos pequenos mamíferos (esquilos, ratos, marmotas) mas não só. Abrange tudo o que ameaça as plantações (pássaros) ou o equilíbrio do ecossistema. Ficamos assim a saber que os altos gestores da Fabbrica d'Armi Pietro Beretta se preocupam com a ecologia e que a Beretta CX4 Storm foi uma das soluções encontradas para o problema. 

Kimveer, competente no gatilho, treinava-se legalmente e regularmente num clube de tiro de Lachine com a Beretta CX4 Storm. Possuía outras armas, igualmente compradas sem infringir a lei, contudo a Beretta CX4 Storm devia ser a sua preferida. Utilizou-a para matar Anastásia com 5 descargas, ferindo dezanove outros humanos com 67. Setenta e duas balas disparadas facilmente porque a Beretta CX4 Storm, além de ser «extremamente versátil» (extremely versatile), é «fácil de utilizar» (easy to use): arma ideal «para quem não tenha grande experiência com um fuzil ou carabina» (for those who may not have extensive experience with a rifle or carbine). É o fabricante quem o diz na página Internet onde vangloria as qualidades do produto. Essa publicidade deve ter tocado Kimveer numa corda sensível, por ela se apaixonou e com ela disparava ódios contra alvos em cartão. Antes daquele dia, onde matou beleza, disparava sem infringir a lei, garante o pai que, devastado pela dor de ter criado um filho assassino, que destroçou a família de Anastásia, jura que nunca teria permitido armas ilegais em casa. 

Como a lei permite... 

A lei deixa comprar armas, consente na sua utilização em clubes de tiro, autoriza o seu transporte dentro de certas condições, consequentemente a lei enquadrou a Beretta CX4 Storm. Suspeito eu que foi concebida para matar humanos, não caça ligeira, senão vejamos: mais de 68,000 foram encomendadas pelo Border Security Force da Índia, cerca de 1,900 pela Líbia de Muammar al-Gaddafi, sendo ainda utilizada pelo Sheriff's Department em Albany nos EUA e na Venezuela pela Guardia del Pueblo. Tudo isto organizações policiais, militares ou paramilitares que, segundo as últimas notícias, nunca se dedicaram a caçar esquilos, marmotas ou gralhas desordeiras. É portanto uma arma que nas mãos dum psicopata pode causar estragos irreparáveis e apagar sóis loiros dum Verão sorridente. E para que a lei deixe, consinta e autorize, foi porque alguém, eleito por nós, assinou documentos que permitiram àquela Beretta CX4 Storm ter sido empunhada por um homicida que o ódio embruteceu. O qual, perante a lei, foi o único responsável pela tragédia que causou, porque matar, isso sim, a lei sanciona. 

Mas a lei não sancionou Kimveer Singh Gill.

Embrutecido, deprimido, insensibilizado, arrastando ódios, fuzis e saco de balas, acossado pela polícia nos corredores do colégio, depois de matar e ferir... Matou-se! E matou-se com facilidade porque, como diz a promoção do fabricante: «Esta carabina, leve e compacta, foi concebida para se adaptar facilmente às necessidades da maior parte dos atiradores» (This light and compact carbine was designed to be completely and easily adaptable to the needs of most shooters). E como as necessidades do atirador, de apagar beleza, estavam satisfeitas, veio-lhe uma outra: apagar-se! Kimveer assassinou e suicidou-se com a mão esquerda ou direita? Não sei. Mas sei que, num caso como no outro, a eficiência do atirador não seria prejudicada: o fabricante daquela Beretta CX4 Storm, atento às necessidades do consumidor, garante que o produto foi concebido para dar a «oportunidade de treino a destros e a canhotos» (opportunity to train or shoot right- or left-handed). E o fabricante tem razão: Kimveer não teve problemas em pôr fim aos seus dias! 

Quem assinou os documentos que deixaram comprar, consentiram na utilização, autorizaram o treino, enquadraram o transporte daquela Beretta CX4 Storm, manufacturada pela Fabbrica d'Armi Pietro Beretta (entre as 1,500 armas produzidas por dia) fê-lo seguramente vestido de fato e gravata, empunhando uma caneta aparentemente inofensiva com a qual desenhou com desembaraço uma assinatura elegante a tinta azul. E ao autorizar a compra e a utilização (dentro de certas condições) daquela arma de matar pessoas, o político teve a precaução de se assegurar do comprimento do cano, detalhe importante, fronteira entre arma de guerra e arma desportiva. Para proteger os inocentes dos brutos. 

Infelizmente, Anastásia não foi protegida pela lei dos eleitos. 

Mas como a lei tem pernas para andar... Após a tragédia, consequente repercussão mediática e efeitos negativos sobre os eleitores, o poder agiu, desatarraxou a tampa da caneta elegante e assinou restrições que praticamente baniam a arma delinquente. Era mal conhecer as boas intenções dos astuciosos gestores da 
Fabbrica d'Armi Pietro Beretta: aumentaram o comprimento do cano para 19 polegadas! Eis a Beretta CX4 Storm de volta à cobiçada categoria não restrita. Genial, não achas? Sobretudo porque, após o tiroteio em Dawson, onde Anastásia deixou de sorrir como um Sol loiro de Verão, a procura da arma que a matou conheceu um significativo aumento. 

Foi, no fundo, um bom negócio.

Será que, tirando Kimveer em 2006, haverá neste momento outros brutos a disparar ódios legais sobre alvos em cartão? Porque os que promovem as vendas, permitem as compras, autorizam o uso das armas de matar sorrisos, nada têm de brutos: uns são negociantes, outros são políticos eleitos, gente reflectida, preocupada com a nossa segurança. E se não acreditas, aqui está a prova. Na página do fabricante que gaba os talentos da Beretta CX4 Storm há um apontador em rodapé intitulado: «A nossa primeira prioridade é a sua Segurança» (Our first priority is your Safety). Ali encontrarás orientações judiciosas sobre os cuidados a ter quando manipulas uma Beretta. Remetendo-te a responsabilidade que antes assumiu, o fabricante dirige-se a ti numa polida segunda pessoa: «Sua primeira prioridade deve ser a sua segurança e a segurança da sua família». Conselho que Kimveer seguiu ao pé da letra. 

Seguem-se quatro outros, em palavras começadas por maiúsculas:

   1) Trate As Armas De Fogo Como Se Estivessem Sempre Carregadas;
   2) Mantenha O Seu Dedo Fora Do Gatilho Até Estar Pronto A Disparar;
   3) Certifique-se Do Alvo Pretendido E Do Que Existe Para Além Dele;
   4) Nunca Aponte Uma Arma Contra O Que Não Quiser Alvejar;

Recomendações que o assassino respeitou escrupulosamente.


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A nossa primeira prioridade 
é a sua Segurança
Sua primeira prioridade deve ser a sua 
segurança e a segurança da sua família 

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A propósito
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© Carlos Taveira



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Assim Escrevia Bento Kissama, Romance, Português, Guerra e Paz, Editores, Lisboa, Portugal, 2019, 296p, ISBN: 9789897024764 

São Paulo, Prisão de Luanda, Memórias, Português, Guerra e Paz, Editores, Lisboa, Portugal, 2019, 176p, ISBN 9789897024511 

Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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