Tuesday, 4 October 2016

Anastásia: a bela e os brutos

Onde se fala dum Sol loiro de Verão que se apagou...
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Foi a 13 de Setembro de 2006...

Se vives no Canadá, já ouviste falar dela, Anastásia Rebecca de Sousa de seu nome completo. Anastásia é nome de princesa, nome bonito como ela era. Como ela era ou é porque a mãe, quando parte em viagem, ainda hoje lhe diz: «Faz as malas, vamos de férias». Se vives no Canadá muito provavelmente também já ouviste falar dele, Kimveer Singh Gill de seu nome completo, Kimveer para a família e amigos, que parece não ter tido muitos. Anastásia e Kimveer tinham duas coisas em comum: Os pais de ambos emigraram de países distantes (Portugal e Índia) e nasceram ambos no Quebeque, respectivamente dezoito e vinte e cinco anos antes de se encontrarem diante dum colégio chamado Dawson, em Montreal.  

Não conheci nem uma nem o outro, vi-lhes as fotografias na televisão e na Internet: Anastásia sorridente como um Sol loiro de Verão, com cara de alguém que adora trazer boas notícias; Kimveer sombrio e ameaçador como um dia de trovoada. Algures, apresentava-se como um anjo da morte: «Odeio o mundo, odeio as pessoas que o habitam, odeio Deus [...], odeio tudo... Odeio tanto...» (I hate this world, I hate the people in it, I hate God [...], I hate everything… I hate so much…)

Kimveer acalentava uma paixão por armas de fogo que comprava legalmente: não é proibido aos cidadãos, mesmo aos que odeiam tudo e muito, de as adquirirem desde que não caiam na classificação de armas restritas ou proibidas. As de Kimveer eram não restritas. Entre as características que levaram o legislador a classificar uma carabina ou uma pistola numa ou noutra das categorias, há uma (característica) que delas não faz parte: que não mate humanos. E não pode ser de outra maneira, dir-me-ás tu, porque se é arma e tem balas, é para matar que foi concebida. Que faria uma carabina de caça grossa, nas mãos dum caçador, se não matasse? 

Acontece que Kimveer não era caçador.

Se o fosse não teria adquirido a Beretta CX4 Storm, cujas qualidades são gabadas pelo fabricante na página Internet onde a promove. Seja qual for o uso que se lhe dê, «defesa domiciliar, caça aos pequenos animais, competição e treino» (home-defense, varminting, competition or training), não desiludirá (will deliver what it promises). Varminting é uma expressão norte-americana que significa caça aos pequenos mamíferos (esquilos, ratos, marmotas) mas não só. Abrange tudo o que ameaça as plantações (pássaros) ou o equilíbrio do ecossistema. Ficamos assim a saber que os altos gestores da Fabbrica d'Armi Pietro Beretta se preocupam com a ecologia e que a Beretta CX4 Storm foi uma das soluções encontradas para o problema. 

Kimveer, competente no gatilho, treinava-se legalmente e regularmente num clube de tiro de Lachine com a Beretta CX4 Storm. Possuía outras armas, igualmente compradas sem infringir a lei, contudo a Beretta CX4 Storm devia ser a sua preferida. Utilizou-a para matar Anastásia com 5 descargas, ferindo dezanove outros humanos com 67. Setenta e duas balas disparadas facilmente porque a Beretta CX4 Storm, além de ser «extremamente versátil» (extremely versatile), é «fácil de utilizar» (easy to use): arma ideal «para quem não tenha grande experiência com um fuzil ou carabina» (for those who may not have extensive experience with a rifle or carbine). É o fabricante quem o diz na página Internet onde vangloria as qualidades do produto. Essa publicidade deve ter tocado Kimveer numa corda sensível, por ela se apaixonou e com ela disparava ódios contra alvos em cartão. Antes daquele dia, onde matou beleza, disparava sem infringir a lei, garante o pai que, devastado pela dor de ter criado um filho assassino, que destroçou a família de Anastásia, jura que nunca teria permitido armas ilegais em casa. 

Como a lei permite... 

A lei deixa comprar armas, consente na sua utilização em clubes de tiro, autoriza o seu transporte dentro de certas condições, consequentemente a lei enquadrou a Beretta CX4 Storm. Suspeito eu que foi concebida para matar humanos, não caça ligeira, senão vejamos: mais de 68,000 foram encomendadas pelo Border Security Force da Índia, cerca de 1,900 pela Líbia de Muammar al-Gaddafi, sendo ainda utilizada pelo Sheriff's Department em Albany nos EUA e na Venezuela pela Guardia del Pueblo. Tudo isto organizações policiais, militares ou paramilitares que, segundo as últimas notícias, nunca se dedicaram a caçar esquilos, marmotas ou gralhas desordeiras. É portanto uma arma que nas mãos dum psicopata pode causar estragos irreparáveis e apagar sóis loiros dum Verão sorridente. E para que a lei deixe, consinta e autorize, foi porque alguém, eleito por nós, assinou documentos que permitiram àquela Beretta CX4 Storm ter sido empunhada por um homicida que o ódio embruteceu. O qual, perante a lei, foi o único responsável pela tragédia que causou, porque matar, isso sim, a lei sanciona. 

Mas a lei não sancionou Kimveer Singh Gill.

Embrutecido, deprimido, insensibilizado, arrastando ódios, fuzis e saco de balas, acossado pela polícia nos corredores do colégio, depois de matar e ferir... Matou-se! E matou-se com facilidade porque, como diz a promoção do fabricante: «Esta carabina, leve e compacta, foi concebida para se adaptar facilmente às necessidades da maior parte dos atiradores» (This light and compact carbine was designed to be completely and easily adaptable to the needs of most shooters). E como as necessidades do atirador, de apagar beleza, estavam satisfeitas, veio-lhe uma outra: apagar-se! Kimveer assassinou e suicidou-se com a mão esquerda ou direita? Não sei. Mas sei que, num caso como no outro, a eficiência do atirador não seria prejudicada: o fabricante daquela Beretta CX4 Storm, atento às necessidades do consumidor, garante que o produto foi concebido para dar a «oportunidade de treino a destros e a canhotos» (opportunity to train or shoot right- or left-handed). E o fabricante tem razão: Kimveer não teve problemas em pôr fim aos seus dias! 

Quem assinou os documentos que deixaram comprar, consentiram na utilização, autorizaram o treino, enquadraram o transporte daquela Beretta CX4 Storm, manufacturada pela Fabbrica d'Armi Pietro Beretta (entre as 1,500 armas produzidas por dia) fê-lo seguramente vestido de fato e gravata, empunhando uma caneta aparentemente inofensiva com a qual desenhou com desembaraço uma assinatura elegante a tinta azul. E ao autorizar a compra e a utilização (dentro de certas condições) daquela arma de matar pessoas, o político teve a precaução de se assegurar do comprimento do cano, detalhe importante, fronteira entre arma de guerra e arma desportiva. Para proteger os inocentes dos brutos. 

Infelizmente, Anastásia não foi protegida pela lei dos eleitos. 

Mas como a lei tem pernas para andar... Após a tragédia, consequente repercussão mediática e efeitos negativos sobre os eleitores, o poder agiu, desatarraxou a tampa da caneta elegante e assinou restrições que praticamente baniam a arma delinquente. Era mal conhecer as boas intenções dos astuciosos gestores da 
Fabbrica d'Armi Pietro Beretta: aumentaram o comprimento do cano para 19 polegadas! Eis a Beretta CX4 Storm de volta à cobiçada categoria não restrita. Genial, não achas? Sobretudo porque, após o tiroteio em Dawson, onde Anastásia deixou de sorrir como um Sol loiro de Verão, a procura da arma que a matou conheceu um significativo aumento. 

Foi, no fundo, um bom negócio.

Será que, tirando Kimveer em 2006, haverá neste momento outros brutos a disparar ódios legais sobre alvos em cartão? Porque os que promovem as vendas, permitem as compras, autorizam o uso das armas de matar sorrisos, nada têm de brutos: uns são negociantes, outros são políticos eleitos, gente reflectida, preocupada com a nossa segurança. E se não acreditas, aqui está a prova. Na página do fabricante que gaba os talentos da Beretta CX4 Storm há um apontador em rodapé intitulado: «A nossa primeira prioridade é a sua Segurança» (Our first priority is your Safety). Ali encontrarás orientações judiciosas sobre os cuidados a ter quando manipulas uma Beretta. Remetendo-te a responsabilidade que antes assumiu, o fabricante dirige-se a ti numa polida segunda pessoa: «Sua primeira prioridade deve ser a sua segurança e a segurança da sua família». Conselho que Kimveer seguiu ao pé da letra. 

Seguem-se quatro outros, em palavras começadas por maiúsculas:

   1) Trate As Armas De Fogo Como Se Estivessem Sempre Carregadas;
   2) Mantenha O Seu Dedo Fora Do Gatilho Até Estar Pronto A Disparar;
   3) Certifique-se Do Alvo Pretendido E Do Que Existe Para Além Dele;
   4) Nunca Aponte Uma Arma Contra O Que Não Quiser Alvejar;

Recomendações que o assassino respeitou escrupulosamente.


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A nossa primeira prioridade 
é a sua Segurança
Sua primeira prioridade deve ser a sua 
segurança e a segurança da sua família 

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A propósito
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© Carlos Taveira



LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE
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Assim Escrevia Bento Kissama, Romance, Português, Guerra e Paz, Editores, Lisboa, Portugal, 2019, 296p, ISBN: 9789897024764 

São Paulo, Prisão de Luanda, Memórias, Português, Guerra e Paz, Editores, Lisboa, Portugal, 2019, 176p, ISBN 9789897024511 

Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Monday, 12 September 2016

Era uma vez aos 15 anos...

Onde se fala duma vertigem de adolescente
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Estive hoje a dar uma volta pelas redes sociais e, digo isto sem ironia, há por lá muita gente que me fascina, pessoas que tudo sabem: a toda pergunta respondem; à mínima dúvida esclarecem; a qualquer imprecisão corrigem. Alguns pontificam certezas e distribuem generosamente conselhos pródigos mesmo a quem não lhos pede. Admiro-lhes a indubitabilidade porque sou o inverso: questiono-me, duvido, equivoco-me numa eterna insegurança alimentada por uma inocência crónica. Contudo, essa voltinha pelo mundo virtual fez-me lembrar que não fui sempre assim, trazendo-me à memória um episódio triste que marcou a minha adolescência. Tinha então quinze anos.

Quinze aninhos...

Idade fronteira entre duas estações da vida, delimitada por borbulhas na cara, buço ao canto do lábio e outras irrupções hormonais, como sólidas certezas e muito pouca modéstia. Bom... E idiotices também, confesso-te que me vêm ao espírito algumas das quais não me sinto particularmente orgulhoso, por isso sou tolerante em relação à miudagem que hoje as exibe (as idiotices) com jactância despudorada. Evito sobretudo aquele famoso «no meu tempo é que era», porque havia coisas que nesse tempo não eram tanto assim. Tu também já tiveste quinze anos, não tiveste? Muita água correu sob as pontes do Catumbela desde então... E digo Catumbela porque foi o primeiro rio que vi serpentear: na cidadezinha bonitinha onde nasci não havia correntes de água, apenas mangais, vasta baía profunda e um mar a perder-se pelo horizonte curvo. E muito sol por cima daquilo tudo... 

Aos quinze aninhos era lá que morava.

Já me barbeava, recebia frascos de aftershave e água de colónia como presentes, perfumando o meu bronzeado charme tropical. É que sou caucasiano (forma politicamente correcta de dizer branco), não sei se já to confiei. E entre a gente de tez clara, como eu, há fundamentalmente dois tipos de indivíduos: os que bronzeiam a pele e os outros que ficam vermelhos como pimentões durante um certo tempo até voltarem ao branco pálido que os caracteriza. Alguns caucasianos até apresentam pintinhas que o sol assanha, adoráveis quando derramadas num corpo de mulher. Quanto a mim, bronzeio felizmente. Naquela altura dos meus quinze anos, para lá de moreno retinto, era magrinho, tinha cabelos pretos de azeviche, olhos castanhos que o sol esverdeava, uma barba precoce e um ventre chato que morreu, deixando-me profundas saudades. Tratava-se dum terreno fértil onde se ocultavam as sementes venenosas duma mansa arrogância que felizmente não chegou a germinar completamente. E se ficaram estéreis, como as que vendem as dez companhias do agro-negócio que dominam 75% do negócio mundial das sementes, foi graças a um evento traumático que um dia me abalou, atingia eu o cume da adolescência.

Conto-te...

Nesse dia fazia um sol bonito quando saí de casa depois de ter tomado um duche copioso, lambuzado as axilas de desodorizante, encharcado as bochechas magras de loção aftershave e borrifado os dois pêlos do peito com jactos nutridos de água de colónia. Ia conscienciosamente penteado, vestindo jeans ajustadas, camisa moderna com bolsos bem definidos, enfiada nas calças. Cinto largo com fivela prateada, relógio de pulso e sapatos de bico fino. Sem livro sentia-me despido, consequentemente armei-me com o Papillon de Henri Charrière, é obra volumosa, fazia boa figura.

Assim que cheguei à paragem, duas raparigas da minha idade, que já lá estavam, miraram-me com espanto e sorriram, fazendo nascer um sol novo que me incendiou por dentro. Nos autocarros da cidadezinha bonitinha onde nasci havia fiscais dos dois sexos, e o que veio picar-me o passe era uma jovem mulher bonita, escura, alta, elegante, grave, cujos olhos melancólicos me miraram com interesse, produzindo algo que nunca nela tinha visto: um sorriso! Sorriso triste, é verdade, todavia inquietante, recolhido junto ao sol que esbraseava o meu peito esquálido.

Dei-me então conta que a meu lado cavalgava um dos mais respeitados guias espirituais lusitanos: o saudoso marquês de Marialva. Considerando com aprovação a minha démarche de sedutor, escoltou-me pelos caminhos floridos do conquistador por onde eu ia bafejando eflúvios de perfumes embebidos em displicente indolência.

Houve a menina da livraria onde fui comprar cadernos que me sorriu de maneira inabitual; houve um grupinho de raparigas adolescentes em circunvolução ao redor do mercado que me trespassou com olhares viciosos e mãos nas bocas, ocultando risinhos cúmplices; houve algumas outras, desgarradas, nas quais, atento como um predador faminto, discernia uma mudança de atitude, um relâmpago lascivo nas pupilas. Já o marquês andava trotando a meu lado há algum tempo quando de nós se acercou o espírito de Dom Juan, ansioso por comigo acamaradar. Mas assim que uma loirinha bonitinha não se conteve ao encarar-se comigo, e se iluminou radiante como um céu da estação das chuvas, Casanova juntou-se à nossa súcia de matadores que já me considerava como o portador da chama da sedução que outrora tão alto tinham levantado. 

Poupo-vos a descrição minuciosa de outras manifestações contidas de júbilo a que se entregava o género feminino, rendido à minha soberba de conquistador. E não penses que só as da minha idade se compraziam a apreciar-me: mulheres feitas (uma delas casada) trespassaram-me igualmente com aqueles dardos acerados, embebidos em poções venenosas de vício puro, que tão bem sabem aguçar certas descendentes da tal Eva mítica. Marialva, Dom Juan e Casanova davam-me palmadinhas cúmplices nas costas e já os tratava por tu quando decidi prolongar o meu desfile triunfal à volta do tal mercado que, sabem os que nessa cidadezinha viveram, servia de ponto de encontro social, mas também de parada a quem necessitava de se exibir. O que era exactamente o meu caso naquele dia. Voltei a cruzar-me com algumas das conquistadas e gratifiquei outras, que ainda não tinham tido o privilégio de me admirar, com o meu esplendor. Todas reagiram da mesma maneira, confirmando o charme possante, perigoso, eclodindo dos meus quinze anos. Depois de uma hora de glorioso desfile pelo mercado e ruas adjacentes, o meu ego amansado procurou uma paragem de autocarro para regressar a casa. Evidentemente, as três amigas que esperavam o mesmo transporte não conseguiram reprimir sorrisinhos e cochichos perversos.

Mas como tudo o que sobe, cai... 

Foi precisamente nessa paragem que a bolha colorida onde flutuava rebentou com a violência das matracas da polícia de choque sobre as cabeças de jovens altermundistas tatuados. Um conhecido aproximou-se com ar inquieto e, sem mesmo me desejar os bons-dias, cochichou-me estas horrorosas palavras: «Meu... Estás com a braguilha toda aberta!»

BANG!

Dizem os sobreviventes da explosão duma bomba ou dum obus que, durante os segundos posteriores à deflagração, ficaram embrulhados num silêncio denso enquanto o mundo à volta se ia mexendo lentamente. Como num pesadelo. Foi mais ou menos o que senti... E a tal braguilha toda aberta (esquecera-me de correr o fecho-ecler quando me besuntava de aftershave, ao espelho) expunha aquela peça de roupa interior a que alguns dão o nome de cuecas (palavra rasca por causa do primeiro ditongo) e a que nós, pessoas de vocabulário elegante, chamávamos slips. E os slips que usavam os jovens modernos da época eram às cores. E o meu era dum amarelo-canário berrante, quase fluorescente, do género que a mínima fonte de luz faria brilhar no escuro... Contrastando perfeitamente com o azul das jeans! Uma bomba em forma de slips. 

Voltei para casa arrastando a cauda deprimida sobre o mesmo percurso, transformado em Calvário... Marialva, Dom Juan e Casanova viraram-me as costas com desprezo... Os sorrisos femininos apagaram-se... Fui ignorado por todos os bandos de raparigas que por mim passavam... 

Não fui à praia, fechei-me no quarto e mergulhei na leitura do Papillon, acamaradando com aquela cáfila de bandidos que pululam pelas páginas do livro do Carrière. No dia seguinte abandonei o auto-exílio na minha Ilha do Diabo para enfrentar o mundo com menos arrogância.

Com o tempo tornei-me mais observador e dei-me conta que o planeta está a abarrotar de pessoas bem-intencionadas que nos respondem, esclarecem e corrigem com a certeza dos que nunca tiveram um par de slips amarelo-canário expostos aos risos dos outros. Ou pior: ao escárnio das outras! Essas pessoas pertencem a todos os sexos, religiões, profissões, orientações sexuais, extractos sociais e andam por aí à solta postulando verdades, certezas e convicções. Não é por isso que se tornam más, muitas delas são generosas e altruístas, honestamente convencidas que apregoam a Verdade. Contudo, ao aperceber-me de alguns paradoxos, incoerências e absurdos que debitam com imodéstia e que uma sincera presunção lhes impede de enxergar, dá-me uma gana enorme de lhes cochichar ao ouvido

– Meu... Estás com a braguilha toda aberta! 


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© Carlos Taveira

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
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Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
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Wednesday, 6 July 2016

Uma história de ilhéus...

Onde se fala de mundos e ilhas 
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É praticamente impossível não abordar um certo acontecimento que se passou lá pelo primeiro mundo durante estas últimas semanas. Digo primeiro porque, como estou a ficar velho, sou do tempo em que os países se distribuíam pelo primeiro, segundo e terceiro mundos, conceito que teria sido desenvolvido pelos horríveis maoistas... Cruzes, credo, canhoto! Com a guerra fria, a terminologia evoluiu e quando dei por ela falava-se em mundos desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. A estes últimos, o meu vocabulário pessoal chama-lhes países à rasca, desculpem-me a palavra chã, feia, porque feio é também o que se passa nessas terras que, em linguagem mais polida, chamo países aflitos ou à nora. Há quem prefira adjectivá-los com outro vocábulo utilizado no teatro para desejar sorte: o mot de Cambronne. Enfim, os países desenvolvidos podem igualmente designar-se como Norte e os à rasca como Sul…

Voltemos àquele acontecimento muito publicitado, do qual certamente tiveste conhecimento. Acalma-te, não vai ser questão dos países que andam à nora com tanta desgraça que até chateia. Aquilo é bombardeamentos aéreos e terrestres, civis a sofrer e morrer, criancinhas afogadas no mar, cidades destruídas, crises humanitárias… Fala-se tanto dessas misérias que já perderam as primeiras páginas, ninguém liga a isso e aposto que até baixou o preço da publicidade enquadrando tais notícias. Todavia nem todo o terceiro mundo anda à trolha e à massa, graças aos céus alguns não sofrem de guerras nem guerrilhas, estão em paz e padecem apenas de males menores: governos corruptos, bancarrotas, juventude sem futuro, prostituição infantil e uma pobreza franciscana que é de quebrar o coração ao mais empedernido dos ateus.

Lembra-me por favor que estou aqui para te falar daquele acontecimento que muito encareceu a publicidade na imprensa falada e escrita, mas permite-me abrir um parêntesis para te contar uma boa do cartoonista alemão ERL que ilustrou a relação entre países desenvolvidos e países em guerra por meio de dois desenhos. No primeiro, vê-se equipamento militar pesado a ser exportado do Norte para o Sul. No segundo, vê-se uma série de refugiados, homens, crianças e mulheres com véus a fugirem, esbaforidos, em sentido contrário, para o Norte. Fecho os parêntesis.

Sejamos disciplinados, regressemos ao assunto principal: o importante acontecimento que se passou naquele país do primeiro mundo, o desenvolvido… Como é que chama… Irra! Sabes qual é, não sabes? Fica na Europa, numas ilhas endinheiradas do Norte, com muita civilização e democracia… O mesmo que dominou muito mundo ao sul do Mediterrâneo, onde se situam países tão famintos, tão aflitos e com tantos milhões de refugiados, que as agências de rating nem para lixo os querem. E olha a injustiça, há más-línguas a espalhar boatos contra essa nação abastada que mora nas Ilhas... Que chatice, não consigo lembrar-me do nome. Arre! Que memória... 

Continuemos! 

Esses detractores, dizia eu, alardeiam por esse mundo fora uma revoltante calúnia: como, durante séculos, os exércitos ilhéus imperiais se impuseram ao mundo do Sul, sugando-lhes o tutano nutritivo... Concluem que é culpa das ilhas (e de outras potências do mesmo jaez) se esses países, que andam à nora, estão hoje tão à rasca. Aposto um braço que essas maledicências provêem duma esquerda republicana invejosa do imperial sucesso daquela nação, onde aconteceu esse evento que me traz hoje aqui. E digo esquerda republicana porque, mesmo se me esqueci do nome (ai esta minha memória) das tais ilhas, sei que são governadas por uma monarquia constitucional conservadora onde reina uma soberana já com a sua idade, muito bondosa, e à qual prestei juramento de fidelidade quando virei canadiano.

Adiante! 

Ora então, e enfim, vamos lá falar do tal evento que anda a fazer correr tanta tinta e a iluminar tanto pixel. Aconteceu que os cidadãos dessas grandes ilhas, onde reina a soberana idosa, foram em massa votar para resolver a bem um litígio que os dividia. Aparentemente nada de complicado para uma nação marítima, o governo pedia-lhes para escolher entre duas perguntas: uma, continuamos atracados às costas continentais; outra, largamos amarras e voltamos a ser verdadeiras ilhas como no good old times? Reparaste na palavra «aparentemente» mais acima, não reparaste? Não está lá por acaso, foi judiciosamente escolhida, porque se as perguntas eram simples, a resposta poderia ter consequências brutais para quem ia às urnas ou assistia de perto ou de longe àquela animação. O resultado foi rés vez campo de Ourique, mas ganhou o campo do good old times, constituído principalmente por good old fellows.

Ofuscado pela minha santa ignorância, não entendi imediatamente os motivos que conduziram os cidadãos mais velhos do reino a cortar amarras. Pensei que andavam com vontade de se afastar de terra firme por causa do alho, muito consumido no continente e cujas emanações são insuportáveis aos cidadãos conservadores das Ilhas… Ai… Tinha-lhes o nome na pontinha da língua…  Escapou-se-me por um triz... Enfim... Para deslindar aquela trapalhada, pus-me a ler artigos pouco complicados com gráficos e tudo, até compreender qualquer coisa. Como sou pouco original, veio-me à cabeça um jogo de palavras simplório: mesmo se o resultado do voto não é culpa do alho, há muita gente gritando que se meteu numa alhada.

Sobretudo uma grande parte da gente jovem que, como seria de esperar, não ouviu os conselhos sensatos dos mais velhos e votou no acostamento aos portos continentais. Os imprudentes preferiam misturar-se com a juventude daquelas hordas exóticas que, aproveitando-se do barco atracado, lhe trepavam ao convés e faziam desmandos. Felizmente prevaleceu o bom senso de velhos como eu, cuja experiência falou pela boca das urnas. À imprudência da juventude, souberam opor a sabedoria e o orgulho nacionais gravemente ameaçados pelo oportunismo dos bárbaros invasores. Bandos de ingratos que em vez de lutarem pela paz, progresso e estabilidade das comunidades onde nasceram, empunhando o equipamento militar que tão generosamente o Norte vende ao Sul, desertam vergonhosamente, obrigando-nos a cavar referendos, plantar muros e levantar fronteiras. 

E não dêem ouvido aos costumeiros liberais do centro-esquerda, que andam por aí a exibir por tudo quanto é Internet um gráfico demonstrando que esses jovens estúrdios, mesmo depois do último sábio ilhéu ter desaparecido, continuarão a viver com as consequências do referendo. Contudo, a juventude não sendo eterna, os incautos hão-de crescer, criar famílias, ganhar juízo, e um dia hão-de agradecer aos good old fellows a sua exemplar oposição à abertura dos portos. E se não compreenderem uma verdade de base, que é erguendo sólidas muralhas que se defendem as luzes das conquistas civilizacionais, assistirão, arrependidos, ao desvanecer do good old times. Bem feito!

Mas a democracia falou e prevaleceu a soberana vontade duma população que, como eu, envelhece a votos vistos. E quando envelhecemos, dizem alguns entendidos, rejuvenescem-se preconceitos antigos, intolerâncias alimentares, fobias de tribo e tabus culturais. A propósito, e apesar de me ter esquecido do nome dessas ilhas, lembrei-me dum primeiro-ministro que as governou, homem de muito carisma, amante de champanhe e charutos quecomo era seu hábito, tornou famosa uma frase já existente: «A democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as outras que foram experimentadas.» 

Perguntinha para encerrar isto: e se a democracia fosse igualmente barómetro de preconceitos? 


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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Wednesday, 8 June 2016

Esta língua que é um mar...

Onde se viaja com esta língua que nos une e separa.
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Quando eu era um pirralho, o dia 10 de Junho chamava-se Dia de Camões, de Portugal e da Raça, chama-se hoje Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Para mim, é o dia desta língua que partilhamos, a mesma de quem um poeta se reclamava cidadão: a minha pátria é a língua portuguesa. Será a tua, provavelmente, porque se lês este artigo deves ter crescido na língua de Gil Vicente, Luís de Camões, padre António Vieira, Mariana Alcoforado, Eça de Queirós, Fernando Pessoa (o tal que é dela cidadão), Castro Alves, Machado de Assis, Cecília Meireles, Osvaldo de Andrade, Vitorino Nemésio, António Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Alda Lara, José Craveirinha, Amílcar Cabral, Florbela Espanca, Pedro Cardoso, José Saramago…  E de quantos outros!

Houve alguém que disse (esqueci-me de quem, acho que foi um brasileiro) que a língua portuguesa se divide em dois períodos: até Eça e depois de Eça. Outros opõem-lhe o padre António Vieira, a língua portuguesa seria coisa obscura até ser iluminada pelo autor do Sermão de Santo António aos Peixes. Contudo, a maioria de nós considera Luís de Camões como o expoente máximo dessa flor do Lácio, inculta e bela nas palavras de Olavo Bilac que, apesar do amor que votava à língua que ilustrou, a feriu na sua susceptibilidade. Porque é bela sim, inculta não.

É língua antiga que desabrochou num ramo comum, o galego-português, nas montanhas do norte peninsular de onde caiu, de acha de armas em punho, sobre sarracenos e castelhanos que expulsou. Cresceu entre cristãos, judeus, burgueses, plebeus e reis, amadureceu, enobreceu-se, popularizou-se e emancipou-se num rectângulo de terra talhado a fio de espada. Espartilhada numa cota de malha assaz redutora para lhe conter o ímpeto montanhês, arrancou aos pinhais veleiros, com nomes de santos, que armou e lançou ao mar oceano. Neles embarcou, levantou ferro, içou velas com a cruz templária e, de coração nas mãos e rezas nos lábios, fez-se ao largo para enfrentar adamastores que se escondiam nas brumas medonhas do fim do mundo.

O sopro do lariço de Cascais empurrou-a para a linha do horizonte, as nortadas para o sul e, manobrando entre os ventos camacheiros da Madeira e mata-vacas dos Açores, foi-se instalando em ilhas luxuriantes, desertas de pessoas. Lavrando o mar de vaga em vaga, bolinando ou de vento em popa, chegou aos alísios que sopram aguaceiros sobre o Equador, cintura dividindo o mundo em dois hemisférios. Ouçamos o cidadão da língua portuguesa sintetizar esta aventura numa das mais belas quadras da sua Mensagem:

«E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo.» (*)

Nessa orla branca, que foi cartografando, a língua negociou aguadas e géneros frescos, instalou feitorias, misturou-se aos idiomas locais, mestiçou-se e deu à luz línguas francas, sementes de futuros crioulos, deixando alguns padrões na esteira das naus e cruzes por todo o lado. Permutaram-se vocábulos, e se alguns criaram raízes em terra firme, outros embarcaram nos conveses atulhados de cordas e rudes pés descalços. Nas torna-viagens, os marujos portugueses traziam a África nos lábios, não fumavam a pipa ou a pipe como os espanhóis, ingleses ou franceses, era no cachimbo que se viciavam em nicotina, a confusão era um banzé, o charco de água uma cacimba, a soneca um cochilo, as contas eram missangas, o mexerico um zunzum, a desordem uma bagunça, a palhota uma cubata. E sob os gritos de mestres que enviavam nuvens de trinqueiros aos velames, espraiou-se pelo hemisfério sul, onde hoje é a língua mais falada, chegou ao oriente, instalou-se entre indianos, japoneses, malaios, chineses… E inventou a tal palavra que lhe é tão cara: saudade!

Em África e na América do Sul encontrou futuro: a uma arrebatou milhões de escravos vendidos à outra a preço de ouro. Embarcou-os nos fétidos porões dos mesmos navios, com nomes de santos e cruzes templárias, arrancados aos pinhais do reino. Durante séculos, entre as duas margens de dois continentes, ela baptizou, acorrentou, chicoteou, comprou e vendeu milhões de seres humanos, cujos rostos desesperadamente pasmados lhe trouxeram uma palavra mais, a ela já tão rica de adjectivos: banzo! E esses mesmos humanos, banzados, reproduziram-se na terra da sua clausura a quem os mestres chamavam Brasil. Ali, milhares de escravos alforriaram-se eles mesmos, servindo-se da língua do cativeiro para levantarem quilombos de liberdade na República de Palmares. Tinham compreendido uma terrível verdade hoje tão esquecida: a liberdade conquista-se, o rei, o explorador e o governante nunca a oferecem. A língua dividiu-se então em dois campos: o da emancipação, que trazia urros de bravura e futuro; e o da escravidão que, ignorante dos ventos da história e de olhos fitos no lucro imediato, vociferava ódios à liberdade. E quando Zumbi dos Palmares, o imortal, foi decapitado, e sua cabeça salgada e espetada no poste duma praça pública, os executores acreditavam tê-lo silenciado e vencido o mito da sua imortalidade. Contudo, não se decapita uma língua e mesmo se Zumbi não era imortal, ainda não morreu. Há quem hoje se esqueça dessas lições que viajam nas memórias desta língua tão cheia de mundo.

Ela foi testemunha da crueldade de graves autoridades eclesiásticas que, de mitras nas cabeças e rezas em latim nos beiços diabólicos, pegaram fogo a milhares de fogueiras onde ardiam, em vida, archotes humanos, num ritual de purificação bárbaro. Tudo isso em nome duma religião e dum homem que nada daquilo tinham pedido. Porque matar em nome de Deus, como disse o único prémio Nobel de literatura desta língua que mereceu vários: matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino (**).

A língua portuguesa serviu fielmente, durante séculos, um império que se alastrou pelo mundo como uma vaga, construindo fortalezas e abrindo rotas, colonizando, dividindo e unindo. Contribuiu a pavimentar auto-estradas de água por onde circularam as riquezas que os escravos produziam, inspirando outras, semelhantes, invisíveis todavia mais eficazes, electrónicas, na futura época da híper tecnologia. Como todo o império chega ao fim, e quem o contesta se serve da língua que o construiu para o derribar, a língua gritou revoltas, guerrilhas e independências. Quando a vaga, enfim, enrolou bandeiras e recolheu à concha onde nascera, deixara pelo mundo pátrias novas, coloridas de amazônias, gorongozas, namibes, pântanos de mangue, cafezais são-tomenses e ilhas de fogo. E em cada uma das pátrias novas, a língua adaptou-se a climas variados e gentes exóticas: no Brasil conta-se com quantos paus se faz uma canoa; em Moçambique se amanhece a cantar ou chorar; em Angola se consegue ou se desconsegue bué; na Guiné fuma-se uma ordem; em São Tomé tudo vai leve-leve; em Cabo Verde tem morabeza. Nesses novos universos por ela criados, ela canta e dança com harmonias e requebros distintos, desde os fados aos sambas, do kuduro às coladeiras, do gumbe à marrabenta.

Ainda hoje nos perguntamos por que razão a língua portuguesa produz quase todos os sons do mundo. Li num magazine francófono que o ão imita o estoirar das vagas na linha da rebentação, e o chsh,  (ce son chuintant) simula o chiar da espuma espraiando-se areais acima. Sendo assim, quando falamos português é com o mar nos lábios que o fazemos.

A língua portuguesa criou bolsas de emigrantes em vários países do mundo onde luta para se manter viva. E é por isso que a escrevemos aqui, neste país de frios e gelos, nas vésperas deste curto Verão que se anuncia. Porque ela não é uma pátria, como queria o poeta, ela são vastos universos pertencentes a muitas pátrias que partilham um paradoxo difícil de resolver: por que razão uma língua tão antiga, tão espalhada e tão rica, é falada por tanta gente tão pobre?


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(*) PESSOA, Fernando, Mensagem, 1934.
(**) SARAMAGO, José, Outros Cadernos de Saramago, artigo Deus como problema, publicado pela Fundação José Saramago a 16 de Outubro de 2008.
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© Carlos Taveira


LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE


Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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