Wednesday, 6 July 2016

Uma história de ilhéus...

Onde se fala de mundos e ilhas 
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É praticamente impossível não abordar um certo acontecimento que se passou lá pelo primeiro mundo durante estas últimas semanas. Digo primeiro porque, como estou a ficar velho, sou do tempo em que os países se distribuíam pelo primeiro, segundo e terceiro mundos, conceito que teria sido desenvolvido pelos horríveis maoistas... Cruzes, credo, canhoto! Com a guerra fria, a terminologia evoluiu e quando dei por ela falava-se em mundos desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. A estes últimos, o meu vocabulário pessoal chama-lhes países à rasca, desculpem-me a palavra chã, feia, porque feio é também o que se passa nessas terras que, em linguagem mais polida, chamo países aflitos ou à nora. Há quem prefira adjectivá-los com outro vocábulo utilizado no teatro para desejar sorte: o mot de Cambronne. Enfim, os países desenvolvidos podem igualmente designar-se como Norte e os à rasca como Sul…

Voltemos àquele acontecimento muito publicitado, do qual certamente tiveste conhecimento. Acalma-te, não vai ser questão dos países que andam à nora com tanta desgraça que até chateia. Aquilo é bombardeamentos aéreos e terrestres, civis a sofrer e morrer, criancinhas afogadas no mar, cidades destruídas, crises humanitárias… Fala-se tanto dessas misérias que já perderam as primeiras páginas, ninguém liga a isso e aposto que até baixou o preço da publicidade enquadrando tais notícias. Todavia nem todo o terceiro mundo anda à trolha e à massa, graças aos céus alguns não sofrem de guerras nem guerrilhas, estão em paz e padecem apenas de males menores: governos corruptos, bancarrotas, juventude sem futuro, prostituição infantil e uma pobreza franciscana que é de quebrar o coração ao mais empedernido dos ateus.

Lembra-me por favor que estou aqui para te falar daquele acontecimento que muito encareceu a publicidade na imprensa falada e escrita, mas permite-me abrir um parêntesis para te contar uma boa do cartoonista alemão ERL que ilustrou a relação entre países desenvolvidos e países em guerra por meio de dois desenhos. No primeiro, vê-se equipamento militar pesado a ser exportado do Norte para o Sul. No segundo, vê-se uma série de refugiados, homens, crianças e mulheres com véus a fugirem, esbaforidos, em sentido contrário, para o Norte. Fecho os parêntesis.

Sejamos disciplinados, regressemos ao assunto principal: o importante acontecimento que se passou naquele país do primeiro mundo, o desenvolvido… Como é que chama… Irra! Sabes qual é, não sabes? Fica na Europa, numas ilhas endinheiradas do Norte, com muita civilização e democracia… O mesmo que dominou muito mundo ao sul do Mediterrâneo, onde se situam países tão famintos, tão aflitos e com tantos milhões de refugiados, que as agências de rating nem para lixo os querem. E olha a injustiça, há más-línguas a espalhar boatos contra essa nação abastada que mora nas Ilhas... Que chatice, não consigo lembrar-me do nome. Arre! Que memória... 

Continuemos! 

Esses detractores, dizia eu, alardeiam por esse mundo fora uma revoltante calúnia: como, durante séculos, os exércitos ilhéus imperiais se impuseram ao mundo do Sul, sugando-lhes o tutano nutritivo... Concluem que é culpa das ilhas (e de outras potências do mesmo jaez) se esses países, que andam à nora, estão hoje tão à rasca. Aposto um braço que essas maledicências provêem duma esquerda republicana invejosa do imperial sucesso daquela nação, onde aconteceu esse evento que me traz hoje aqui. E digo esquerda republicana porque, mesmo se me esqueci do nome (ai esta minha memória) das tais ilhas, sei que são governadas por uma monarquia constitucional conservadora onde reina uma soberana já com a sua idade, muito bondosa, e à qual prestei juramento de fidelidade quando virei canadiano.

Adiante! 

Ora então, e enfim, vamos lá falar do tal evento que anda a fazer correr tanta tinta e a iluminar tanto pixel. Aconteceu que os cidadãos dessas grandes ilhas, onde reina a soberana idosa, foram em massa votar para resolver a bem um litígio que os dividia. Aparentemente nada de complicado para uma nação marítima, o governo pedia-lhes para escolher entre duas perguntas: uma, continuamos atracados às costas continentais; outra, largamos amarras e voltamos a ser verdadeiras ilhas como no good old times? Reparaste na palavra «aparentemente» mais acima, não reparaste? Não está lá por acaso, foi judiciosamente escolhida, porque se as perguntas eram simples, a resposta poderia ter consequências brutais para quem ia às urnas ou assistia de perto ou de longe àquela animação. O resultado foi rés vez campo de Ourique, mas ganhou o campo do good old times, constituído principalmente por good old fellows.

Ofuscado pela minha santa ignorância, não entendi imediatamente os motivos que conduziram os cidadãos mais velhos do reino a cortar amarras. Pensei que andavam com vontade de se afastar de terra firme por causa do alho, muito consumido no continente e cujas emanações são insuportáveis aos cidadãos conservadores das Ilhas… Ai… Tinha-lhes o nome na pontinha da língua…  Escapou-se-me por um triz... Enfim... Para deslindar aquela trapalhada, pus-me a ler artigos pouco complicados com gráficos e tudo, até compreender qualquer coisa. Como sou pouco original, veio-me à cabeça um jogo de palavras simplório: mesmo se o resultado do voto não é culpa do alho, há muita gente gritando que se meteu numa alhada.

Sobretudo uma grande parte da gente jovem que, como seria de esperar, não ouviu os conselhos sensatos dos mais velhos e votou no acostamento aos portos continentais. Os imprudentes preferiam misturar-se com a juventude daquelas hordas exóticas que, aproveitando-se do barco atracado, lhe trepavam ao convés e faziam desmandos. Felizmente prevaleceu o bom senso de velhos como eu, cuja experiência falou pela boca das urnas. À imprudência da juventude, souberam opor a sabedoria e o orgulho nacionais gravemente ameaçados pelo oportunismo dos bárbaros invasores. Bandos de ingratos que em vez de lutarem pela paz, progresso e estabilidade das comunidades onde nasceram, empunhando o equipamento militar que tão generosamente o Norte vende ao Sul, desertam vergonhosamente, obrigando-nos a cavar referendos, plantar muros e levantar fronteiras. 

E não dêem ouvido aos costumeiros liberais do centro-esquerda, que andam por aí a exibir por tudo quanto é Internet um gráfico demonstrando que esses jovens estúrdios, mesmo depois do último sábio ilhéu ter desaparecido, continuarão a viver com as consequências do referendo. Contudo, a juventude não sendo eterna, os incautos hão-de crescer, criar famílias, ganhar juízo, e um dia hão-de agradecer aos good old fellows a sua exemplar oposição à abertura dos portos. E se não compreenderem uma verdade de base, que é erguendo sólidas muralhas que se defendem as luzes das conquistas civilizacionais, assistirão, arrependidos, ao desvanecer do good old times. Bem feito!

Mas a democracia falou e prevaleceu a soberana vontade duma população que, como eu, envelhece a votos vistos. E quando envelhecemos, dizem alguns entendidos, rejuvenescem-se preconceitos antigos, intolerâncias alimentares, fobias de tribo e tabus culturais. A propósito, e apesar de me ter esquecido do nome dessas ilhas, lembrei-me dum primeiro-ministro que as governou, homem de muito carisma, amante de champanhe e charutos quecomo era seu hábito, tornou famosa uma frase já existente: «A democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção de todas as outras que foram experimentadas.» 

Perguntinha para encerrar isto: e se a democracia fosse igualmente barómetro de preconceitos? 


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© Carlos Taveira


LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE


Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Wednesday, 8 June 2016

Esta língua que é um mar...

Onde se viaja com esta língua que nos une e separa.
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Quando eu era um pirralho, o dia 10 de Junho chamava-se Dia de Camões, de Portugal e da Raça, chama-se hoje Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Para mim, é o dia desta língua que partilhamos, a mesma de quem um poeta se reclamava cidadão: a minha pátria é a língua portuguesa. Será a tua, provavelmente, porque se lês este artigo deves ter crescido na língua de Gil Vicente, Luís de Camões, padre António Vieira, Mariana Alcoforado, Eça de Queirós, Fernando Pessoa (o tal que é dela cidadão), Castro Alves, Machado de Assis, Cecília Meireles, Osvaldo de Andrade, Vitorino Nemésio, António Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Alda Lara, José Craveirinha, Amílcar Cabral, Florbela Espanca, Pedro Cardoso, José Saramago…  E de quantos outros!

Houve alguém que disse (esqueci-me de quem, acho que foi um brasileiro) que a língua portuguesa se divide em dois períodos: até Eça e depois de Eça. Outros opõem-lhe o padre António Vieira, a língua portuguesa seria coisa obscura até ser iluminada pelo autor do Sermão de Santo António aos Peixes. Contudo, a maioria de nós considera Luís de Camões como o expoente máximo dessa flor do Lácio, inculta e bela nas palavras de Olavo Bilac que, apesar do amor que votava à língua que ilustrou, a feriu na sua susceptibilidade. Porque é bela sim, inculta não.

É língua antiga que desabrochou num ramo comum, o galego-português, nas montanhas do norte peninsular de onde caiu, de acha de armas em punho, sobre sarracenos e castelhanos que expulsou. Cresceu entre cristãos, judeus, burgueses, plebeus e reis, amadureceu, enobreceu-se, popularizou-se e emancipou-se num rectângulo de terra talhado a fio de espada. Espartilhada numa cota de malha assaz redutora para lhe conter o ímpeto montanhês, arrancou aos pinhais veleiros, com nomes de santos, que armou e lançou ao mar oceano. Neles embarcou, levantou ferro, içou velas com a cruz templária e, de coração nas mãos e rezas nos lábios, fez-se ao largo para enfrentar adamastores que se escondiam nas brumas medonhas do fim do mundo.

O sopro do lariço de Cascais empurrou-a para a linha do horizonte, as nortadas para o sul e, manobrando entre os ventos camacheiros da Madeira e mata-vacas dos Açores, foi-se instalando em ilhas luxuriantes, desertas de pessoas. Lavrando o mar de vaga em vaga, bolinando ou de vento em popa, chegou aos alísios que sopram aguaceiros sobre o Equador, cintura dividindo o mundo em dois hemisférios. Ouçamos o cidadão da língua portuguesa sintetizar esta aventura numa das mais belas quadras da sua Mensagem:

«E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo.» (*)

Nessa orla branca, que foi cartografando, a língua negociou aguadas e géneros frescos, instalou feitorias, misturou-se aos idiomas locais, mestiçou-se e deu à luz línguas francas, sementes de futuros crioulos, deixando alguns padrões na esteira das naus e cruzes por todo o lado. Permutaram-se vocábulos, e se alguns criaram raízes em terra firme, outros embarcaram nos conveses atulhados de cordas e rudes pés descalços. Nas torna-viagens, os marujos portugueses traziam a África nos lábios, não fumavam a pipa ou a pipe como os espanhóis, ingleses ou franceses, era no cachimbo que se viciavam em nicotina, a confusão era um banzé, o charco de água uma cacimba, a soneca um cochilo, as contas eram missangas, o mexerico um zunzum, a desordem uma bagunça, a palhota uma cubata. E sob os gritos de mestres que enviavam nuvens de trinqueiros aos velames, espraiou-se pelo hemisfério sul, onde hoje é a língua mais falada, chegou ao oriente, instalou-se entre indianos, japoneses, malaios, chineses… E inventou a tal palavra que lhe é tão cara: saudade!

Em África e na América do Sul encontrou futuro: a uma arrebatou milhões de escravos vendidos à outra a preço de ouro. Embarcou-os nos fétidos porões dos mesmos navios, com nomes de santos e cruzes templárias, arrancados aos pinhais do reino. Durante séculos, entre as duas margens de dois continentes, ela baptizou, acorrentou, chicoteou, comprou e vendeu milhões de seres humanos, cujos rostos desesperadamente pasmados lhe trouxeram uma palavra mais, a ela já tão rica de adjectivos: banzo! E esses mesmos humanos, banzados, reproduziram-se na terra da sua clausura a quem os mestres chamavam Brasil. Ali, milhares de escravos alforriaram-se eles mesmos, servindo-se da língua do cativeiro para levantarem quilombos de liberdade na República de Palmares. Tinham compreendido uma terrível verdade hoje tão esquecida: a liberdade conquista-se, o rei, o explorador e o governante nunca a oferecem. A língua dividiu-se então em dois campos: o da emancipação, que trazia urros de bravura e futuro; e o da escravidão que, ignorante dos ventos da história e de olhos fitos no lucro imediato, vociferava ódios à liberdade. E quando Zumbi dos Palmares, o imortal, foi decapitado, e sua cabeça salgada e espetada no poste duma praça pública, os executores acreditavam tê-lo silenciado e vencido o mito da sua imortalidade. Contudo, não se decapita uma língua e mesmo se Zumbi não era imortal, ainda não morreu. Há quem hoje se esqueça dessas lições que viajam nas memórias desta língua tão cheia de mundo.

Ela foi testemunha da crueldade de graves autoridades eclesiásticas que, de mitras nas cabeças e rezas em latim nos beiços diabólicos, pegaram fogo a milhares de fogueiras onde ardiam, em vida, archotes humanos, num ritual de purificação bárbaro. Tudo isso em nome duma religião e dum homem que nada daquilo tinham pedido. Porque matar em nome de Deus, como disse o único prémio Nobel de literatura desta língua que mereceu vários: matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino (**).

A língua portuguesa serviu fielmente, durante séculos, um império que se alastrou pelo mundo como uma vaga, construindo fortalezas e abrindo rotas, colonizando, dividindo e unindo. Contribuiu a pavimentar auto-estradas de água por onde circularam as riquezas que os escravos produziam, inspirando outras, semelhantes, invisíveis todavia mais eficazes, electrónicas, na futura época da híper tecnologia. Como todo o império chega ao fim, e quem o contesta se serve da língua que o construiu para o derribar, a língua gritou revoltas, guerrilhas e independências. Quando a vaga, enfim, enrolou bandeiras e recolheu à concha onde nascera, deixara pelo mundo pátrias novas, coloridas de amazônias, gorongozas, namibes, pântanos de mangue, cafezais são-tomenses e ilhas de fogo. E em cada uma das pátrias novas, a língua adaptou-se a climas variados e gentes exóticas: no Brasil conta-se com quantos paus se faz uma canoa; em Moçambique se amanhece a cantar ou chorar; em Angola se consegue ou se desconsegue bué; na Guiné fuma-se uma ordem; em São Tomé tudo vai leve-leve; em Cabo Verde tem morabeza. Nesses novos universos por ela criados, ela canta e dança com harmonias e requebros distintos, desde os fados aos sambas, do kuduro às coladeiras, do gumbe à marrabenta.

Ainda hoje nos perguntamos por que razão a língua portuguesa produz quase todos os sons do mundo. Li num magazine francófono que o ão imita o estoirar das vagas na linha da rebentação, e o chsh,  (ce son chuintant) simula o chiar da espuma espraiando-se areais acima. Sendo assim, quando falamos português é com o mar nos lábios que o fazemos.

A língua portuguesa criou bolsas de emigrantes em vários países do mundo onde luta para se manter viva. E é por isso que a escrevemos aqui, neste país de frios e gelos, nas vésperas deste curto Verão que se anuncia. Porque ela não é uma pátria, como queria o poeta, ela são vastos universos pertencentes a muitas pátrias que partilham um paradoxo difícil de resolver: por que razão uma língua tão antiga, tão espalhada e tão rica, é falada por tanta gente tão pobre?


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(*) PESSOA, Fernando, Mensagem, 1934.
(**) SARAMAGO, José, Outros Cadernos de Saramago, artigo Deus como problema, publicado pela Fundação José Saramago a 16 de Outubro de 2008.
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Thursday, 5 May 2016

Fulano, Sicrano e Beltrano

Onde se fala da diferença entre corruptores, corruptos e corrompidos
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Conheces o site internet Ciberdúvidas da Língua Portuguesa? Fui lá para encontrar resposta a uma questão difícil que me tem atazanado o espírito: aquele indivíduo «está corrompido» ou «está corrupto»? Se bem assimilei a explicação, diz-se que alguém «está corrompido» e que um outro da mesma súcia «é igualmente um corrupto». E como ninguém se corrompe sozinho, deve dizer-se, quando se fala do agente externo que os corrompeu: «Fulano que tinha corrompido Sicrano e Beltrano». O que quer dizer que se emprega corrupto como adjectivo ou substantivo e corrompido como particípio passado. Passado é uma maneira de falar porque, segundo as últimas notícias, os tais substantivos, adjectivos e particípios estão muito presentes e, dizem os pessimistas, com futuro garantido e promissor.

Fulano, Sicrano e Beltrano, citados acima, são variáveis. Variável, em terminologia informática, é um objecto que representa um valor mutante. Exemplo: a variável Fulano contém um certo nome neste preciso instante e um outro no momento seguinte. Quando fazes a pergunta «então quem é o Fulano que agora se corrompeu?», o objecto Fulano possui agora um nome diferente do que continha há um segundo atrás. Felizmente os computadores tratam a informação a uma incrível velocidade senão, com a quantidade de nomes que essas variáveis podem tomar, ainda se encravava. Para simplificar, podemos afirmar, sem receio de nos enganarmos, que Fulano, Beltrano, Sicrano quando possuem os valores corruptorcorrompido e corrupto, são vocábulos associados.

Já agora que falamos em associações, recordei-me dum jogo de adolescência, do tempo em que espinhas e arrogância nos esburacavam o rosto e nos achávamos inteligentíssimos. É assim: pede-se a um amigo para fechar os olhos e esvaziar a mente antes de pronunciarmos uma palavra-estímulo. Em seguida o sujeito da experiência dita os vocábulos que inconscientemente lhe associou. Quando alguém diz, «porco», as palavras que me vêm ao espírito são: chouriço, morcela, linguiça, toucinho, feijoada. Olha outro exemplo que se passou comigo. Fechei os olhos, esvaziei o mental e a palavra-estímulo que recebi foi «político». Espontaneamente saltaram-me aos lábios os seguintes adjectivos: incorruptível, honesto, fiável, responsável, humilde, simples, transparente... No caso de repetires esta brincadeira com alguém e pronunciares a palavra «corrupto», o sujeito da tua experiência pensará provavelmente num compadre velho muito dado ao carrascão, nicotina, marijuana e jogo, e que abandonou este vale de lágrimas na bancarrota, de olhos amarelos, meia dúzia de úlceras e uma cirrose no fígado. Quando eu era menino, era destes infelizes que se dizia: «está todo corrompidinho, coitadinho». Como os tempos mudaram.

Segundo a companheira do meu amigo vitriólico e ateu, o Rebenta Balões, alcoolismo, droga, jogo e ganas de dinheiro é tudo farinha do mesmo saco: do saco das dependências! Por outras palavras: coisas do foro da saúde mental. Esta admirável mulher tem profissão útil: entra na cabeça das vítimas de violências abomináveis, tentando mostrar-lhes como desatar os nós que as sufocam. Foi ela quem me apresentou o triângulo da vitimização que tolhe as pessoas abusadas: o perseguidor (que é o mau); o perseguido (que é ela, a vítima); o salvador (quem a vem socorrer). Libertá-la dessa prisão de três muros, torná-la autónoma, é um dos desafios do terapeuta.

Rebenta Balões, eterno destilador de sarcasmos, aproveitou logo para meter a colher:
– Até há povos que se encontram prisioneiros da mesma situação: cabalas internacionais de perseguidores oprimem as vítimas que esperam pela vinda de quem os há-de resgatar e salvar. E espera aí, não te vás embora, olha outro triângulo muito giro: corruptores, corruptos e paraísos fiscais.
– Não há vítimas nem perseguidores no teu triângulo! - Protestei.
– Mas há um salvador: o paraíso fiscal. - Riu-se, escarninho - Repara que é triângulo positivo, em cada ângulo há um corno de abundância. Era ali que devíamos estar: à sombra dos coqueiros, estendidos nas areias doiradas dum paraíso fiscal, cocktail nas unhas, untadinhos de creme de bronzear... Em vez disso andamos feitos parvos a tiritar de frio neste país de gelos e a trabalhar para pagar impostos, a meio de gente que refila, rezinga e ronca mas que não faz nada, à espera que a Comissão Charbonneau(*) e a UPAC (**) resolvam o assunto.

Calei-me para não lhe espicaçar o mau humor: o animal, quando contrariado, torna-se cáustico como um desentupidor de canalizações. Mas olha que o bicho não deixava de ter uma certa razão. Nos dias seguintes dei comigo a sonhar acordado com praias, palmeiras, cocktails, biquínis sobre corpos bronzeados, creme solar... E com um jacto privado para lá chegar. Imaginei serviçais vestidos de libré, sorrisos e salamaleques, servindo-me um Kobe streap steak de 12 onças frente ao mar oceano, regado com um tinto Barca Velha de 1999, da Casa Ferreirinha, nobre filho das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão... Frutas tropicais...  Sultan's Golden Cake em sobremesa com um Dow's Vintage Porto 2011 para me acariciar as papilas gustativas... Enfim uma bica assanhada, vibrando de cafeína, e um cálice de aguardente velhíssima Dom Teodósio para digerir tudo isto. 

Passou-se então uma coisa curiosa: eu, que estava já de caninos afiados para me lançar ao teclado e atacar o triângulo da corrupção, denunciar injustiças fiscais, acicatar o teu ódio contra políticos venais, fazer pilhérias sarcásticas... Nada! Em vez disso, dei comigo a reconsiderar os meus sentimentos agressivos em relação a quem se deixa corromper. De facto, quem sou eu para os julgar? Bem vistas as coisas somos todos humanos, sujeitos a tentações. Ademais, tu e eu sabemos como são manhosos, e difíceis de perceber, os embustes de Belzebu! Recordei-me também, humildemente, da eterna verdade pontificada por um grande sábio: «Quem nunca pecou que jogue a primeira pedra.»

Confesso-te, e isto fica só entre nós, que a corrupção me tentou. Todavia, e depois de sondar essas águas torvas mas doces, foi com a morte na alma que constatei o total desinteresse dos corruptores e me rendi à triste evidência que não reúno as condições objectivas para os atrair! Não possuo nenhuma influência na atribuição de contractos de construção, na venda de equipamento ao exército, na escolha dum fornecedor farmacêutico... Por outras palavras, não sou corruptível (a não confundir com incorruptível), consequentemente não interesso eventuais corruptores.

Fiquei a matutar no assunto, a considerar o álcool, grande corruptor da humanidade e ao qual devemos tantas mortes e tragédias. Mas que é legal e que contribui chorudamente para os cofres de estado, tal como o tabaco que se vende livremente por todo o mundo, mesmo nas teocracias. Isto, para não falar dos casinos onde se arruínam alegremente tantos viciados e se suicidam alguns. Por associação de ideias, veio-me à cabeça aquele compadre velho todo corrompidinho, coitadinho, a abarrotar de maleitas físicas e mentais causadas por substâncias legais: tabaco, álcool, jogo... Haveria de ficar feliz sabendo que a marijuana vai ser legalizada e que existem salas de injecção assistida de drogas (as piqueries dos francófonos e shooting houses dos anglófonos). E foi ao levantar um cálice de Duas Quintas à sua memória que uma ideia pegou lume ao meu pobre cérebro fatigado, subiu ao céu escuro como um foguete onde explodiu e tudo iluminou num clarão de génio.

Legalize-se a corrupção! 

Excitadíssimo, enchi uma segunda taça de Duas Quintas e compilei as vantagens duma tal legalização.

  • Cobrar-se-iam impostos pesados aos corruptores e corruptos sobre as transacções antiéticas.
  • Diminuir-se-iam as despesas do aparelho do estado destinadas a reprimir a corrupção (polícia, aparelho judicial, comissões Charbonneau (*), UPAC(**), etc.).
  • Nasceriam novos ramos da psicologia aplicada e cursos superiores: As universidades formariam corruptólogos com mestrados e doutoramentos. 
  • Abrir-se-iam clínicas com profissionais especializados em terapias da corrupção. 
  • À semelhança dos Alcoólicos Anónimos e Jogadores Anónimos, dar-se-ia à luz uma nova irmandade: Corruptos Anónimos.
  • Os governos dotar-se-iam de uma nova entidade: A Agência da Corrupção (ou Ministério em países onde o número de transacções imorais o justificasse).

E por que não sonhar com Centros Estatais de Corrupção, onde corruptores devidamente homologados pela Agência (ou Ministério) proporiam pacotes interessantes a eventuais corruptíveis? 

Um mundo novo, prenhe de possibilidades! 

Para finalizar, e aureolar este artigo com um bafo de erudição e sabedoria, transcrevo uma frase de Confúcio: «Os vícios vêm como passageiros, visitam-nos como hóspedes e ficam como amos.» 

E já que assim é, por que não dar foros de cidadania a este amo que entre nós se hospedou? 

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(*) Commission Charbonneau. Comissão presidida pela juíza France Charbonneau, que manteve audiências públicas para examinar a infiltração do crime organizado nas companhias de engenharia civil e eventuais conluios entre tais companhias e membros do governo, partidos políticos no Quebeque, Canada.
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(**) UPAC: Unité permanente anticorruption. Unidade de polícia do Quebeque, Canada, que investiga os conluios entre as empresas, o crime organizado e as instituições públicas, como ministérios e partidos políticos.
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Thursday, 7 April 2016

Recordes Vários

Onde se fala dum nevão, de dívidas, impostos, e se propõe remédio criativo
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Sabes o que é precipitação atmosférica não sabes? Lá no canto tropical onde nasci era em forma de aguaceiros durante a estação das chuvas. Aqui, neste país de neves, é sob todas as formas possíveis. No calor são chuvadas e granizos, no frio é chuva, neve e uma coisa abominável a que os os francófonos chamam verglas, os anglófonos freezing rain e os lusófonos simplesmente chuva congelada. Quanto aos ameríndios não faço ideia, mas sei que as estações deles não coincidem com as que foram impostas pela Europa. Os Atikamekw, por exemplo, tinham seis. O degelo (Sikon) era coisa distinta da Primavera (Miroskamin). E estou de acordo com eles, já cá estavam quando, há mais de doze séculos, os primeiros vikings encalharam um dracar nas praias da Terra Nova.

Mas hoje não é de vikings nem de ameríndios que te falo. Hoje é de recordes...

Acontece que por estas bandas de Otava e Gatineau andamos impantes de orgulho! A 16 de Fevereiro deste Inverno batemos um recorde importante: há mais de cem anos que não caía tanta neve num só dia. Só visto! O nevão foi tamanho que um manda-chuva dos funcionários federais os deixou sair ao meio-dia, não fosse a carga de neve impedi-los de chegar atempadamente a casa. Olha, é bem feito para eles, não viram um tipo esquiar no passeio frente ao Parlamento, nem sequer outro espectáculo inusitado: um jovem (tão atlético e ágil que até me deu raiva) de pé numa prancha de neve a escorregar em plena rua Wellington, rebocado por um cabo preso às traseiras duma camioneta. Atrás dele, de câmara fotográfica em riste, corria uma adolescente bonitinha com os cabelos loiros a transbordarem do gorro de lã grossa. Veio-me logo um reflexo de macho latino e disse cá para os meus botões que o surfista andava ao corrico às garinas. Sabes o que é a pesca ao corrico, não sabes? É com a linha lançada à ré dum barco em andamento onde, à laia de isco, cintila uma amostra brilhante, em forma de peixe. Foi isso que pensei: que o jovem louco andava à pesca às namoradas. E que já fisgara uma!

Havia tanta neve que seria de esperar que os funcionários federais fossem isentos de trabalho no dia seguinte, coisa que, infelizmente para eles, não aconteceu: as auto-estradas e estradas principais estavam limpas e os pneus mordiam o asfalto com segurança. Olha como os humanos são capazes de resolver um problema bicudo quando arregaçam as mangas, enchem as chávenas de café, penduram mapas nas paredes e se põem a fazer brainstorms à volta duma mesa! Até parecia milagre mas não foi. Ao fio dos anos foram concebidos veículos poderosos como tanques de guerra, equipados com lâminas em vez de canhões. E outros que chupam a neve e a atiram para camiões. Aperfeiçoou-se também uma espécie de homens e mulheres que enfrentam ventos polares sem frio nos olhos e que atacam os montes de neve, permitindo aos carros dos cidadãos rolar pelas estradas. Não foi milagre, mas quanto a mim foi um recorde de remoção de neve.

Por falar em recordes... Olha outros já batidos ou previstos, que não têm grande coisa a ver com a neve mas que podem causar calafrios:

  • 1% da população mundial controla metade das riquezas do planeta. A estes, pertence seguramente uma parte dos credores da dívida mundial. 
  • Essa mesma dívida mundial cifrava-se, no momento em que fiz um clique no contador, em $58,405,992,221,634 (se fizeres um clique aqui vais ver que o recorde já foi batido).
  • Nunca os particulares pagaram tantos impostos nem as grandes multinacionais a eles (impostos) tanto fugiram.
  • Nunca os paraísos fiscais foram tão solicitados (as empresas canadianas neles esconderiam uns 200 bilhões de dólares).
  • Nunca se fez tanto dinheiro no mundo. O Brasil, por exemplo, está em boa posição para bater o recorde do maior exportador mundial de alimentos.
  • Nunca se produziu tanto género alimentício e nunca houve mais de 800 milhões de pessoas na pobreza, a passar fome. O Brasil, por exemplo, mesmo se o Lula conseguiu baixar de 82% a fome, ainda tem 7 milhões de pessoas que não comem como deve ser. 

Somos uma espécie que adora recordes, não achas? Temos o desporto na massa do sangue. Mas atenção, não fiques a pensar que o tal 1% de ricos me incomoda, que sou um esquerdista de garras afiadas prontas a cravarem-se no bolso deles. Não senhor! Pelo contrário, até acalento a esperança de fazer parte desse clube restrito... Dessa nata! E não estou sozinho nesta esperança, pois não? Se calhar és como eu, mesmo quando a lei das probabilidades nos diz, como diz a vernácula expressão: tira o cavalinho da chuva! Somos como aquele tipo que saiu de Montreal e foi ao país do Tio Sam comprar o bilhete duma lotaria que oferecia um prémio colossal. Estatisticamente tinha muito mais probabilidades de sofrer dum acidente em caminho que embolsar os milhões, mas foi na mesma. Somos assim, uma espécie rica em esperança.

Foi com esta esperança ilógica de um dia ser bilionário que adormeci naquela noite em que as máquinas atacavam, furiosas, o nevão recorde. Sonhei muito, mas em vez de me ver numa ilha tropical com um veleiro de três mastros a boiar em águas transparentes, frente à minha mansão, e um barco com motor fora de borda para ir ao corrico às garinas, sonhei com dívidas, com juros das dívidas, com impostos e com as fugas a eles... Uma chatice aparentemente, mas olha a surpresa: em vez de madrugar contrariado com os pesadelos, acordei com uma ideia de génio! Logo eu, que sou tão inocente e ignorante que escrevo estas coisas só para que tu me ajudes a compreender este mundo e a estranha humanidade que nele vive. Não sei se alguém já foi atingido pelo rasgo de lucidez que me acordou, mas na dúvida arrisco-me a partilhá-lo contigo.

É assim, olha...

Considerando que 1% cento da humanidade detém a maior parte da dívida mundial e que esse mesmo 1% é quem mais foge aos impostos dos países de quem são credores... A solução é simples: que os países endividados deixem de pagar as dívidas aos credores como maneira de lhes cobrar os impostos que lhes são devidos e aos quais eles (os do 1%) fogem!

Hã?

Como a ideia me surgiu antes da publicação dos dois orçamentos, o provincial do Carlos Leitão (*) e o federal do Bill Morneau (**), achei que, como cidadão responsável, devia comunicar-lhes a minha descoberta. Mas antes decidi testá-la com alguém. Inchado de empáfia, telefonei ao Rebenta Balões, aquele meu amigo ateu e cáustico, corrosivo como o ácido sulfúrico. É muito inteligente, contudo sofre dum irredutível pessimismo e perdeu toda e qualquer esperança na humanidade. De fé nem lhe fales que lhe dá um fanico. Segundo ele o nosso destino como espécie está selado: com tanta asneira acumulada, corremos inexoravelmente para o abismo. Para lhe trazer uma lufada de optimismo, arejar-lhe o bafio dos pensamentos sombrios, decidi pô-lo ao corrente do meu rasgo de génio. Atendeu-me com o mau humor habitual e grunhiu quando lhe disse que era portador duma excelente ideia. Deixou-me expor o meu achado genial até ao fim, sem entrepausas, coisa rara nele, de hábito interrompe-me, chama-me de parvo, de inocente, eu desligo e amuo durante algumas semanas. Quando, animado com aquele silêncio inabitual, cheguei ao fim da minha exposição, calei-me, retendo o fôlego, esperando pelo julgamento. E sabes qual foi o comentário do energúmeno?

Desatou a rir a bandeiras despregadas!

Riu-se tanto que até se engasgou. Um riso insano, desmedido, com tosses, silvos e roncos. De vez em quando parava, recobrava o fôlego, exalava um sofrido «é boa» e retomava o acesso descontrolado das gargalhadas. Os risos transformaram-se, viraram guinchos misturados com uma espécie de grunhidos de suíno. Tinha certamente pousado o telefone sobre a mesa porque ouvi o estalar de palmadas sobre o tampo, mania dele quando ri descontroladamente. O que é raríssimo, claro.

Ao ouvi-lo prestes a sufocar entrei em pânico, desliguei e compus o número do telemóvel da mulher, porque o bicho tem duas pontes aorto-coronárias (pretende que uma lhe vem da esquerda e a outra da direita): quando exposto a uma grande excitação corre perigo de acidente cardiovascular. A esposa acorreu, inquieta, forçou-lhe uma pílula debaixo da língua e voltou ao aparelho quando o sentiu estabilizado: 
– Encontrei-o lavado em lágrimas à beira do chilique. Não sei que raio de história cómica lhe contaste mas ias-me matando o homem - disse-me  num tom acusador - E não desligues... Está a fazer sinal que quer falar contigo.
Impedido de desligar por causa dum complexo de culpa mal vindo, lá colei o ouvido ao telemóvel, sabendo de antemão que me iria arrepender. Meu dito, meu feito! O tratante, mau grado a voz fraca de convalescente, não perdeu a ocasião para me humilhar:
– Olha meu... Acabámos de bater dois recordes. Eu bati um recorde de riso e tu bateste um recorde de inocência.

Desliguei, atirei o telefone para o sofá e amuei durante um mês. E até me esqueci de enviar o meu rasgo de génio ao Leitão e ao Morneau que, como certamente notaste, apresentaram orçamentos incapazes de pagar essa dívida que nos sufoca.

Espero que alguém lhes faça chegar este artigo,  nunca se sabe...


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_(ツ)_  Artigo publicado simultaneamente na LusoPresse 
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(*) Carlos Leitão: ministro das finanças do Quebeque. De Peniche, Portugal.
(**) Bill Morneau: ministro das finanças do Canadá. De Toronto, Canadá.
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© Carlos Taveira


LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE


Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Tuesday, 1 March 2016

Deixem as cigarras cantar

Onde se fala duma cidadezinha e do canto das cigarras.
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Num dia que já lá vai, hoje coberto pelas areias dos decénios, um carril de caminho-de-ferro fecundou uma pedra de porto de mar... E assim foi gerada a cidadezinha bonitinha onde muitos de nós nasceu e, ou, cresceu!

Há a orla duma praia sem turistas que invariavelmente começa aos nossos pés, se vai desdobrando rentinha às ondas durante quilómetros e morre na foz dum rio onde flutuam olhinhos de crocodilos medonhos. Há uma baía muito funda, muito meiga, muito azul, sobre ela deslizam nadadores, velas, remos e os cascos de ferro de transatlânticos vindos de outros mundos. Há um oceano que se chama Atlântico Sul, sobre o qual pescadores atiram redes que arrastam depois para terra, carregadinhas de peixes ou desilusões. Há uma longa restinga por onde se espreguiçam esporões pedregosos que nascem das cazuarinas e adormecem apontando para um sol poente, que irradia cores berrantes pelos azuis dos céus. E há coisas pouco frequentes, como aquele nevoeiro cerrado, ocultando as águas para lá da rebentação, que engoliu um avião com dois motores a hélice, matando quase todos os passageiros que nele viajavam. 

Esses infelizes afogaram-se nesse mesmo mar que me deixou a mais antiga das minhas recordações, tinha eu quatro ou cinco anos. É um fenómeno a que os sábios deram nomes de poesia: ardentia ou mar de ardora. Em adulto, durante as deambulações nocturnas com amigos, tivemos a sorte de voltar a encontrá-lo. Maravilhávamo-nos então com a espuma das vagas ardendo numa fluorescência que rolava contígua à costa, como se um imenso feiticeiro tivesse pegado fogo às águas. Mergulhávamos nelas! Os nossos corpos, e os peixes que espantávamos, refulgiam, das areias surdiam fagulhas sob os passos e carícias dos dedos. 

Quando o céu se enfurecia, estrondeavam trovões aterradores e relâmpagos como flashes astronómicos; quando o oceano tempestuava, eram calemas furiosas causando estragos, escalando as praias, cobrindo de areia os asfaltos. Havia cacimbos silenciosos e estrépidos de aguaceiros; latir da cãzoada e guinchos dementes da gatarrada em cio; salinas como espelhos aos quadradinhos e uivos de locomotivas fendendo a noite; vozes graves, pausadas, profundas, das chaminés dos navios e o silvo agudo, irritante, da sirene do porto; um carnaval com corso, batuque, ritmos brasileiros e a luz dum farol a varrer a noite sobre as nossas cabeças... E havia os gritos feios das gaivotas! 

O asfalto amolecia-se sob uma soalheira que também escaldava os areais. Neles grelhei as plantas dos pés quando acompanhei uma garota que me tirava o sono, da paragem do autocarro até às cazuarinas. Ia descalço para que ela pasmasse diante daquele meu desprezo pelo sofrimento físico. Já agora aproveito para te dar um conselho: nunca faças tamanha besteira. Arrepender-te-ás amargamente a cada passo vencido. Sobretudo porque foi tortura inglória, ela deu-me com os pés, como, aliás, já tinham feito algumas, gesto repetido por muitas outras durante uma longa carreira de Casanova fracassado.

E os mangais… Lembras-te deles? Disfarçavam o pivete dos dias cáusticos embelezando-se com o tapete rosado dos flamingos. Um dia empunhei binóculos, fui contá-los, desisti quando cheguei aos dois mil. Desses mesmos mangais levantavam-se bandos de pernaltas, é verdade, mas também nuvens de mosquitos tinhosos de nome paradoxalmente bonito, anofeles, que nos picavam e nos traziam febres palúdicas e sezões de frio em plena canícula da estação das chuvas.

Não havia muita gente dentro da cidadezinha – uns oitenta mil? –, hoje, porém, há muito mais. Naqueles tempos, como agora, as gentes da cidadezinha bonita onde nasci estratificavam-se em várias camadas, a partir do sítio onde as cubatas começavam até à praia onde as casas acabavam. Gente de todas as bolsas, outrora com tendência a escurecerem-se e empobrecerem-se à medida que o asfalto se transformava em terra batida. E havia aquela frase junto à porta do elevador dum grande prédio: «proibida a entrada a africanos». E havia prisões e violências, como em todas as cidades, bonitas ou feias, deste mundo. Era assim, lembras-te? Pequena, sim, mas com tanta coisa linda e feia, e com tanto contraste lá dentro! 

E sabes o que me ficou daquilo tudo? 

O canto das cigarras... 

Aconteceu há muitos anos atrás  tantos que tenho medo de os contar para não me sentir velho  uma coisa absolutamente normal: a manivela da História pôs-se a rodar. E ao rodar provocou espantos, terrores, movimentos de massas e explosões. Ainda me lembro da primeira guirlanda de tiros mas não das detonações, na memória ficou-me apenas a revoada de flamingos espavoridos que tomaram o céu de assalto. Não sei quantos eram, mas sei que eram mais de dois mil. E nesse mesmo momento tive a impressão que as cigarras tinham emudecido, que se recusavam a cantar. Como se os disparos lhes tivessem atingido o canto e quebrado uma das tramas sonoras da cidadezinha.

A História, teimosa, surda, continuou a rodar implacavelmente, trouxe conflitos, dividiu os cidadãos e enviou homens em fúria, com armas e camuflados, que cercaram a cidadezinha aplicando-se a sufocá-la com garras de aço e ódio. Para deles fugir, deixei a cidade como fizeram os flamingos, pelos céus, sobrevoando um tapete verde de cana-de-açúcar que a guerra consumiu. 

E apesar de tanta beleza e tropicalidade vou-te confessar uma coisa – a propósito da cidadezinha  consciente que corro o risco de te desiludir: até hoje nunca dela senti saudades. Durante muitos anos não compreendi porque diabos as saudades não me atezanavam e quase sofri com isso. Um dia, uma colega canadiana à porta do trabalho, ao ver-me chegar, teve o seguinte comentário: «Tu marches comme un Noir». Eu não sabia o que era andar como um negro, mas a coisa ficou-me a rodar na cabeça até um dia de Verão como lá na banda: fazia um calor tórrido e o céu ameaçava abrir as comportas. Compreendi então. É que me desloco com o passo do tropical que se move lentamente porque o sol dardeja e a velocidade faz suar. Como na cidadezinha onde nasci. Dela tanto me impregnei que ando como se lá andasse, como se nunca a tivesse deixado, como se ainda me escorresse água salgada do nariz e como se, quando remo no ginásio, fosse sobre a baía funda que o fizesse. 

Os anos continuaram a rodar, sem saudades, a manivela da História também. Num dia frio dum Inverno deste país de gelos, recebi uma oferta rara, embrulhada em papel de jornal: uma boa notícia. A guerra lá da banda tinha acabado! E daquela cidadezinha, de tão longe que custa a crer, chegou-me um som antigo que se tinha calado no meu espírito.

O canto das cigarras!

É imaginação tua, dirás, e provavelmente tens razão. É para escreveres frases de blogue, rirás, e se calhar é verdade. É para te armares em forte com essas tuas faltas de saudades, resmungarás, e às tantas é isso mesmo...  Mas aquela cidadezinha bonitinha com gatos em cio, cães vadios, poentes marinhos, gaivotas, flamingos, mangais, salinas, calemas, trovoadas, ardentias, areias, cazuarinas, esporões, baía, carnaval, batuque... E com gente aos estratos lá dentro... Aquela cidadezinha, que nasceu da paixão entre um carril e uma pedra, é mágica e só sobrevive enquanto as cigarras cantam...

Que nunca mais se calem!


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© Carlos Taveira



LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE



Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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