Friday, 1 January 2016

Bom ano novo

Onde vos apresento os meus votos e partilho uma ideia de negócios.
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Não me lembro quando pela primeira vez me disseram: Bom Ano Novo! Devia ser bebé e com certeza foi aos meus pais que o desejaram, algures na cidadezinha tropical, bonitinha, costeira, onde vim ao mundo. No tal Ano Novo tinha pouco mais de um mês porque nasci, tal como a ministra da justiça do governo Costa, Art Garfunkel, Frei Damião, Roy Rogers, Ibrahim I, Bernard-Henri Lévy, Art Tatum, Abédi Pelé, Ike Turner, Benjamin F. Butler e Ana Bacalhau, no dia 5 de Novembro. E, facto notável, foi no dia seguinte que Pio XII fez o seu Discurso aos juristas católicos italianos do qual, mesmo se és membro da Igreja Católica Apostólica Romana, aposto que nunca ouviste falar. Sou, portanto, tal como o país onde nasci, Escorpião na astrologia cá da banda, Serpente na dos chineses e, com tanto veneno no corpo, se calhar Tarântula noutro sistema astrológico que desconheço. Só num dia tão peçonhento poderia ter sido eleito Richard Nixon en 1968.  

Não me lembro quem me desejou Bom Ano Novo pela primeira vez, mas lembro-me de quem o fez pela última. Foi há uma hora atrás, uma das meninas dum café onde às vezes vou beber um double expresso allongé, que é uma possante bomba de cafeína que tira o sono mesmo a tipos estruturalmente preguiçosos como eu. Tomo-o sem açúcar para não engordar demasiado e, para recompensar o esforço, ofereço-me um muffin que é uma espécie de queque. Tenho o cuidado de encomendar um muffin de cenoura porque os legumes fazem bem à saúde. É o que hoje te venho desejar. Não o muffin de cenoura com café, mas o Bom Ano Novo cheio de boas resoluções. 

Boas resoluções... Enfim! Bom... Já que falamos disso aproveito para esvaziar o saco!

Há coisas nessas resoluções que me chateiam supinamente por causa do aproveitamento comercial que delas se faz como... Digamos... Um exemplo ao acaso: os ginásios! Oferecem-te pacotes interessantes valendo-se das tais «resoluções do ano novo» e da tua vontade de perderes peso e (ou) melhorares a forma física. Atenção... Não caias nessa! Simplesmente porque não vais conseguir manter o objectivo. As estatísticas aí estão para nos demonstrar que são decisões de pouca dura. Inscreves-te, arrastas-te entre dois aparelhos de musculação, ficas sentado naqueles que têm um banquinho, com ar desconsolado, fazes um penoso sacrifício durante um mês, no máximo três. Se atingires os quatro consideras-te um herói. Bebes cafés amargos, cenouras sem açúcar... Até que um dia encontras desculpa válida para ficares refastelado em fente à televisão, assumindo uma terrível verdade: odeias o exercício com todas as fibras dos teus músculos doloridos. Consequência infalível: desistes! O objectivo dos ginásios é meterem-te a mão no bolso, enquanto dura o teu entusiasmo. E eu, que voltei a renovar a minha inscrição (para abater esta ominosa, perversa, encarniçada barriguinha que mesmo a cenoura do muffin não consegue vencer) lá fico raivosamente a bater o pé, esperando que neófitos bem-intencionados, luzindo no equipamento de treino e sapatilhas de marca oferecidas no Natal, tentam descobrir como lhes regular a tensão.

Todavia, e ilustrando a sapiência dum filósofo anónimo, «o ódio gera o capital», foi numa dessas filas de espera que uma ideia me iluminou as meninges! Revelação que partilho contigo: abrir um local que funcione como ginásio de Janeiro a Abril enquanto duram as resoluções do ano novo (estação do músculo); e de Abril a Dezembro como cervejaria (estação do defeso). Durante a quadra natalícia, aquando da ponta final do mau colesterol e da cerveja, far-se-á promoção dos pacotes para a estação do músculo.

Que dizes, hã? E há quem diga que não tenho costela de empresário.

Quanto aos outros desejos da praxe, «saúde, dinheiro e amor», mudo-lhes a ordem, primeiro o kumbu (*) que te permite encontrar amor e comprar saúde. Aliás, um estudo confirma que os ricos saem da cama mais satisfeitos. Também caí nessa esparrela do amor e uma cabana, mas como não tinha kumbu as namoradas deram-me todas com os pés, excepto a última que deve andar distraída.

Como sou generoso, também te desejo outras coisas. Se fores mulher e precisares de beleza, mira-te no espelho; se és heterosexual e estás fartinha do teu macho, que é ciumento e preguiçoso, rifa-o; se és lésbica não mudes de orientação porque não há melhor coisa neste mundo que a mulher, nós, homens, somos muito feios, complicados, frágeis emocionalmente e difíceis de aturar. Para todos vocês, homens e mulheres, independentemente do vosso sexo, religião, raça, opinião política (desde que não votem no cowboy), nacionalidade, estado civil, recursos financeiros, posição social... Em suma, desde que sejam mais ou menos boas pessoas: se ficares doente, luta; se ficares só, lê; se memórias te afligem, escreve; se algo te deprime, canta; se um amigo(a) te abandonou, vira-lhe as costas; se caíres, levanta-te; se a depressão te afoga, aprende a nadar;  se tens fome, revolta-te! E se te caluniarem, lembra-te da máxima: «não se atiram pedras a árvores que não dão frutos»... Mesmo quando te queixares: «Porra, que algumas deixam mossa!»

OK... OK... Deves estar para aí a dizer: «É mais fácil dizê-lo que fazê-lo». E tens razão! Contudo, aqui vai conselho para os dias sombrios, resultante duma longa experiência pessoal: uma cerveja bem fresca não cura, mas ajuda! Vale também um uísque velho on the rocks, um dry-martini com três azeitonas (conservadas, tal como a garrafa de vodka, no congelador), um gin tónico (nos trópicos), e outros cocktails como caipirinha e pisco-sour, desde que o vidro que os contém venha a escorrer de água condensada (é esse o truque: água por fora, álcool por dentro). E se tiveres de fazer uma cura de águas, proponho-te a velha receita, sempre actual: de manhã, água das pedras; à tarde, água pé; à noite, aguardente, 

Bom Ano Novo...

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(*) Dinheiro em angolês
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© Carlos Taveira



LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE



Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Tuesday, 1 December 2015

Ministra da justiça

Onde me zango por causa de tanto chinfrim à volta duma ministra da justiça
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Olha, zanguei-me! Todos nós nos zangamos, não é? Por razões diferentes, é verdade. É que por estes dias tem sido muito comentada, por tudo quanto é Facebook e afins, uma notícia anódina: os tugas nomearam uma mulher para a função de ministra da justiça. E depois? Como os outros, parece ser pessoa capacitada devido à sólida carreira, bagagem académica consistente e meritórias realizações profissionais. Diga-se que a vida nem sempre lhe sorriu. Há muitos anos, no país tropical onde nasceu, executaram-lhe irmão e cunhada. De abuso, acredita, nem sequer se deram ao trabalho de inventarem um julgamento. Como este dos 15+2 revus, que há quem diga que é de pimpa, mas pronto, salvaguardam-se as aparências. O tal casal fuzilado deixou filho órfão que a nova ministra educou e, perfecionista como parece ser, seguramente com esmero. Casou com um tuga jurista e lá em casa é fácil imaginar: trata-se por tu o código penal e o civil, decretos-leis, portarias, constituição... Enfim, tudo quanto é lei e (ou) o espírito dela. Ah! Dizem as más-línguas que é muito senhora do seu nariz e que não dá confiança aos subordinados. Será porque é mulher e, sendo-o, assenta autoridade com atitude autoritária a meio dum governo de machos?  

Porque concordas comigo, não é: os tugas fazem fraca figura no que diz respeito à representação feminina no governo. Segundo um artigo do Expresso, em quarenta anos de democracia os machos apoderaram-se de 94% dos ministérios. Tsk, tsk, tsk... E as coisas não melhoraram muito com o último: só há quatro! Por aqui, em terras dos canucks é fifty-fifty. Já agora que falamos nisso... Perguntinha para ti: Qual é o país que tem mais ministras que ministros, hã? Qual é? Não sabes? É Cabo-Verde! Empata com a França. O que não é de admirar: francesas e caboverdianas são mulheres que não se deixam espezinhar sem reagir. Até havia uma que cantava descalça e ninguém lhe pisava o dedo grande do pé. Voilà... Estou a desviar-me do assunto, voltemos à minha zanga e às redes sociais.

Ao princípio não percebi muito bem a excitação que tal nomeação causava. Passava pelas fotografias da nova ministra, via-lhe cara, nome e cargo, e dizia cá para mim, «com esse currículo, é capaz de dar uma boa ministra da justiça, de acordo, mas porquê tanto chinfrim?» Até que comecei a ler comentários, respostas aos comentários, as infalíveis injúrias entre os comentadores...

Chateei-me!

Como dizia, não vi motivo para tanta confusão e, para desabafar, telefonei àquele meu amigo cáustico que se auto-intitula Rebenta-Balões porque é ateu, não acredita na humanidade e se aplica com esmero a destruir símbolos e heróis. Sei que é um erro telefonar-lhe, ele não fortalece a minha auto-estima mas enfim, é um vício falar com ele quando tenho dúvidas e estou deprimido ou zangado. Quando atendeu, insurgi-me logo com a euforia à solta, esse descomedimento de regozijo à volta da nomeação duma mulher ministra. Perguntei-lhe porquê. O safardana riu-se, babado de gozo:
– Eh, pá... Atão não se vê logo? Tá na cara, meu. É exactamente pela mesma razão que te levou a colocar na tua página facebook, em grandes parangonas, a fotografia da ministra da justiça do último governo canadiano. Estavas excitadinho como um deputado a quem aumentaram o ordenado só porque pela primeira vez uma ameríndia ocupava tal cargo! Vem tudo da tua overdose de  politicamente correcto que...
– Bardamerda! - E desliguei-lhe na cara! 

Mais chateado que nunca, voltei às fotos da ministra e outros ministros, observei-as atentamente, escrutinei-as à lupa, e confesso-te que havia algo de especial, de único, nesta ministra da justiça, qualquer coisa de inexplicável que me passava despercebida e que fazia dela um ser aparte. Enfim, ao ler as primeiras linhas dum resumo biográfico... Aleluia! Fez-se luz no meu espírito: Ela e eu festejamos os nossos aniversários no mesmo dia! Escorpião mulher do 5 de Novembro é um ser aparte! Só pode...

Aaaaah! Corruptos, ladrões de colarinho branco, assassinos, calhordas, ladrões de submarinos, biltres, cafajestes, banqueiros venais, arrombas, facínoras, proxenetas, díscolos de todos os azimutes... Aterrorizem-se! O impiedoso porrinho da lei vai abater-se sobre as vossas cabeças depravadas!

Dura lex sed lex.


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© Carlos Taveira



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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Tuesday, 27 October 2015

Eleições entre índios e cowboys

Onde se fala de cowboys e da vingança do chinês dos índios
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Que alívio... Acabaram-se as eleições dos dois lados do Atlântico! Posso ler descansado sem aquela cacofonia de fundo. Não é que lhes preste atenção, mas é impossível ignorá-los durante a corrida ao poleiro. Estão em todo o lado. Deixam-me brochuras na caixa do correio, mensagens no respondedor automático, batem às portas, enviam mails, aparecem em tudo quanto é rádio, televisão, Facebook, Twitter e afins. Fiquei paranoico! Antes de me deitar espreitava para baixo da cama, não fosse um voluntário zeloso ter lá acampado com um saco de sorrisos. No fim da campanha devem ter cãibras nas bochechas de tanto arrepanharem os músculos faciais. Mas com o tempo aprendi e agora tenho resposta pronta. Como quando me fizeram uma pega de caras. Bateram-me à porta, pensei que era a entrega de cerveja fresquinha, hélas, dou de caras com duas fileiras de dentes brilhantes. Eram eles, credo! Retribuí sorrisos e apertos de mão e meti-os em KO técnico com a seguinte réplica:
–  Eu cá sou casmurro e voto sempre no mesmo. Se for em si, já levou o meu voto, se for num outro, olhe, infelizmente não me consegue converter. 
Como eram do partido western baixei a voz em tom de confidência, e disse-lhes que a vizinha andava indecisa. Para me vingar! Ela tinha telefonado cá para casa, autoritária («baixem a música»), quando eu me deliciava com a Ionisation de Edgar Varèse, que só faz sentido se degustada com muitos decibéis. E eles lá foram, atrás dos sorrisos, bater-lhe à porta. Ainda por cima, a dita vizinha detesta que lhe batam à porta e odeia o partido western. Bem feita!

Os candidatos não me dizem nada, nem os conhecia se não espetassem cartazes por esses relvados fora com a chipala cheia de dentes montados em cremalheira. Aqui, neste país de gelos e degelos, acho-os giros quando fazem campanha no Inverno. É raro mas acontece. É divertido ver os voluntários e os candidatos tiritando de frio, amortalhados em casacos, gorros, luvas, botas enterradas na neve alta, golfadas de vapor de água como fumos pela boca fora. E nós ali no quentinho, a abrir-lhes a porta com preguiça, chávena de café fumegante nas unhas, sem os convidar a entrar («mas que frio, não acham?») É então altura de demorá-los, de bombardeá-los com perguntas. Esta técnica é especialmente interessante contra os candidatos do partido dos cowboys. Como quem não tem cão, caça com pulhice, foi a única maneira que encontrei para lhes fazer sentir um pouco do frio que se preparavam para distribuir aos pobres. Praga que existe mesmo neste país rico, vá lá saber-se porquê. O outro prazer que me dão as eleições de Inverno é quando os cartazes dão as fuças a um nevão que lhes cobre sorrisos e logos partidários. Adios poluição visual.

Vem tudo isto para te contar o meu encontro com um candidato que me fez uma pega de caras. Era Verão, estava eu sentado num banco da rua tomando coragem para ir trabalhar, quando um homem se materializou diante de mim na companhia duma jovem loira muito bem-feita, espigada, airosa, ar inteligente. Como eram dois, bem vestidos e com brochuras na mão, disse para comigo, «Mas que coisa, Testemunhas de Jeová à Quarta-feira... Mudaram de tática! » 

Enganava-me redondamente! 

O homem, africano da África, alto, tipo nilota ou sudanês, apertou-me a mão e sorriu-me como se tivesse encontrado a sua estrela de cinema preferida. Aproveitava para me oferecer uma das brochuras que, como era gratuita, aceitei. Damn! Era um panfleto eleitoral com o seu próprio retrato (sorridente) encimado pelo logo do partido dos cowboys. Aquele que é chefiado pelo penteadinho que destruiu a reputação internacional deste Canadá, outrora tão bem visto. Entre outras façanhas, o dito cujo rasgou o acordo de Quioto, reduziu o orçamento do meio-ambiente, opôs-se ao reconhecimento internacional dos índios (que o odeiam com um ódio antigo, de estimação) como nações, cortou na ajuda ao terceiro mundo, acabou com o controle das armas de fogo...

Se aquele tipo que me encurralou no banco fosse loiro, olhos azuis, stetson na mona, pescoço vermelhusco, colts à cintura, cavalo pela arreata, até o ignorava. Mas, que diabos, era um africano de África! Estava francamente no partido errado segundo a minha modesta opinião. Seria mais  natural que fosse do partido por quem voto. Porque o cowboy penteadinho é tão bera, tão impopular por esse mundo fora, que os africanos votaram contra a presença do Canadá no conselho de segurança da ONU. Lembram-se? Foi Portugal quem ganhou! Coisa nunca dantes vista: esse charmoso, mas pouco influente, país à beira mar plantado eliminou este imenso Canadá que vai dum oceano ao outro.

Olhei para o candidato, indignado, e nem sequer o pus em KO técnico com aquela réplica demolidora. Devolvi-lhe a folha de couve que tinha na mão, pegando-lhe com as pontas dos dedos, informando-o com educação que não votava em cowboys que odeiam índios. Foi muito polido, disse OK e afastou-se com a voluntária na esteira. Que era jovenzinha, loirita, bem-feitinha e espigadota, sim senhor, mas que de inteligente só tinha o ar, porque se o fosse trabalhava para o partido que leva o meu voto.

Desabafei com aquele meu amigo corrosivo, de quem às vezes aqui falo, mas o estupor aproveitou para mangar comigo, como de hábito:
–  Eh pá, viraste racista? Atão um africano da África não tem direito de desprezar índios? É por isso que se combate o racismo. Não é só para acabar com a discriminação, é também para ser possível detestar os idiotas de todas as raças sem que nos chamem racistas. Mas estou a ver que continuas ingénuo e idealista... Olha, por falar de pureza... Sabes a merda que descobri  a propósito desse tipo que achas muito íntegro, o...
Cortei-lhe logo o pio, com ele uma conversa que começa mal não acaba bem. Mas olha que não deixava de ter razão. Afinal temos todos o direito democrático de votarmos uns contra os outros independentemente da raça, religião ou sexo de cada um.

E já que falei em índios...

Eles, que votam muito pouco ou quase nada, desiludidos como estão com os governos sucessivos que não lhes resolvem os problemas, e sobretudo com o governo do penteadinho lá do faroeste profundo... Votaram! Não em massa, claro, mas apresentaram-se às urnas em número nunca visto. Houve circunscrições em que se esgotaram os boletins dado que o voto indígena teve um aumento de 270%.  O que não os desmobilizou, sentaram-se e esperaram pacificamente que os aprovisionassem com outros cunhetes de munições. Neste caso a palavra urna é apropriada: eles traziam uma vontade exprimida de enterrar os candidatos western, contra quem mantêm aceso um ódio de estimação.

E sabes por quem eles votaram?

Por ninguém!

Votaram contra! Como consequência colateral, ajudaram a entronizar um candidato que não os chateia tanto! Votaram contra o penteadinho porque entre eles o ódio é recíproco, histórico e de estimação. Deves estar lembrado daqueles livros aos quadradinhos quando cowboys bonitos, bem feitos, cavaleiros exímios, leais, hábeis no gatilho e no loyal punch, depois de formarem um círculo com os carros de bois a abarrotar de colonos, liquidavam bandos de índios emplumados, pintados como demónios, uivando como lobos, horripilantes e cruéis, que assustavam frágeis donzelas loiritas, bem-feitinhas, espigadotas e criancinhas tão fofinhas. Desta vez foi diferente: os índios ganharam e os cowboys perderam.

Bem feito Stephen!

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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

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Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
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De la racine des orages, Poésie, Français.
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Thursday, 1 October 2015

Sê forte, bravo, humilde... e apavora-te!

Onde se fala duma preparação mental para bem votar nas próximas eleições
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Olha, meu, por causa da campanha eleitoral passei muitas horas a escrutinar o Facebook em busca de inspiração. Fiquei boquiaberto! Afinal soluções para os males pessoais ou globais não faltam, denúncias também não. Converter uma pança num ventre chato? Eliminar colesterol e maus pensamentos? Ser positivo e feliz mesmo sendo pobre e asmático? Comunicar com Deus? Vencer o estado islâmico? Construir casas com garrafas vazias? Fazer arroz com água da chuva? Descascar um quivi com uma colher?

Está lá tudo...

E encontrei opiniões extremas! Por exemplo, alguém (sportinguista?) sugeria a decapitação do cretino que matou um leão velho. Estou para aqui a dar palpites, mas confesso que meti a minha colherada, lembro-me de ter postado a imagem dum índio sereno, emplumado, montado a cavalo, com os seguintes conselhos: «Sê forte na fraqueza; Sê bravo no medo; Sê humilde na vitória». Se ficaste com a ilusão que sou tudo aquilo, esquece, é mentira. Quando estou fraco não sou forte; quando vitorioso mostro uma evidente falsa modéstia; quando me amedronto não sou bravo.

Mas estava a falar de eleições que se desenrolam neste momento nos dois lados do Atlântico: no país que habito e no que deu à luz esta língua em que te escrevo. Num e noutro as facas voam rasteiras, há pontapés abaixo da cintura, e os candidatos injectam no eleitor alguns pavores, sendo o mais comum o Armagedão económico que os partidos adversos se preparam para desencadear. E eu fico com medo, por causa dos terrores judaico-islamo-cristãos que me foram inculcados quando era menino. O Armagedão apavora-me! Bombas atómicas cruzando os ares, cogumelos de fogo jorrando do chão, radiações letais varrendo o planeta, a agonia dos últimos humanos... Ainda por cima gosto deste planeta, sobretudo desde que descobri o sorvete de Coaticook, que me lembra os da Veneza. Se não conheces a Veneza é porque não és lobitanga. Nesse caso perdeste muitas coisas boas, como os pregos no pão do Espírito Santo e as ostras arrancadas às rochas do mar.

Voltemos à vaca fria: por quem votar? A primeira vez que tal coisa me aconteceu foi aqui, nesta terra de gelos e degelos. Nasci e vivi, até aos 32 anos, num país lindíssimo que tinha coqueiros mas não tinha eleições. Votei depois dos 35 anos pela primeira vez, quando obtive a cidadania aqui nos gelos. Por isso teimo em votar! Mas por quem? A política é coisa inexacta, há quem diga que é Arte, há quem diga que é Vigarice. E para me confundir ainda mais, há um curso universitário intitulado Ciências Políticas. A ciência deveria ser exacta, rigorosa: todos os cientistas estão de acordo que a fórmula do ácido sulfúrico é SO4H2 (sei porque é a fórmula dos cábulas). Consequentemente, fiquei francamente desiludido ao constatar que, ao abordarem crises económicas, as conclusões dos cientistas variam. Pior: dependem da posição política de cada um deles. Para complicar, documentam teorias partidárias antagónicas com exemplos, cálculos, gráficos e previsões. Quem tem razão?  Como sou de cérebro simples, peço aos políticos coisas simples. Não cortem nas pensões dos idosos, porque para lá vou. Mantenham os programas de saúde, para sermos saudáveis. Invistam no ensino, para que o povo seja instruído. Não  esfaqueiem a cultura, porque quero abichar uma subvenção para escrever um livro. Aquele meu amigo azedo, sarcástico, que por vezes aparece por aqui (com quem amuei depois da última discussão), aconselhou-me a calar o bico: «Viraste bloco de esquerda ou quê?» 

Na minha imaginação deficiente, os cientistas são batas brancas, óculos, mãos enluvadas a meio duma floresta de pipetas, retortas e frascos com líquidos coloridos a ferver, buscando fórmulas exactas. Por exemplo, a Islândia constituiria um banco de ensaio onde cientistas de lógica  fria analisariam um fenómeno  esotérico: como diabos fizeram eles para sair da entaladela económica? É  verdade que a Islândia é pequena, tem pouca gente, uma só estrada nacional que dá a volta a uma ilha populada por vikings que, sob um sol que pouco se põe, fazem sexo a torto e a direito. Estes exageros, porém, não deveriam desviar os pesquisadores da sua postura científica. Esperava-se deles a análise rigorosa dum prodígio único: a cobaia encontrou a saída do labirinto! Nada. Provam por A+B que atirar com políticos e banqueiros para os calabouços não resolve crises económicas. E como não falam dela, acabei por me esquecer da Islândia e ainda bem, é uma terra de anticristos a abarrotar de mulheres desavergonhadas que se calhar até me davam com os pés, como fizeram todas as outras.

Debrucemo-nos sobre o rato grego! Gandulos, hã? A viverem à grande e à francesa com o kumbu alemão, a beberem vinho, comerem oktapodi krasato, tocar rebetiko, dançar zeibekiko e a engatar turistas... E que é que lhes aconteceu, hã? Deitaram o χρήματα(*) pelas janelas fora, endividaram-se, arruinaram-se... E elegeram radicais de esquerda de dentuças afiadas, prontos para meterem as mãos nos bolsos do contribuinte alemão que, coitado, foi obrigado a fazer uma coisa contrária aos seus genes: uma vigarice na Volkswagen para enganar os ecologistas (verdes por fora, vermelhos por dentro, é sabido) e economizar na produção. A meu ver, que aprendi muito no Facebook, é tudo culpa dos helenos. Debrucemo-nos sobre a Grécia, meu, que aquilo dá-me terrores e pele de galinha, sentimentos mais produtivos que aquelas parvoíces de ser forte na fraqueza, bravo no medo e humilde na vitória.

Na sequência deste exercício de pesquisa, aperfeiçoei uma técnica para bem votar que partilho contigo. Sento-me na posição de lótus, fecho os olhos, esvazio o pensamento (oooommm), penso nos gregos e nos candidatos... E apavoro-me! Depois é simples: alimento a urna eleitoral com o corpo do candidato que mais me aterrorizou.

Apavoremo-nos para melhor votar!

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(*) Kumbu.
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© Carlos Taveira


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De la racine des orages, Poésie, Français.
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Friday, 18 September 2015

Busca, confusão e Rebenta Balões

Onde se transcreve um diálogo de surdos com um amigo de palavras ácidas
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Há dias em que me encontro perdido com tanta má notícia! Refugiados. Guerras. Tremores de terra. Ditadores. Crianças soldados. Enfim... Sabes bem disso, não é? Tu recebes as mesmas notícias que eu, seja qual for o posto de rádio que sintonizas, o canal de televisão que vês, o país em que moras ou a língua que falas. Às vezes acontece que as notícias desencadeiam movimentos internacionais de solidariedade. Um menino morto em frente às ondas do mar levantou uma vaga de compaixão de milhões de bons samaritanos e políticos subitamente indignados. É claro que há os outros milhares que vão morrendo e que a compaixão e a indignação ignoram. Olha um exemplo ao acaso: África! Longe das praias europeias, das câmaras, dos telemóveis, há milhares que morrem, mas tu sabes disso, não é? Morrem de fome, doenças, tiros, minas, falta de água... Enfim, calo-me já, senão deixas de me ler e preciso da tua companhia. Sinto-me esquisito, sozinho... Com saudades do tempo em que me deixavam ser ingénuo....

Buscando maneira de combater este banzo onde caí, decidi telefonar ao advogado do Diabo, aquele meu amigo corrosivo que volta e meia aparece neste blogue. O aparelho nem tocou duas vezes, ele respondeu, sabia quem telefonava. Se não vê afixado o nome de quem chama, não atende, vem o respondedor: «Se é para mim não sei se estou, logo se vê; se é para a minha mulher telefone-lhe para ela.»
Para mim estava, mas a conversa começou logo mal:
– Atão em que trampa mental andas metido? Conta lá...
– Não é trampa mental nenhuma. Ando à procura duma maneira de sair dum banzo. Preciso de encontrar um sistema de valores, filosófico, espiritual, enfim uma religião coerente ou alguém que me mostre um caminho, alguém que justifique a existência dos humanos neste planeta.
– Isso é fácil, meu. Faz lá a pesquisa seguinte no DuckDuckGo: «10 gurus mais influentes -negócios». Não te esqueças de prefixar a palavra negócios com o sinal de menos senão sai-te à cabeça da lista um pincho de gurus das finanças. E não me perguntes porque é que eles vêm antes dos outros, dos gurus do espírito. Tu queres os iluminados, né? Hás-de reparar que um dos itens listados é: «Estes são os 10 maiores líderes espirituais da actualidade (10 fotos)». Pronto! Estudas a obra de cada um... Está lá tudo. Nem precisas de os contactar, eles explicam por extenso... Segues as instruções nas bulas, e ficas curado! Um verdadeiro antídoto contra o banzo...
– Estás a mangar comigo ou quê? Sabes que detesto ser mandado, seguir ideias feitas... Quero encontrar um espaço onde possa ser eu mesmo, livre, onde haja um líder que me oiça... Onde mesmo a gente comum possa ter influência... Um líder que me...
– Cala-te mazé! É impossível, digo-te já. Mesmo se não fores tiranizado pelo guru de serviço és influenciado... O que é uma boa coisa para pessoas como tu. Olha bem para ti. Leste tanta coisa à esquerda e à direita, sobre religiões e ateísmos, filosofias materialistas e teístas... E deste em quê? Andas tão confuso que até pensas tornar-te monárquico.
– Posso andar emaranhado, mas nenhum vendedor de felicidade ao desbarato me influenciou.
– Que obtuso me saíste! Claro que foste influenciado. E da pior maneira: pela negativa! Quando te animas com a biografia dum grande sábio, lá vais tu procurar a argumentação dos detractores. Para estares seguro... Para não te enganares... E, ooooh, coitadinho de ti, encontras sempre quem te mostre que o sábio tem defeitos. Olha o Gandhi... Lembras-te? Tinhas encontrado o teu guia! Viste-lhe o filme meia dúzia de vezes, vinha-te a lágrima ao olho com as frases tãããããão inspiradoras com que chateavas toda a gente... Até que te provei que o super-guru afinal era um homem como os outros. Odiaste-me quando te mostrei que o homem tinha escrito, preto no branco, uma infinidade de bocas racistas contra os negros, das quais nunca se arrependeu. Que dormia todo nu com caçundinhas de 16 anos, entre as quais as sobrinhas... Ooooh... Coidatinho de ti... Ficaste logo traumatizado... E desataste à procura doutros defeitos. Encontraste-os e não foram pequenos! E como o Mohandas não era um ser imaculado, nem sequer um democrata, desenhaste-lhe uma cruz sobre a imagem de santo pobre. No entanto o homem inspirou positivamente milhões de humanos. É o que conta, né? A produtividade da santidade. A sua acção foi benéfica, mau grado aquelas greves da fome duvidosas. Mas tu desiludiste-te... Desligaste-me o telefone na cara sem dizeres água vai. Precisas de pureza!  
– Coerência! Há-de haver alguém íntegro, alguma religião inatacável, uma pessoa consequente...
– Consequente? Há sim: Olha o Mandela! Mas o homem de espiritual não tinha nada. Ao contrário, parece que era ateu e se calhar com ideias comunistas... Era amigo do Fidel Castro, imagina!
– Estou a falar de coerência espiritual... Não do Mandela.
– Mostra-me uma religião e aponto-te logo uma dúzia de incoerências...
– O confucionismo.
– Estás a falar com os pés, meu... Confucionismo não é religião.
– O budismo! É pacífico, não me zunem a mona com um Deus perfeito, terrivelmente bom.... Mas incapaz de vencer o demónio...
– O budismo? És burro ou ignorante? Atão não era a religião do exército japonês que fez massacres horripilantes na China, torturas inqualificáveis, violações de mulheres em massa? Um exército de budistas que construiu os campos de prisioneiros mais asquerosos da grande guerra... E os religiosos zen lá estavam, muito serenos, a acender pauzinhos de incenso... Impediu o quê o budismo?
– Foram os homens que derivaram...
– Cala a boca, meu, só dizes besteiras! Se os homens derivam é porque são os homens que concebem as religiões... Consequentemente as religiões saem à nossa semelhança: Imperfeitas... Incoerentes... Ilógicas...
– Nem tudo. Individualmente, cada uma delas tem qualquer coisa de bom. Se pudéssemos extrair essa parte....
– Porra! Olha que até me fazes dizer palavrões. Queres um bufete de religiões onde vais escolher os pedaços mais gostosos, né? Mas isso já existe: New Age. Nunca ouviste falar? É elástico, compões a refeição espiritual segundo o apetite de momento, e até engatas umas caçundinhas jeitosas que elas são muito dadas por lá. Atão se as convenceres que és um ser de luz... Olha, às tantas até te convém, a ti a quem as namoradas dão todas com os pés.
– Quando me desponta uma esperança no espírito, lá vens com a tua agulha e... BUM!.
– Sabes como sou... Não te lembras que me chamavam Rebenta Balões? Não reparaste que é isso que os ditos humanos querem? Balões! Balões imensos, daqueles que os levam aos céus. O produto que os faz voar é menos importante, o que é preciso é descolar. Olha à tua volta. Maior parte anda a voar com um balão numa mão e uma agulha na outra para rebentar os balões dos outros.
– Mas tu não tens balões! Nem eu...
– A diferença entre nós, é que tu estás pregado ao chão à procura duma barcarola como a do padre Gusmão. Para a encheres de hélio ou ar quente ou lá o que era... Ou de vontades roubadas como no romance do Saramago. Queres voar mas não consegues! És duma candura comovente. Ainda me fazes chorar.
– E tu?  Não me digas que não te faz falta ver a terra do alto.
– Sofro de enjoo quando voo... Mas tenho outras coisas nas mãos...
– O quê?
– Uma caixinha de agulhas!
Desliguei, furioso, sem dizer água vem.

Isto aconteceu no princípio de Setembro. Fui à janela e vi uma grande quantidade de balões voando pelo azul do céu. Não pude deixar de imaginar o advogado do Diabo visando-os com um arco de corda bem tesa e flechas pontiagudas.  Era a famosa largada de aerostáticos na região onde vivo, uma das atracções turísticas cá da banda. O festival em si dura vários dias e há proprietários de balões que te levam a dar uma voltinha mediante uma certa quantia. Ali, a coisa é clara. Não há céu gratuito, não tocas nos comandos e vais para onde o vento te levar.  

E voltas sempre à Terra...​ Mesmo quando o balão cai! Sobretudo quando cai?


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© Carlos Taveira


LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOQUE



Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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Tuesday, 1 September 2015

Escrita automática, channeling e espírtios perversos

Onde se fala de espíritos rasteiros, de plágio falhado e de channeling
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Um dia destes ouvi no autocarro duas jovens senhoras que falavam animadamente de channeling, contactos com o outro mundo, espíritos de alto e baixo astral. O tipo de conversa que geralmente me deixa indiferente, mas que naquele dia despertou a minha curiosidade. A expressão «escrita automática» espetou-me a orelha perdigueira, arrancando-me à leitura dum excelente livro de bolso (Reclaiming Art in the Age of Artifice: A Treatise, Critique, and Call to Action, J. F. Martel). O autor reposiciona a arte nesta época de artifícios, explicando-nos porque é que aquela publicidade muita bem-feita, com uma mulher de sonho que até parece ter sido criada por um dos velhos mestres holandeses, não tem nada a ver com a Arte.

Estava eu a reler a passagem onde o autor fala dos três condimentos da verdadeira obra de arte segundo Joyce, integritas, consonnantia, claritas (há dias em que me sinto tão erudito), quando fui despertado pela tal frase no autocarro, «escrita automática», que veio à baila várias vezes entre as duas amigas. O que ouvi interessou-me e busquei informação no DuckDuckGo. É como o Google mas não guarda informações pessoais nem traço das tuas pesquisas, nem te aparece pornografia indevida quando buscas coisas decentes. Dei-me conta que a tal escrita automática não me era completamente desconhecida. Mas agora, que editores corajosos me fizeram o favor de publicar alguns dos meus romances, a coisa revestia um aspecto diferente. O que te vou confiar fica só entre nós, porque é feio, arrisco-me a que mudes a tua opinião sobre a minha honestidade. Mas abro-te o coração,  que é uma maneira de falar, se abrisse o coração é claro que morria. Aliás, se invertermos esse coração que desenhamos por todo o lado, dá uma bundinha perfeita. Há quem defenda que é daí mesmo que vem o símbolo universal do amor... Mas acho que me estou a desviar do assunto. Dizia eu que a escrita automática me tinha dado uma ideia genial: fazer uma impostura indetectável.

Explico!

A ideia que me veio à cabeça foi a seguinte: conectar-me ao espírito dum grande escritor falecido, como por exemplo o Eça de Queirós, e convencê-lo a transferir-me um potencial best-seller utilizando a escrita automática! É verdade que moralmente a coisa é duvidosa, vem-nos a palavra plágio às mentes. Mas como os espíritos não têm assento nos tribunais... Enfim, poupo-te a descrição das pesquisas. O assunto em questão é coisa de médiuns e de espiritistas. O médium coloca algumas folhas de papel e qualquer coisa que escreva à mão de semear, prepara-se mentalmente, fecha os olhos e invoca o espírito. A um dado momento a mão move-se e escreve coisas. Como aquele telex antigo, lembras-te? De repente acordava e desatava a tiquetaquear, transmitindo mensagens ditadas do outro lado do fio. Os especialistas em escrita automática, segundo as minhas pesquisas, utilizam técnicas menos sofisticadas e insistem no papel e lápis, esferográfica ou caneta. O que me trouxe o primeiro embuste: a minha caligrafia é tão má que nem consigo ler o que escrevo. Resolvi, portanto, adaptar a técnica aos tempos modernos e utilizar o computador. Regulei a altura do assento de maneira a repousar os antebraços nos braços da cadeira, deixando os dedos mortos caídos sobre o teclado. Depois foi só esvaziar a mente e invocar o Eça. Para evitar que um espírito rafeiro se intrometesse, fumiguei previamente a casa com ervas aromáticas, método que os índios cá da banda utilizam há milhares de anos. Mais abaixo podes ler o resultado da experiência. Foi ligeiramente retocado, não é o original tal como saiu automaticamente. A pontuação estava reduzida ao mínimo e até pensei que o espírito do Saramago se tinha intrometido. Mas a letra f transformada em ph, e outros detalhes do género, indicavam que o texto vinha duma época mais antiga. Os comentários entre parênteses foram adicionados.

Atenção, aí vai!

Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm....

Lua, luz, carros que passam, candeeiro fechado... Como se os candeeiros se fechassem... Irra! Não, não posso racionalizar tenho de deixar o cérebro conectado ao céu e aos dedos, ó cérebro conecta-te, talvez através do GodSpot, localizado num neurónio como pretendem alguns cientistas entusiasmados, uma espécie de mail de Deus... O candeeiro da rua abriu-se e fechou-se, mas não, não se fecha um candeeiro, apaga-se-lhe a luz, porque o candeeiro não tem portas nem pernas para ter passos, até parece que estou a falar do governo. Um candeeiro é uma coisa inerte cuja função é a de se iluminar à noite, apagar-se de madrugada, com pássaros a borrarem-lhe o crânio e cães a mijarem-lhe (esta saiu em vernáculo, vê-se logo que estava em transe porque sou bem educado e não escrevo palavrões) na base... Alguns bêbados também ali se aliviam, coisa que nunca fiz, mesmo com um copo a mais. Mas alguns amigos fizeram-no, para ser honesto lembro-me de o ter feito, sim, durante a noite, sim, mas não num candeeiro, foi numa estátua duma outra cidade. Foi uma daquelas coisas parvas de adolescente, «e se fossemos mijar numa estátua em Novo Redondo?» Estávamos no Lobito. Não me lembro do nome do herói na estátua mas recordo-me que fazia noite. Éramos três, um tinha carro, guiou, chegámos ao destino, mijámos na base da estátua, não sei se havia pombos a defecarem-lhe na mona. Era de noite e tínhamos de fugir antes que o guarda-nocturno aparecesse. Também não podia fazer grande coisa, o pobre guarda-gatuno (era o outro nome que lhe dávamos, para gozar) andava a pé ou de bicicleta, era mal pago, não tinha pistola, trazia matraca pendurada no cinturão, vestia farda de caqui, boné de almirante e tirava um cochilo nas escadas dos prédios.

Arre! Aí está... Perdi a conexão como acontece às vezes com o wifi lá de casa. Bom... Vou tentar de novo...

Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm....

Deixa-te guiar, deixa os dedos correrem, exprimirem um pensamento bonito... Abandona-te, deixa vir naturalmente a coisa, deixa... A vida é como a noite... Não, não é como a noite. A vida é como um candeeiro, ilumina-se, apaga-se, vê sol, vê noite, às vezes defecam-lhe em cima, às vezes mijam-lhe por baixo, mas teima em ficar de pé até ficar ferrugento. Um dia há-de cair, corrompido pela velhice. A vida é isso mesmo, uma coisa que vive como um candeeiro que para sobreviver tem de se conectar a uma corrente única que dá vida a outros candeeiros plantados pelas ruas, somos comunidades de candeeiros, uns mais brilhantes, outros menos, alguns extintos, outros avariados que ficam a brilhar noite e dia até a lâmpada se fundir. Depois pifam e ficam malucos...

Uf... Pausa! Lá se foi o espírito... Mas deixou-me pensamento bonito, se calhar vou pô-lo no Facebook para os amigos clicarem no «gosto», «like», «j'aime», «me gusta», nas quatro línguas que eles falam. Estou cansado de não pensar. Quero descansar. Relaxar. É duro erguer diques para conter pensamentos intrusivos. Prefiro a lógica ao channeling, acho que não tenho jeito para isto, os espíritos superiores dão-me com os pés como fizeram as minhas namoradas. Aparte a última intervenção, aquela da vida que acho bonita, o channeling  não me trouxe nada de jeito. Aquilo é mijadelas e pombos cagões e candeeiros enferrujados. É pena! Gostava tanto de produzir um pensamento grandioso do género: a vida é como uma vaga que vai e vem, vai e vem, vai e vem... Olha que chatice! Fiquei encalhado neste vai e vem... Espera! Até me leva a pensar em perversa copulação. E perversa porquê? A copulação não é perversa se for consentida por quem copula. Pára meu! Em vez de channeling, isto ainda vai dar em pornografia. Mas para ser sincero esta deriva tem os seus encantos. Posso-me embalar por aí fora, dedilhar a pele excitada das teclas... Aaaah! Há espírito que ronda, que fareja... Sinto-o pertinho. Deixa-me pôr em posição para fisgá-lo.

Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm.... Oooooommmmmmmmm....

A vida é como as vagas do mar espraiando-se sobre os areais do mundo, as sombras da noite envolvem-nos as coxas e os rins doidos de paixão, reinventamos as ondas com este ritmar dos corpos a bater na água que vai e que vem que vai e que vem... Mesmo as estrelas se calam, elas que gostam tanto de crepitar  risos maliciosos e de tanto brilhar como candeeiros iluminando as picadas percorridas por espíritos voyeurs que nos contemplam, que nos encorajam... Aaaah! Continua, continua, espírito sensual que a mim te conectaste. Olha lá! Espero que sejas espírito-mulher porque sou heterossexual! Ah, sim? És do género feminino? Então fala, fala... Isso... Inventamos vagas e crispações e arranhamos a areia com os dedos curvados pelo desejo que se lamenta, mas que não é dor, que é um furor antigo, mas bom, uma fúria que nos sai das vértebras pela base da espinha... Uma pulsão irresistível de nos enterrarmos pela noite adentro... Tu veleiro, eu brisa; tu vento, eu vela. Corpos molhados singrando águas tropicais que ritmam esta paixão bivalve. Quilhas cruzam águas revoltas, encapeladas, levantando vagas e salpicos... Hmmmmmm. Voilà! Uma tempestade rumoreja, aproxima-se, ribomba, há relâmpagos e aguaceiros... Afogamo-nos um no outro! E há milagre, também, há milagre inesperado flutuando na superfície das águas salgadas: a espuma das ondas sabe a mel picante!

Uuuuf!

Creio que desmaiei. Ou adormeci. Quando acordei, nada de best-seller. É melhor ficar quieto. Uma especialista nestas artes elucidou-me. Fracassei em comunicar com o Eça porque, como sou ateu e descrente, tenho tendência para atrair espíritos de baixo astral.  A influência dessas alminhas corrosivas pode ser perigosa, levar-nos ao deboche, à doença ou (em casos extremos) à violência, verbal ou física. Fiquei com medo, vieram-me ao espírito alguns pensamentos terríveis, inconfessáveis, que me assaltam quando oiço os políticos mentirem-me com descaro como se fosse idiota. E sobretudo agora que estamos em eleições dos dois lados do Atlântico.

E assim se concluiu a minha experiência em escrita automática. Tenho um amigo sarcástico que gozou comigo, dizendo-me que, se quero dedicar-me ao esoterismo, é melhor tentar o partido monárquico. Ele tem uma ideia fixa com a monarquia, já ma tinha aconselhado quando andei à procura dum deus. Mas se calhar o homem tem razão. De facto a monarquia não me enfurece, ao contrario, faz-me rir, acho-a honesta e grandiosa, é mais barata, eleva-me a alma e repele os espíritos de baixo astral que são, seguramente, republicanos com tendências esquerdistas.


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© Carlos Taveira


LIVROS ASSINADOS PELO AUTOR DO BLOGUE



Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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