Monday, 24 August 2015

Conforto: classe, substantivo ou coisa complicada?

Onde se fala das várias definições de (in)conforto
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Conforto (derivação regressiva de confortar) é um substantivo masculino que significa:  nova força,  novo vigor, bem-estar, consolação (figurado), comodidade, conchego. É o dicionário Priberam da Língua Portuguesa em linha que o diz, e para não pensarem que estou a dizer baboseiras aqui vai o apontador: Conforto.

Sinto-me honrado que o substantivo em questão seja do meu género (masculino), eu que sempre apreciei o conforto, vocábulo muito amigo do ócio e da preguiça. Conforto será, portanto, coisa macha. Estranho e ilógico, não é? Quando se diz «macha», associa-se-lhe o vocábulo feminino «coisa»: coisa macha, que é coisa de homens. E depois admirem-se de haver tanta gente confusa com a sua própria (e a dos outros) orientação sexual. Isto não quer dizer, de maneira nenhuma, que só quem é de sexo masculino tem tendência para o conforto. É apenas uma tendência. Tendência contrariada por algumas senhoras que muito prezam o seu bem-estar, a sua comodidade, o seu lazer e até têm criados para isso. E como a excepção confirma a regra, há homens (poucos) que pouco ligam ao conforto, por exemplo um tipo que conheço, que passa a vida no ginásio e na piscina e nos halteres e sítios afins, que até engatou uma mulher mais nova que ele uns quinze anos. Conforto, segundo a minha modesta opinião, deveria ser substantivo biforme, aí está uma injustiça que o novo acordo ortográfico não corrigiu. Mas se calhar, ignorante como sou, estou para aqui a dizer um chorrilho de asneiras e o acordo ortográfico não se ocupa do significado de fatos e cagados.

Adiante, antes que continue a dizer besteiras...

Como dizia mais acima, sempre tive uma clara ideia do que é o conforto. Foi por isso que, quando decidi apanhar um combóio para uma mui bonita e antiquíssima cidade situada no norte do país (onde há um vinho muito famoso que não menciono porque não me pagam para fazer publicidade) fiquei excitado quando descobri que havia uma classe Conforto! Marquei logo dois lugares porque a minha companheira, aquela que (ainda) não me deu com os pés, viajava comigo. Ou eu com ela. Imaginei-me logo de pernas displicentemente estendidas, limonada sobre a mesinha levantada entre nós os dois, horrorizando-me com um excelente livro sobre a escravatura (« Escravos e Traficantes no Império Português» de Arlindo Manuel Caldeira) enquanto a paisagem ia desfilando lá fora. E, claro, bem servido por um pessoal atento à comodidade dos passageiros, prontos a resolver a mínima contrariedade, como, por exemplo, a falta de papel higiénico no WC.

Já na estação, malas apressadas rolando atrás das sandálias, perguntámos a um funcionário de uniforme cinzento qual era a linha do combóio para o norte. Ele enviou-nos para a 13. Era a 12, via-se logo que o homem não era supersticioso, tinha errado por um algarismo, já se viu pior, as previsões dos ministros da economia, por exemplo. Entrámos todos contentes, procurámos os lugares, encontrámo-los e... Surpresa!

Cagaçal!!!

Sobre o tampo da mesinha, copo de plástico entornado, papéis sujos, um dos assentos molhado com um líquido duvidoso. Desilusão, claro, mas como somos turistas optimistas pensámos que, como aquilo era Classe Conforto, o problema seria resolvido com presteza, sorrisos, desculpas e eficácia. Bem-educado como sou, cedi o assento limpo à minha companheira e fui à procura do pessoal de serviço às mesas. Encontrei-os, era fácil, envergavam uniforme azul, foram muito simpáticos, insurgiram-se contra os vândalos que deixavam uma mesa num tal estado lastimável, era inadmissível... Mas, pesarosos, informaram-me que não era da responsabilidade deles limpar o tal cagaçal. Ingénuo, e desconhecedor das responsabilidades distribuídas pelos funcionários do tal Caminho-de-ferro (do qual não digo o nome para que não me acusem de caluniador, mas que não era o de Benguela não senhor), ainda perguntei:
– Mas não são vocês que distribuem bebidas e comidas?
Ao que me foi respondido:
– Sim. Mas não é nossa responsabilidade limpar o vandalismo dos vândalos.
– Atão de quem é?
Não sabiam muito bem, mas sugeriram-me expôr o espinhoso problema ao revisor.
– Tem uniforme cinzento - E disseram-no de sorriso maroto como se antecipassem uma situação cómica.

Lembrando-me do outro funcionário de uniforme cinzento, na estação, que por pouco nos tinha enviado para outra cidade, fiquei desconfiado. Todavia lá fui à aventura e encontrei o revisor que me ouviu com atenção religiosa. No fim abanou a cabeça, desconsolado, compungido... Mas, enfim, a coisa não era da sua responsabilidade e até precisou:
– O meu dever é de ter o comboio limpo quando inicia a viagem lá no Sul. O que fazem os passageiros irresponsáveis, até ao destino, no Norte, não é de minha responsabilidade...
Fiz-lhe a pergunta óbvia:
– Atão de quem é a responsabilidade? É que eu cumpri o meu dever de passageiro: paguei os bilhetes.
Recebi uma resposta que ainda hoje me maravilha: a responsabilidade era de quem tinha feito o cagaçal! Sempre polido, mas já agastado, perguntei-lhe se devia viajar num assento molhado com copos entornados sobre o tampo. A resposta foi tão deliciosa como as precedentes:
– Podem desembarcar e tomar o comboio da noite.
Por fim lá negociou com outro passageiro que, amável, veio sentar-se na cadeira que nos pertencia. Ficámos em dois lugares contíguos, mas sem mesa no meio. Só uma semana depois soube que havia um livro de reclamações, que não me foi proposto pelo simpático revisor cuja responsabilidade não era a de manter confortável a carruagem Conforto.

A leitura do excelente livro sobre a escravatura, e da maneira como os escravos eram transportados, relativizou o meu desconforto. Mas como tenho a mania de pensar no significado das palavras, não pude deixar de meditar nestas duas: Responsabilidade e Conforto. Será que o seu significado varia de país para país? Às tantas! Já me aconteceram percalços noutros meios de transporte, por exemplo num país onde cai muita neve, que tem muito gelo e onde faz um frio de morrer e do qual não digo o nome para não pensarem que estou com favoritismos. Mas nesse país, houve funcionários responsáveis que, preocupados com o meu conforto, resolveram a coisa duma maneira que me parece lógica: Limparam!

Acho que o novo acordo ortográfico perdeu uma boa ocasião para mudar o significado destas duas palavras: Responsabilidade e Conforto... Seja como for, não encontrei nenhuma substância na classe Conforto do tal Caminho-de-ferro (que não é o de Benguela, o CFB, não senhor) dum país do qual não digo o nome para não me acusarem de me armar em turista difícil, fazendo confusão. Porque era simplesmente isso que fazíamos: turismo em classe Conforto. E se durante a próxima revisão ortográfica e lexical, mudássemos o significado de outros vocábulos, como, por exemplo: brio, profissionalismo, obrigação, consciência, dever... etc., etc., etc...

A não ser que seja culpa da Angela Merkel, da Tróica e do governo. Nesse caso...

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© Carlos Taveira



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Texto Editores, Lisboa, Portugal, Lisboa, 2006, 319p, ISBN : 9789724731452

La traversée des mondes, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
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Wednesday, 29 July 2015

O jovem canalha do autocarro

Onde um adolescente educadíssimo decidiu que eu era velho
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Olha meu camba, estou a ficar velho. Deveras. Tive a prova disso no autocarro. Não é por motivos ecológicos que ando nos transportes públicos. Mas não tenho nada contra a ecologia, note-se, até lhe dou a minha contribuiçãozinha. Reciclo as garrafas de cerveja e coloco as de vinho no alto do contentor - há uma senhora que nos dias de reciclagem passa com o carro e leva o vasilhame. Esqueci-me que tenho impressora e não envio para o lixo dezenas de folhas por dia como vejo alguns colegas fazer aqui no escritório, um desperdício. Mas acho que estou a divagar, meu camba. Estava a falar de velhice e não de ecologia, dois assuntos diferentes. A menos que nos dê para reciclar velhos, olha que boa ideia, até dava um romance de humor negro. Fica anotado.

Adiante!

Adiante porque a vida é sempre a avançar e o envelhecimento não pára mesmo quando nos imobilizamos. Até é pior. Paradoxal, né meu camba? Um corpo em repouso deveria economizar músculos e células segundo a lógica simplista (falta-me formação científica) que o que não é usado não se gasta. Mas não... Ficar de molho não ajuda! Conheço um tipo da minha idade que não parou de se mexer até hoje, aquilo é futebol e natação e ginásio e marchas forçadas (evita o jogging para não gastar os joelhos) e frutas e legumes e ioga e meditação... Enfim, isto para te dizer que esse tipo da minha idade anda tão bem conservadinho que até engatou uma namorada quinze anos mais nova. A rapariga não é lá duma grande beleza, é verdade, mas tem um corpo de atleta e esse tipo que tem a minha idade também se interessa por atletismo. De onde se conclui que a saúde do corpo é como a saúde económica: quanto mais rolam melhor se comportam. Sou tão preguiçoso para exercício que quando era novinho escolhi três desportos que se praticam deitados ou sentados: natação, remo e caça submarina. Esta última era a minha actividade preferida porque podia ficar a boiar de barriga para baixo, à espera do peixe. Uma vez até adormeci. Mais tarde, para ficar com a forma daquele tipo que é da minha idade, que tem uma namorada muito mais nova, fiz um grande esforço e dediquei-me a outras actividades onde era preciso saltar e correr e dar pontapés. Acho que foi isso que me envelheceu prematuramente senão nunca tinha passado por aquela humilhação no autocarro.

Bom... Estava a evitar, mas é preciso abordar a parte difícil!

Entrei eu no autocarro com o meu passo elástico, vestido de jeans, t-shirt e sapatilhas à moda quando reparei que não havia lugar sentado. Fiquei logo de mau humor porque, como vos disse, adoro sentar-me e deitar-me, são as minhas posições predilectas e quanto à horizontal tanto faz que seja de costas, de barriga para o ar ou de lado. Tive uma namorada que se zangou comigo porque tinha um jardim e estava convencida que seria normal utilizar as minhas mãos bem tratadas nessa trabalheira de arrancar ervas daninhas e adubar a terra. Ficou muito admirada quando se deu conta que eu ficava sentado um terço do dia a escrever, outro terço deitado a ler, posição que conservava até ao terceiro terço quando apagava a luz para dormir, o que completava o meu ciclo circadiano... Desiludiu-se! Olha, meu camba, inevitavelmente deu-me com os pés, como fizeram todas as outras. A minha namorada actual que (ainda) não me deu com os pés, também tem jardim, mas não me mobiliza e até acha bem a divisão tripartida do meu dia de trabalho. Tenho a impressão que isso sim, é o tal amor, coisa difícil de compreender.

Ah... O autocarro!

Como dizia, entrei no autocarro com passo elástico para parecer mais novo como aquele tipo que tem namorada mais nova uns quinze anos, quando reparei que todas as cadeiras estavam ocupadas. Fiquei logo mal disposto. A minha contrariedade, no entanto, caiu no olho dum canalha duns quinze anos, do tipo educado com esmero em colégios privados. Todo muito bem vestido, com sapatos de verniz, calcinha bem ajustada, vincada, gravatinha, bem penteadinho, óculos redondos estilo Harry Potter. Estás a ver o género, não é meu camba? Na escola, quando o professor lança uma pergunta à turma, deve ser o primeiro a levantar o dedinho para responder. E responde a tudo porque é muito bom estudante. Um graxista! Não é que o grandessíssimo @#|~& se levanta para me dar o lugar? Com uma veniazinha aristocrata do tempo do Luís XIV e tudo... Com um «monsieur» de respeito e tudo... Como se eu estivesse prestes a cair apoiado a uma bengala... Como se estivesse a babar-me e a tremer... Como se estivesse senil! Até fiquei com a impressão que todos os passageiros do autocarro me olhavam com caridade. Só uma vez na vida, durante a minha primeira comunhão, fiquei tão encavacado quando um padre brutamontes me prometeu um par de estalos diante do altar. Bofetões que de boa vontade teriam sido transferidos às bochechas rosadas do adolescente bem educadinho. Mas retive-me e atirei-lhe um seco «non merci» que lhe martelou no peito e o devolveu ao assento.

Continuei furioso, é claro, e foi aí que me lembrei duma monografia do mestre budista Thich Nhat Hanh. Segundo ele, para recuperar a calma perdida a seguir a um acontecimento traumático, devemos colocar a mão aberta no ventre e respirar fundo : «inspiro sei que inspiro, expiro estou calmo». Deu certo! O canalha conservou a sua integridade física e eu recuperei um pouco do meu orgulho. Mas não todo. Como consequência fui tentar o budismo, não para me acalmar mas para ver se rejuvenescia. Tira o cavalinho da chuva! Os mestres zen disseram-me que era preciso aceitar os ciclos da natureza.

Olha, meu camba, continuei descrente!


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Tuesday, 28 July 2015

Raio de padre que me prometeu chapadas

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Onde um religioso profissional me ameaçou em pleno altar
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Olha meu camba, comecei a contar pelos dedos e cheguei à terrível constatação que me resta muito menos tempo para viver do que aquele que já vivi. Estou a ficar velho ! Consequentemente, deu-me para contabilizar os meus pecados.

Iiiiiih... Cruzes, credo, canhoto !!!

Afinal sempre me dava jeito uma religião que me perdoasse os deboches e outras façanhas sem glória das quais não sinto grande orgulho. E, claro, como só um Deus o pode fazer, falei com um amigo que é ainda mais velho que eu, para saber a opinião dele. Mas esse homem é um cínico, um desiludido da vida, um azedo, e desaconselhou-me.
– Ó pá ! Olha que isso é caro, não é como dantes. Vão-te ao bolso, meu. Aquilo é dízimo todos os meses, depois umas massas para o tecto da igreja, que mete água, as esmolas nas missas, uns cobres quando vem o Natal, para os pobrezinhos. Vão-te ao bolso meu...
Repliquei-lhe que o paraíso era eterno e não tinha preço, mas ele calou-me com aquele gesto seco da mão que significa: só dizes asneiras. E prosseguiu:
– Vai é pró partido monárquico que é mais barato, e até tens direito a um Deus com a inscrição. Fortalece-te a convicção, meu... é que vais precisar de muita fé para acreditares nos dois, no partido e no divino. Oh! Oh! Oh!

Riu-se grosso,  como se tivesse proferido a piada do século. Um cínico, é verdade, mas tinha razão numa coisa: isto de religião e Deus já não é como nos meus tempos de jovenzinho quando eu era católico e a igreja abastada. O catolicismo era barato para todos, por ser o credo oficial, financiado pelos contribuintes, mesmo se fossem protestantes como o senhor Amílcar da Caponte. Nesses tempos os padres não precisavam de assediar os cristãos para pagarem o dízimo, que não sei se hoje em dia será dedutível de imposto, hei-de-me informar, às vezes são estas coisas anódinas que desencadeiam a faísca da fé.

Como é que as testemunhas de Jeová souberam que eu andava à procura dum Deus ? Não faço a mínima ideia. Mas é facto que encontrei duas à porta de casa, de casaco e gravata, brochuras na mão. Vinham para me convencer a ir a uns estudos bíblicos. Sem compromisso, garantiram-me. Para me desembaraçar deles, respondi-lhes, enfadado, que já tinha tido uma religião quando era menino e moço, que não estava com vontade de repetir a experiência, que agora estava  a considerar o partido monárquico. Uma das testemunhas, um gajo com maneiras de chico-esperto, ficou de chispa no olho a raspar-me o fundo da retina para tentar descobrir o trauma que me tinha levado a abandonar os papistas e, a partir dali, dar-me a volta à mona e converter-me. Desatou a falar da depravação dos padres e eu, para acabar com a conversa, expliquei-lhe que até me tinha dado bem com eles. Havia mesmo um (o padre Celso) que era muito alegre e que vinha jogar à bola connosco e havia outros de espírito muito aberto que falavam de sexo e tudo. Alguns deixaram de ser padres depois do 25 de Abril, não sei se foi por causa da descolonização ou de tanto falar de sexo. Dei-me sempre bem com os padres, é verdade, mas há excepção: o raio do padre Oliveira Martins que era enorme, de pestanas cabeludas, e que me prometeu chapadas quando fui à comunhão solene.

Eu explico...

Uns dias antes do dia da cerimónia da primeira comunhão (e solene) havia ensaio. A primeira comunhão era coisa séria e delicada, havia cuidados a ter, por exemplo não se podia mentir entre o dia da confissão e o da comunhão, nem se podia deixar a hóstia tocar nos dentes. Senão estava tudo estragado e corríamos o risco de ir parar ao purgatório, que é como ser deputado da oposição. A parte mais bonita da cerimónia da primeira comunhão acontecia quando éramos levados por anjinhos (que eram meninas) para o altar. Esperavam-nos ali, com firmeza, as mãos robustas do raio do padre Oliveira Martins com uma hóstia entre os dedos. Havia duas filas de crianças prontas para o sacramento, uma ala esquerda e uma ala direita. Eu fui colocado na da esquerda, posição recorrente durante toda a minha vida e que só me trouxe chatices. Naquele dia também. Os dois anjinhos aproximavam-se de nós, num passo lento, medido, grave, punham-nos uma mãozinha no ombro e guiavam-nos até às horrendas mãos do raio do padre Oliveira Martins onde nos era dada uma falsa hóstia não consagrada (se bem me lembro, há pormenores que me escapam) para treinar, não fosse a verdadeira tocar-nos nos dentes o que estragava tudo.

Ora aconteceu que o rapazote que ia pela ala direita ao mesmo tempo que eu, o meu par de comunhão por assim dizer porque íamos dois a dois, ficou de olho gordo no anjinho que me calhou. Chamava-se Ruth, tinha uns cabelos ondulados cor de azeviche e uns olhos negríssimos, inquietantes e destemidos. Ora, quando ela me pôs a mão autoritária no ombro (sob o olho vigilante e impiedoso do raio do padre Oliveira Martins), vi uma grande ciumeira turvar o olhar do meu par de comunhão, que progredia pela direita. Ia conduzido pela mão da Rosarinho (mas não é a Rosarinho que se casou com aquele tipo magrinho que era jogador de hóquei, o Peneda, é uma outra que não sei onde está), que também era bonita, mas de beleza mais discreta e de semblante muito doce. A Ruth pareceu-me autoritária (não sei se era, mas pareceu-me) e como já naquela altura as mulheres autoritárias me intimidavam (sentimento que perdura) baixei logo os olhos. Para tudo vos contar, a Rosarinho era a minha preferida e, embalado numa onda de virtude proporcionada pela santidade do lugar, imaginei-nos naquele mesmo altar a sermos casados pelo padre Celso (mas não digam isto à Rosarinho porque ela nunca soube, era segredo). Todavia, como eu tinha bom feitio e não era ciumento (ainda hoje não sou, mas hoje é fácil, estou quase velho e os ciúmes dão-me uma grande canseira), achei graça àquela situação, invertida por assim dizer, a de ser conduzido pela preferida do meu camarada de comunhão e ele a ser conduzido pela outra com quem o padre Celso me haveria de casar um dia. Mas ao ver-lhe a cara de despeito e de inveja com que me mimoseou quando a Ruth pousou a mão dela (com autoridade) no meu ombro, impelindo-me para o altar (pela ala esquerda), olha meu camba, deu-me para rir. Ora eu não sabia que quando se caminhava para receber a primeira comunhão (pela ala esquerda ou direita, ia dar ao mesmo) os risos eram muito mal recebidos pelo Eterno que os considerava como uma grande falta de respeito. O raio do padre Oliveira Martins sabia-o muito bem, e como era ele o encarregado de manter a disciplina que o Senhor impunha, mirou-me com uma carantonha horrível, atrás dos sobrolhos cabeludos muito franzidos, carregadíssimos, e largou um trovão colérico, numa voz que parecia sair das profundas do Inferno:

Ó miúdo, vê lá se queres levar duas chapadas aqui mesmo.

Fiquei apavorado !

A cólera divina, incorporada no raio do padre Oliveira Martins, fê-lo crescer ainda mais enquanto eu ia diminuindo. Ainda por cima havia muitas pessoas na igreja a assistir ao ensaio, madres e tudo. Imagina, meu camba, toda aquela gente de boa cepa católica a mirar-me com severidade como se eu fosse um iconoclasta juvenil, a ser depachado para o purgatório em correio prioritário. Lampejavam pela igreja olhos cruéis, sobrolhos ríspidos, semblantes ameaçadores, tudo aquilo focado em mim como fachos ardendo nas mãos de inquisidores do Santo Ofício. Acho que a Ruth teve pena de mim, lembro-me que a cara severa dela (que me parecia autoritária) se suavizou, se calhar porque sentiu uma compaixão cristã (ao contrário do raio do padre Oliveira Martins) e porque achou tudo aquilo um exagero. Olha meu camba, nem sequer ousei mirar a Rosarinho para não lhe mostrar o pânico estampado no meu semblante, não fosse ela pensar que eu era um medricas. Mas lembro-me bem da fronha do cretino do meu par de comunhão que andava de olho gordo na Ruth (ela nunca lhe ligou nenhuma, acho que o ignorou até hoje e é muito bem feito): arreganhou-se-lhe a cremalheira num sorriso vicioso, de vencedor, contente com aquelas terríveis chapadas que me tinham sido prometidas.

Deve ter sido ali, naquele momento, que iniciei uma longa carreira de descrente. Foi um grande choque para mim constatar que a justiça não existia nem sequer na casa de Deus. Senão, porque é que ao tipo que sorria de vingança (que é pecado) não lhe foi prometida nem uma bofetadazinha por se ter rido de mim? Hã? Seria porque o raio do padre Oliveira Martins estava mais concentrado na progressão da ala esquerda? Ficou-me deste acontecimento uma tendência maquinal de caminhar para a direita quando me distraio. Uma psicanalista explicou-me que esse jeitinho é defesa inconsciente, para evitar as chapadas do raio do padre Oliveira Martins que me esperam nas alas esquerdas. Se fosse hoje em dia vinha logo a televisão denunciar a crueldade, o raio do padre apanhava com um processo no Tribunal de Menores e ainda lhe calhava um juiz rafeiro, comunista, a babar-se de gozo, daqueles que se pelam por enviar um sacerdote para a pildra. Se um dia falar com o Papa Francisco, que parece ter o bom feitio do padre Celso, hei-de-lhe perguntar se o raio do padre Oliveira Martins terá feito uma escala técnica pelo purgatório acusado de ter prometido chapadas a uma criança diante dum altar consagrado.

E isto para não falar das cóleras do raio do padre quando as senhoras começaram a entrar na igreja de cabeça descoberta. Olha, meu camba, chateei-me, deixei de lá ir, só ia às procissões por causa duma garota de olhos lânguidos, claros, mas que me deu com os pés como fizeram todas as outras.

Não há justiça neste mundo, meu camba, acredita...

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© Carlos Taveira


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Estou confuso meu camba

Onde se fala da minha confusão face às crises
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Sou velho mas disfarço com alguma água-de-colónia, umas gotas de perfume francês, embora isto me limite os movimentos, há alergias a tudo mesmo aos velhos, mesmo aos aromas. No outro dia até recebi um mail aqui onde trabalho temporariamente como consultante que pedia para não utilizarmos os hand-sanitizers, há alguém que tem uma alergia tão forte a isso que diz que pode morrer se entrar em contacto com resíduos do produto. Deve ser um funcionário público porque se fosse um consultante davam-lhe um anti-histamínico quando entrasse em convulsões e anulavam-lhe o contrato por incapacidade. Qualquer dia nem sequer podemos utilizar sabonetes nem champôs anti-caspa, vamos ter de tomar banho com água destilada, que chatice. Uma amiga que é muito religiosa disse-me que é o princípio do fim do mundo e eu começo a acreditar. Alergia a desinfectantes! Dis donc, já se viu coisa mais descabida?

Quanto a mim são as alergias que vão dar cabo da humanidade. Ninguém me tira da cabeça que tudo isto é uma guerra química lançada pelos alemães para acabar com os humanos e a humanidade. Já deram uma sova aos gregos que foram ao tapete bem abonados, a seguir na bicha estão os portugueses e os espanhóis, não lhes valeu nada indignarem-se contra o grego eleito que aquela minha amiga diz que é cá um milho e diz também que é pena que seja político. Mas olha meu camba, não é por ser assim bonitão que convenceu aquela senhora loira que parece panhonha (mas que não o é, ai não é não senhor, mas que é feia, lá isso é). E espera aí, os irlandeses não perdem pela demora, não é porque o De Valera conseguiu libertá-los do império britânico que aquela dama alemã que tem ar de buamada (*) (mas que não é) não os vai corrigir como só os alemães sabem fazer.

Mas digo-te uma coisa meu camba, ando banzado com os fios condutores da história (se é que há, sei lá), e isto vem a propósito duma constatação da qual não consigo extrair nenhuma lição (se é que há lição): a Alemanha perdeu duas guerras e ficou por cima e a Grécia ganhou cinco e ficou por baixo. Qualquer dia ainda volto a acreditar em Deus, deve ser o único a poder explicar-me estes mistérios. Todavia Ele deve estar zangado comigo porque deixei de O temer, mas reparem nas maiúsculas, não há nada como ser prudente né? Temer, temer, verdadeiramente temer, é o Diabo que temo, ele horroriza-me porque fui assaltado por uma aterradora certeza: Belzebu montou palácio nesta nossa Terra, anda por aí a fazer das suas, a recolher alminhas para se alimentar e até desconfio que foi ele quem gamou a da Europa... Só pode!

Sou muito ignorante, é verdade, mas tive uma namorada que me disse que sou de intuição forte e ela (a intuição, não a namorada porque ela deu-me com os pés como fizeram todas as outras) diz-me que o Diabo não é grego, não senhor, que Satanás não tem cor nem raça nem religião nem partido, que é transparente, que é invisível. Assim, às vezes, segredou-me a dita intuição, estamos a olhar direitinho para ele (para o dito cujo Malandro), sentimos que está ali mesmo à nossa frente (cheira a velho, a bolor e a enxofre) mas como ele é transparente não o vemos, vemos mas é as pessoas que estão do outro lado da transparência com caras de banqueiros e de financeiros e de culpados e odiamo-los logo, e pomo-nos a esparramar denúncias, sarcasmos, indignações por essa bendita Internet fora. Mas do outro lado da transparência do Asmodeu é verdade, concedo, que se vêm muitas pessoas boas de odiar e de denunciar e não é só os banqueiros nem aquela senhora que é presidente do FMI da qual um amigo me dizia que tem cara de fuinha (mas que não é). E isto de odiar é como aquelas armas de dois gumes porque as pessoas que eu odeio e denuncio e que olham para mim do outro lado do Tinhoso, odeiam-me também e denunciam-me também porque pensam que o culpado sou eu e as minhas ideias e os meus demónios e também porque sou ateu e porque sou ignorante e porque voto no partido errado.

É uma grande confusão, não é meu camba ?
E isto sem falar do acordo ortográfico, senão...

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(*) Buamado ou boamado: expressão da minha juventude provavelmente um lobitanismo com origem no ovimbundo: alguém que parece estar sempre pasmado com tudo, género «ó patego olhó balão».
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Les Éditions L'Interligne, Ottawa, 2011, 576p, ISBN 978-2-89699-392-5

Mots et marées, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2014, 560p, ISBN 978-2-89699-392-5.

De la racine des orages, Poésie, Français.
Les Éditions L'Interligne, 2014, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

Mots et marées tome 2, Roman, Français
Les Éditions L'Interligne, 2015, 186p, ISBN 978-2-89699-404-5

A Feather for Pumpkin, Fiction, English
Create Space, 2016, 186p,  ISBN-10: 1519662505, ISBN-13: 978-1519662507

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